Na Sexta-feira seguinte, como havíamos marcado, lá estava a paciente novamente em meu consultório me aguardando, pontual como sempre.
Antes de iniciarmos a sessão, percebi no seu semblante uma expressão mais tranqüila e alegre. Perguntei num tom de brincadeira, se estava apaixonada por alguém. Ela riu bastante, e me respondeu que não era nada disso. Na verdade, o que aconteceu foi que após a última sessão de regressão, ao chegar em sua casa, dormiu profundamente, só acordando no dia seguinte.
Disse-me que nunca dormira tão bem na sua vida. E que passou a semana toda bem, sentindo pouca dor na região da bexiga. Estava mais aliviada e calma. Fiquei muito contente com aquela boa notícia. E disse-lhe que isso era mais um motivo para prosseguirmos com o nosso trabalho.
Pedi então, para que se deitasse no divã, para mais uma viagem transcendental.
Após o relaxamento inicial e a contagem regressiva, ela começou a vislumbrar uma estranha cena, à princípio, incompreensível. Era como se estivesse vendo pelo olho de uma camera fotográfica, imagens de um velho casarão, ao estilo colonial. Ela se distanciou um pouco do foco e pode perceber alguns pássaros negros - seriam corvos - sobrevoando a casa?
Um arrepio intenso percorreu sua espinha. Ainda sem entender direito o que se passava, ela se aproximou e entrou na casa. Pela primeira vez, desde que começara a revirar o baú de suas memórias, deparou-se com um ambiente abastado.
Os móveis, ao estilo inglês, compunham um cenário sofisticado, e, ao mesmo tempo, taciturno.
Mas, o que mais chamou a sua atenção estava no centro da sala, onde três caixões, um ao lado do outro, explicavam a presença dos corvos que ela vira, pouco antes, sobrevoando a casa. Aproximou-se mais, e, lívida, entendeu que no corpo daquela jovem mulher, morena e cabelos longos, negros e encaracolados, jazia mais uma de suas reencarnações.” O que aconteceu com ela?”, perguntei-lhe. ”Não sei”, me responde com sinceridade. ”Você disse que haviam três caixões no centro da sala”, interpelei.
“Quem são as outras pessoas?”, insisto (silêncio).
De repente, ela solta um grito, lancinante e desesperado. Com rapidez de um flash, tudo fica explicado. Nos caixões ao seu lado, estão os corpos de dois homens.
À sua direita, repousa o corpo do marido. E à sua esquerda, o do seu cunhado. Olha para os poucos presentes que choram e vai reconhecendo, um a um, como sendo os seus familiares: novamente, a sua mãe, desta vida, também a sua mãe, naquela existência. Ao seu lado, sua irmã caçula, que não consegue esconder um certo contentamento com sua morte, pois sempre nutriu muita inveja pelo fato da irmã ter sido amada por dois homens. E, meio escondida, semi - encoberta por uma cortina, ela vê uma senhora de idade bastante avançada. Eis aí o pivô de toda a tragédia que ali desenrolara.
Eu peço para que ela prossiga mais adiante na cena e descobre que viveu no ano de 1830.
Ela tinha trinta anos - a mesma idade que tem hoje - e é casada com um jovem comerciante espanhol. Como vivem na Argentina, provavelmente em uma das prósperas fazendas de alguma província, seu marido é obrigado a viajar constantemente. Por isso, ela passa a maior parte de seu tempo solitária.
Gosta de música, literatura e de cavalgar sua égua Tordilha Constanza. Levanta-se, sempre antes das seis horas, e, antes que todos acordem, já está no curral, selando sua companheira de passeios pelas pradarias de uma região muito plana.
Pouco a pouco, começa a perceber que nem sempre está sozinha nesses passeios. Seu jovem cunhado, às vezes, vem ao seu encontro.
Confessa que sua presença doce a enternece, e seu coração fica um pouco mais alegre nesses dias. Então, cavalgam muito, principalmente no outono, quando os caminhos ficam forrados de folhas amarelas. Andam de mãos dadas, sentam-se embaixo das velhas árvores e conversam muito. Nos dias de frio e chuvosos, fica em sua casa, quando tenta se distrair com algum bordado novo, mas, desajeitada com as artes das agulhas, senta-se ao piano, e, aí, sim, o enlevo é total.
Quase não se dá conta das horas, que passam muito rápidas, quando toca as músicas de Beethoven, Mozart, Bach, Mussorgsky, Dvörak, Debussy.
À noite, após o jantar, ela e seu cunhado se sentam à beira da lareira e então, seus companheiros de viagem são outros. Não menos ilustres, como Shakespeare, Dante, Homero e Boccaccio, são os preferidos.
Ela lê em voz alta, interrompida vez ou outra pelo crepitar da madeira, estalando às lambidas do fogo, enquanto seu cunhado, escuta sinceramente comovido. Numa dessas noites, a paciente percebe a sombra de uma velha, esgueirando-se de mansinho, por entre os móveis, tomando todo o cuidado para não fazer barulho, até aproximar-se, o mais possível, dos dois, sem que a vejam.
Ela finge que nada percebe, mas sua presença lhe é repugnante, o que a esta altura da regressão, não lhe é ainda compreensível. Nesse instante, eu a interrompo para perguntar-lhe porque o incômodo com a presença daquela mulher idosa.
A paciente respira fundo e responde: “Essa senhora, na verdade, é uma mulher cruel, vil e mentirosa. É a mãe de meu marido e de meu cunhado.” Ela prossegue: ”Nas longas viagens de meu marido, nas quais o meu cunhado me fazia companhia, como um irmão, fiel e dedicado, esta senhora se ocupava em nos espreitar atrás das portas e paredes.
