Publicado dia 7/2/2001 12:01:54 PM em Vidas PassadasA paciente chegou no meu consultório com meia hora de antecedência. Ela me disse que estava muito ansiosa e curiosa para ver novamente todas as cenas e emoções do seu passado, seja desta ou de outras vidas. Após deitar-se, comecei a contar de um a cem, pedindo-lhe que fechasse e abrisse os olhos, vagarosamente, a cada número pronunciado.
Ao final da contagem, ela estava bem relaxada e quase dormindo. Em seguida,
iniciei a viagem que a levaria de volta ao seu passado, descendo os degraus
da escadaria imaginária. No entanto, percebi que ela se recusava a colaborar.
Por alguma razão, seu inconsciente, apesar de ter todas as informações
do passado, estava reagindo contra. Ela me dizia que, por mais que se esforçasse
a regredir, nenhuma imagem ou sensação lhe vinha à mente.
Embora se sentisse completamente relaxada, na verdade, estava sem o querer "boicotando"
o nosso trabalho.
Percebendo isso, logo lhe propus um jogo: "Eu vou contar de um a três
e você vai me falar a primeira palavra que vier à sua mente, sem
pensar muito. O que vier à sua mente, você fala, está bom
assim?. Contei de um a três e ela me disse a primeira palavra: "medo".
Em seguida, contei novamente de um a três e pedi-lhe que falasse a segunda
palavra. Veio a palavra "dor". E por último, contei novamente
e ela me trouxe a terceira palavra: "pai". Então, pedi para
que contasse uma estória com essas três palavras. Ela me disse
que não sabia contar estória nenhuma.
Em tom firme, disse-lhe: "Você sabe sim. Pergunte ao seu inconsciente
e ele lhe dará todas as informações de que necessita. Elas
estão todas aí, armazenadas dentro dele. Pergunte-lhe e ele responderá.
O inconsciente é sábio. Tem todas as respostas."
Meio à contragosto, ela fez a pergunta. Em seguida, começou a
sentir que algo viscoso grudava na sua pele. Com muita angústia e aflição,
aos poucos, percebeu o seu corpo mergulhado num óleo esquisito, escuro
e pegajoso. Logo, descobriu que se tratava de um barril de azeite e, estranhamente
estava mergulhada dentro dele.
A sensação e o cheiro forte daquele líquido eram horríveis.
Pedi para que ela avançasse naquela cena, que prosseguisse adiante. A
paciente se debatia no divã, evitando colaborar comigo. Entretanto, por
mais que se esforçasse, já não conseguia evitar aquele
contato, pois já tinha ido para o lado de lá, para o seu passado.
Aos poucos, foi descobrindo que, na verdade, estava num navio. À princípio,
pensei que, pelo seu relato, se tratasse de um navio pirata, talvez por causa
das descrições das vestimentas dos homens que estavam no convés.
Todos muito fortes, feios e vestidos com roupas de seda muito coloridos, turbantes
nas cabeças, sem camisas, e calças arregaçadas até
o joelho. Aqueles homens a apavoravam e não tardou a descobrir o porquê;
mais uma vez a experiência dolorosa de vidas passadas se repete: ela havia
sido estuprada por eles, e, como era a filha do capitão e dono do navio,
eles tentavam evitar que seu pai soubesse do ocorrido, procurando afogá-la
dentro de um dos barris de óleo. Como ela gritava e esperneava muito,
a tarefa de ocultação do crime estava ficando difícil e,
felizmente, naquele momento, não tardou para que o capitão surgisse
em meio àquela cena dantesca e lhes ordenasse que a deixassem em paz,
açoitando-os com violentas chicotadas. Qual não foi a surpresa
da paciente ao descobrir que o capitão daquele navio mercante era não
somente o seu pai naquela vida, mas, principalmente, nesta vida.
Só então, ela entendeu o porquê de seus laços tão
profundos com seu pai nesta vida atual, ao ponto de despertar ciúmes
de sua própria mãe e de suas irmãs. Ela descobriu, portanto,
nesta sessão, que a sua relação com seu pai, na verdade,
já era muito antiga. Já vinha de séculos passados, quando
juntos, navegaram levando e trazendo exóticas iguarias, entre portos
e mares tão distantes, quanto desconhecidos.
Entretanto, apesar de exímio conhecedor dos ventos e dos oceanos, isso
não foi o bastante para que o seu pobre pai fosse preso em uma armadilha
montada por seus infiéis marujos.
Traiçoeiros, eles prepararam-lhe uma emboscada numa noite de tempestade e, quando menos esperava, foi lançado ao mar, tendo a cabeça praticamente decepada por um golpe, vindo de uma baioneta. Foi o que bastou para que os marujos tomassem conta do navio. Senhores da nova situação, eles se colocaram nas posições de comando, desviando o navio cujo nome era Macedonic, um dos mais conhecidos navios mercantes da época. Durante mais ou menos quinze anos, o poderoso Macedonic continuou a ser procurado, em vão, pelos seus companheiros da Marinha, pois ninguém mais soube de seu paradeiro. Inutilmente, durante anos e anos, esperaram por sua atracagem no porto, o que jamais aconteceu. Entre as pessoas que ansiavam por sua volta, estavam sua mãe e sua irmã, ambas, segundo a paciente, reencarnadas nesta vida, desempenhando os mesmos papéis.
Ninguém poderia supor, que sendo o capitão alguém tão
experiente, um verdadeiro lobo do mar, o Macedonic pudesse transformar-se num
navio pirata.
E fora exatamente isso o que aconteceu, logo após a rebelião dos
marujos em alto mar, que culminou com a morte de seu pai. Só então
ela entendeu porque, ao começar a regressão nesta sessão,
tivera a impressão de que estava num navio pirata. Pedi que ela prosseguisse
mais adiante e se viu como prisioneira daqueles perversos, durante quinze anos,
trancafiada no porão do navio.
Com uma corrente amarrada num dos pés, ela mal podia caminhar cinco
passos sem que sentisse terríveis dores nos seus tornozelos. O comprimento
da corrente era suficiente apenas para que ela chegasse até à
porta para pegar algo que muito vagamente poderia se parecer com comida.
Pedaços mal cozidos de peixe, nadando numa água escura e mal temperada
borbulhavam com azeitonas, compondo um grosso mingau de farinha.
Aquilo era tudo o que tivera para se alimentar, apenas uma vez por dia, durante
aqueles longos e tenebrosos anos. Ela perdeu a conta de quanto tempo permaneceu
enclausurada naquela masmorra, sendo assediada e violentada por aqueles homens
imundos, mal cheirosos e grosseiros, dezenas, centenas, infinitas vezes.
Ela crescera e se tornara uma jovem mulher. Aliás, mulher não
seria bem o termo, já que, na verdade, dadas as condições
subumanas que lhe foram impostas naquele lugar, tinha se transformado num "animal
selvagem".
Dos seus cabelos loiros e cacheados da infância, restava um emaranhado
de fios grossos e compridos, quase até os pés, avermelhados, quebradiços,
oleosos e cheios de piolhos!!! Bem, piolhos só para dizer o mínimo,
já que também tivera que se habituar a conviver com pulgas, baratas,
percevejos e ratos, que lhe faziam companhia, dia e noite, naquela masmorra
onde passara o resto de infância e toda trágica adolescência.
Na escuridão do seu paupérrimo aposento, mal conseguia distinguir
entre as luzes do anoitecer e do alvorecer. Como era ainda criança, quando
fora trancada no porão daquele navio, para uso e abuso daqueles homens
monstruosos, felizmente não sofrera uma tortura maior: uma possível
gravidez!!!
E, no exato instante em que ela reflete sobre isso, a paciente faz uma análise
da provável causa bastante plausível para o fato de nunca ter
desejado ficar grávida nesta vida atual.
Numa manhã - ou teria sido num entardecer - ela ouviu o barulho detonador
de canhões. À princípio, não conseguia entender
o que se passava. Apenas ouvia o corre-corre de um lado para o outro e o grito
desesperado dos que estavam no comando, com ordens e contra-ordens que só
faziam aumentar a confusão. O estrondo dos canhões ensurdecia-lhe
e dificultava o entendimento do que se passava no convés. Provavelmente,
o navio estava no meio de uma tormenta. Isso dificultava a ação
dos homens que deveriam proteger a embarcação e ela começou
a ir a pique, avariada e incendiada por todos os lados pelas granadas dos canhões.