Ela repudiava as leituras, a música, os passeios, enfim, tudo que considerasse obsceno - visto pelo seu olhar estreito e pecaminoso - ou indigno de uma mulher jovem e... casada. Assim, com a alma repleta de delírios e maldades, era a primeira a apressar-se na recepção de meu marido, após suas longas viagens, entretendo seu tempo e esforçando-se ao máximo para agradá-lo, até que ficasse sozinha, em sua companhia.
Então, aproveitava para destilar todo seu veneno, fazendo acusações mentirosas à respeito do meu comportamento e de meu cunhado, durante a ausência de meu marido.
Enciumado e cada vez mais perturbado com as histórias de minha sogra, meu marido passou a me tratar cada vez com mais frieza, indiferente aos meus carinhos e a enorme saudade que sentia dele. Começamos a brigar por algo que nunca havia acontecido - uma traição - e, por causa disso, ele passou a me espancar, violentamente. No dia da tragédia, a briga não fora menos violenta.
Depois de me bater no rosto e arrastar-me pelos cabelos, jogando-me na cama, ele sacou de um revólver que trazia sempre consigo e atirou - uma, duas, três vezes.
Todas as balas acertaram a minha barriga, no baixo ventre. “Mais uma vez, a paciente fora tragicamente agredida nessa região do corpo. Horrorizada, não teve nem tempo de gritar por socorro, pois quando percebeu o que ocorrera, o sangue já estava empapando suas roupas e os brancos lençóis de linho.Antes de respirar pela última vez, pode presenciar o segundo ato daquela tragédia: o marido erguera o revólver na altura do ouvido direito e disparara mais uma vez. Seu corpo tombou sobre o dela, num último e derradeiro abraço. O cunhado completamente desesperado com a atitude cega e violenta do irmão, não agüentou o impacto da morte, quando todo o amor que sentia por ela, até então sufocado, veio à tona.
E, numa atitude insana, também apertou o gatilho do revólver contra o peito. A paciente ainda chocada com tudo o que acabara de revivenciar, observa o velório dos três cadáveres e os preparativos dos funerais. Poucas pessoas estão em volta dos caixões. Sua mãe é a única que está chorando. No entanto, observando melhor o rosto dela, percebe até um certo contentamento. Incrédula, chega a desconfiar de sua percepção, mas, agora, sabe que é um espírito, e que pode ler os pensamentos das pessoas.
Surpresa, observa que sua mãe está satisfeita com sua morte, pois, na verdade, sempre invejara o fato da filha estar casada e de ter dois homens apaixonados por ela, enquanto, amargava seus dias, já velha, completamente sozinha.
Foi difícil para a paciente aceitar a leitura que estava fazendo à respeito da mãe.
Se recusava a acreditar no que estava descrevendo. A sessão já estava terminando, então eu peço para que ela procurasse analisar mais os acontecimentos que acabara de narrar no sentido de esclarecer os pontos obscuros de sua vida atual. Lembrei-lhe que era esse o objetivo do nosso trabalho.
Então, fazendo uma conexão com sua vida atual, compreende agora as atitudes de seus familiares, como a da sua irmã, na vida presente. Desde que sua irmã se formou, também na área de comunicação, embora muito competente e talentosa, sempre competiu com ela no campo profissional.
Recusou todas as suas tentativas de aproximação e até de inúmeros convites para que trabalhassem juntas, falando mal dela para os familiares, amigos, como sendo uma pessoa infeliz, fracassada e desequilibrada, chegando mesmo a chamá-la de louca, e o fez, em alto e bom som, publicamente num restaurante. Isso a magoou muito e a afastou da irmã.
Agora que acabara de tomar conhecimento que a sua implicância e inveja vêm de muito tempo atrás, de vidas passadas, foi capaz de perdoá-la. A paciente entendeu também, que as duas estão tendo a oportunidade de se reencontrarem nesta vida, novamente como irmãs, e, de sua parte, não quer mais desperdiçar seu tempo para resolver o seu relacionamento com sua irmã.
Após essa sessão de regressão, ela iniciou o trabalho de reaproximação com sua irmã, pois entendeu que as atitudes dela são ranços e ecos de uma vida solitária e sem afeto que viveu no passado.
Observou também, que todas as pessoas dessa existência que acabara de relatar, voltaram a conviver com ela, de um ou de outro modo, nesta vida. A sua sogra, veio como sua avó; o seu marido, hoje é seu pai e o seu cunhado, é o seu tio. Agora ela entende porque sua mãe desta vida sempre detestou sua avó. Também nessa vida, ela não fez outra coisa senão bisbilhotar e tentar transformar o cotidiano de seus filhos e noras em verdadeiros infernos diários, com mentiras, tramas e calúnias, acobertando também os crimes de seus filhos.
Sobre o autor
Osvaldo Shimoda é terapeuta com mais de 40 anos de experiência e 60 mil sessões de regressão já realizadas. Criador da Terapia Regressiva Evolutiva TRE, professor e pesquisador das terapias integrativas e do desenvolvimento espiritual, com atuação dedicada ao estudo da consciência, dos processos terapêuticos profundos e da formação de novos terapeutas. Reconhecido por sua abordagem ética, responsável e acolhedora, Osvaldo Shimoda desenvolveu e estruturou metodologias terapêuticas que auxiliam pessoas em seus processos de autoconhecimento, equilíbrio emocional, expansão da consciência e desenvolvimento espiritual. Email: [email protected] Visite o Site do Autor