Destroçado, o Macedonic começara a naufragar, num incontrolavel
incêndio a bordo, sem que nada mais esperasse, eis que num golpe de sorte,
a porta de sua masmorra se abre e surge um homem jovem e ruivo, todo vestido
de branco. Ele a solta e a conduz até o convés - amparando-a,
pois mal consegue sustentar-se sobre os pés - com a intenção
de resgatá-la para uma outra embarcação.
Porém, de trás de um mastro, surge um dos mostrengos assustadores
do Macedonic que, corta-lhe a garganta com sua baioneta, exatamente como haviam
feito com seu pai, o antigo capitão daquele trágico navio mercante.
Desfalecida, ela cai nos braços do marujo desconhecido, que só
tem o tempo de deitá-la no chão e cerrar-lhe as pálpebras,
antes de pular para sua nau segura. Antes de dar seu último suspiro,
a paciente pode reconhecer, no carinhoso gesto daquele desconhecido, seu marido
de sua vida atual.
Passados alguns instantes, que pareceram uma eternidade, ela já se viu
fora de seu corpo, presenciando, horrorizada, a cena de destruição,
morte e dor que acontecera numa longínqua e perdida baía do Mar
Mediterrâneo, nos idos de 1200.
E, apesar de desencarnada, continua, ainda por muitos anos, a vagar pelas praias
e imediações de onde tinha passado a maior parte dessa vida.
O desejo de reencontrar-se com seu pai é muito grande e a sensação
que tem é a de que ele também aguardava por esse momento, esperando-a
em algum lugar daquela região. Os fortes ventos que agitam o mar à
noite, muito bravio naquela baía, preparam verdadeiras armadilhas para
as embarcações que decidem ali atracar, na esperança de
terem encontrado um porto seguro.
Ela diz que pode presenciar muitos outros naufrágios, alguns tão
horríveis quanto o que vivenciou. Permaneceu pairando naquele espaço,
como uma alma penada, decidida a reencontrar-se com seu pai, antes de partir
com os anjos que, quase todos dias, vinham tentar resgatá-la para o plano
espiritual.
Os anjos também eram sempre os mesmos, e ela já teve a felicidade
de reencontrá-los nesta vida atual, encarnados como sua irmã e
seu sogro. Persistente na sua rebeldia, ela passava os dias e as noites vagando
pelas praias e montanhas, castelos e fortificações, moradias e
prisões, convicta de que o espírito de seu pai também esperava
por ela.
E, realmente, ela estava certa. Durante quase um quarto de século, corria
de boca em boca, entre os ilhéus que habitavam o lugar, a história
do fantasma de um marujo que chorava a perda de sua filha num navio mercante,
roubado por seus homens de confiança que o transformaram, depois, num
navio pirata. Desde que tomou conhecimento desse fato, ouvido às espreitas,
atrás de portas e janelas, onde se escondia das pessoas, enquanto elas
se reuniam à noite, em volta de fogareiros, a contar suas histórias,
sobre si mesmas, suas famílias e antepassados, pode constatar que, muitas
vezes, trechos inteiros daqueles acontecimentos, narrados com muita sabedoria
pela gente simples e humilde do lugar, eram retirados de sua própria
história pessoal. E, assim, ela teve certeza, de que seu reencontro com
seu pai estava muito próximo.
Numa noite fria e chuvosa, com ventos e relâmpagos, iluminando o céu,
ela ouviu o choro triste e lamentoso de um homem, vindo do alto do farol. Ela
subiu lentamente as escadas da velha construção, apesar do seu
corpo etéreo e, vagarosamente, chegou até o seu topo, de onde
se descortinava toda a paisagem do oceano aberto.
Pousou, com muito carinho e leveza, sua mão direita sobre seus ombros
nus, mas ainda muito fortes, e seu choro cessou, instantaneamente.
A força do abraço que se seguiu entre eles só era comparável
à tormenta da separação que viveram. Reunidos, outra vez,
estavam prontos para partir para o lugar que lhes estavam reservados no plano
astral. Depois do longo abraço, divisaram os anjos amigos que, como dois
fiéis escudeiros, os aguardavam para o embarque final. Abraçados,
os quatro, voaram rumo aos céus. Segundo a paciente, a sensação
de prazer e felicidade era indescritível.
Finalmente, os dois estavam juntos, novamente, e, então, podiam ir ao
encontro do restante de sua família. Àquela altura, todos já
estavam desencarnados há muito, muito tempo.
No plano astral, eles entraram num hospital espiritual, onde alguns pacientes
tomavam sol e aproveitavam para rever os amigos e parentes, enquanto aguardavam
as determinações para suas próximas reencarnações.
Foi nesse lugar que ela e seu pai foram reapresentados pelos idílicos
companheiros de viagem, à sua família daquela existência.
Descobriu também, numa senhora muito alva, com expressões suaves,
sua mãe daquela e também desta vida.
Em seguida, pedi para que ela viesse nesta vida atual, no útero de sua
mãe e se sentisse como um bebê. Ela começou a se encolher,
colocando-se em posição fetal e encontrou muita dificuldade em
respirar.
Foi o suficiente para perceber que se tratava de um sofrimento de parto. Ela
estava revivenciando seu nascimento. Na verdade, ela me relatou que quem sofria
era sua mãe. Ela descobriu que as lembranças que lhe vinham à
sua mente, refletiam os momentos que sua mãe vivera, pouco antes de dar
à luz.
A razão do sofrimento de sua mãe, estava no fato de que ela não
queria que a paciente nascesse.
Perguntei-lhe o porquê disso?
- Ela disse: Porque ela tem medo, muito medo.
- E por que ela tem medo?, eu perguntei novamente.
- Ela tem medo dos homens. Daqueles homens feios e cruéis, ela me responde
com um fio de voz, bastante infantil.
- De repente, ela grita: "Ela tem medo dos homens do navio!!!".
- Então, eu insisto: "Você tem certeza do que está
falando? Ela tem mesmo medo dos homens do navio"?
- Sim, responde-me, "pois aqueles homens são os meus tios".
- Seus tios?, eu pergunto.
- Sim, ela confirma. "Minha mãe não quer que eu nasça,
porque ela está com muito medo dos meus tios, dos irmãos do meu
pai".
Agora, a paciente entende também porquê seu nascimento foi tão
difícil.
Aqueles homens terríveis, os assassinos de seu pai e ladrões de
seu navio, haviam reencarnado nesta vida, como seus tios, irmãos de seu
pai. E, uma vez mais, continuam agindo fora da lei. Durante anos e anos de sua
infância, ela e suas irmãs presenciaram seus tios surgirem sempre,
de madrugada, pedindo a seus pais abrigo, pois estavam fugindo da polícia.
Trêmulos, nervosos, seus pais se levantavam. Os pais sofriam com medo
de serem julgados como cúmplices de algum crime que seus tios pudessem
ter cometido nas suas andanças pela região.
A sessão já durava mais de duas horas, resolvi encerrá-la,
trazendo-a para a vida presente, insistindo para que ela não trouxesse
mais nenhum fragmento de recordações de seu passado.
Esticando os pés, mãos, braços e pernas e se espreguiçando,
ela foi se recuperando do transe pela qual passara e já podia sentir,
ver e ouvir o ambiente à sua volta, embora ainda atônita com o
incrível realismo dos fatos e experiências revivenciados. Despedimo-nos,
naquela tarde, com algo a mais, além do abraço forte e fraternal.
Uma pergunta veio à minha mente que dificilmente terá resposta,
uma vez que o crescimento espiritual da humanidade é mais lento, comparando
a outros feitos da espécie em outros campos como o tecnológico,
por exemplo.
"Quantas reencarnações serão necessárias
para que aja uma mudança realmente significativa no comportamento do
ser humano?"
Eu vou um pouco mais longe nas minhas indagações. Esses movimentos neonazistas que defendem as mesmas idéias absurdas do racismo do antigo nazismo, estão aí. Fico pensando: Será que esses adolescentes neonazistas não serão reencarnações daqueles mesmos nazistas que morreram na Segunda Guerra Mundial?
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