Homem de 40 anos, solteiro, me procurou por que tinha medo de pessoas estranhas, isto é, falar em público e se expor. Sentia que não podia falar e se expressar e tinha a impressão de que ninguém iria entendê-lo. Era gerente de um departamento, cujo trabalho precisava ser apresentado constantemente para os diretores. Expor o seu trabalho era muito estressante e angustiante. Nas vésperas, tinha insônia, diarréias constantes e precisava tomar ansiolíticos para diminuir seu quadro de ansiedade.
Na primeira sessão de regressão se viu numa cabana, como professor, dando aulas. Não gostava de ser professor. Era um lugar cheio de árvores numa floresta, clima úmido e quente. Era na Indochina (Vietnã) e o ano era 1889.
Se viu como um homem alto, ruivo, olhos azuis. Os habitantes eram asiáticos, mas ele era francês, tinha 33 anos, solteiro, deixou a mãe e a irmã na França. Ele trabalhava para o governo Francês. Foi mandado para dar aula na Indochina. Foi uma espécie de castigo, punição do governo francês. Acabou sendo mandado nesse fim de mundo para dar aulas de língua francesa.
Fazia tudo de má vontade, sentia que era uma pessoa má. Queria a todo custo voltar para a França e, para isso, espionava o que os outros professores também franceses, falavam. Ele batia nos alunos com uma palmatória por não gostar de crianças, desta forma, tanto os alunos quanto os professores não gostavam dele. Em seguida, se vê voltando para a França, estava contente. Mas para que isso acontecesse, teve de mentir à respeito de um professor. Usou de calúnia, acusando-o de abusar sexualmente de uma aluna criança.
O professor acabou sendo preso. Achou que era a única forma de voltar para casa. Anos depois, esse professor saindo da cadeia, foi atrás dele, até encontrá-lo. Ele lhe pergunta porquê fizera aquilo, porquê inventara aquela calúnia. Depois de pressionado, confessa que na verdade foi ele que abusara sexualmente daquela garota, uma menina de 12 anos. Essa menina vietnamita, na verdade é sua mãe desta vida, cujo relacionamento entre ambos sempre foi muito difícil. Desde criança, se sentia rejeitado por ela. Em seguida, esse professor acaba denunciando-o pelo abuso da menina, embora não tivesse nenhuma prova. No entanto, ele (o paciente), cai em descrédito e quando andava na rua, todo mundo o via com olhares de reprovação. Ficou com remorsos e acabou ficando louco. Foi para um hospital onde foi tratado a base de remédios.
Em seguida, peço para que ele avance na cena anos depois. Se vê velho, muito mais do que aparentava. Se sente estranho, quer sair dali, mas não consegue se expressar. Quando fala para os médicos e enfermeiras, estes não entendem a sua fala. A reação deles é diferente do que ele pede. Ele começa a falar cada vez menos, pois não adiantava falar. E mesmo se falasse, as pessoas não iriam entendê-lo. Pensava consigo: “ninguém vai me entender, não adianta eu falar”.
Foi aqui que entendeu o porquê desse medo de falar em público nesta vida e de sempre achar que ninguém iria entendê-lo.
Desde criança tinha o hábito de perguntar aos familiares se ele estavam entendendo o que ele falava. Neste hospital era como se ele falasse uma outra língua. Foi ficando mudo, não falava mais. Pedi para que ele avançasse na cena e que recordasse os últimos momentos dessa vida, no momento de sua morte.
Ele se vê muito velho neste hospital, deitado num leito, ao lado de uma freira. Ele quer falar com ela, mas ela não o entende. Tinha medo de morrer. Sabia que tinha feito muitas coisas erradas. Era católico e achava que iria ser punido. Pedi para que ele falasse os últimos pensamentos e sentimentos antes de morrer. Veio o pensamento de que nessa vida usou mal as palavras para mentir, trapacear e trair. Era preciso pensar bem antes de falar. Não podia usar as palavras para prejudicar as pessoas. E é por isso também que ele decidiu ficar mudo por muito tempo naquele hospital.
Na 2ª sessão, ele trouxe uma recordação de sua infância desta vida, reflexo dessa crença de vidas passadas de que ninguém era capaz de entendê-lo. Se vê numa escola dominical, numa Igreja Presbiteriana, onde seus pais costumavam freqüentar, numa sala com várias crianças. Estava ansioso porque seus primos ainda não tinham chegado e não queria ficar sozinho com aquelas pessoas estranhas. Seus pais estavam numa outra sala da Igreja.
O culto para as crianças já tinha começado e nada de seus primos aparecerem. Se sentia assustado. Queria sair daquela sala para ficar com seus pais. Mas tinha medo de falar, de pedir para sair. Ele chegou a falar para a professora, mas ela não entendia o que ele falava. Se sentia preso, paralisado, não conseguia se expressar. A professora acabou levando-o para a sala onde seus pais estavam. Mas apesar de estar com os pais, não se sentia ainda tranqüilo, pois sabia que sua mãe iria ficar brava com ele. Tinha medo de se punido por ela.
Subitamente, regride para uma vida passada onde vê um povoado, casas baixas, janelas que parecem de Igrejas, altas. Se vê como criança, loiro, cabelos lisos, olhos azuis e tem de 4, 5 anos. Ele diz: “Eu tenho medo de ser punido, de fazer alguma coisa errada. Sou acusado de não ter fé, de não acreditar. As pessoas dizem que preciso ter fé. É uma religião nova. Algumas pessoas não são protestantes, talvez a maioria. Muitos são calvinistas.
Quando faço alguma coisa errada, dizem que vou para o inferno. Eu tenho medo do inferno. Existem leis, normas. Eu me sinto pressionado. Eu tenho medo de falar e se falar, vou denunciar muitas injustiças. Por isso, não adianta nem abrir a boca. Vão dizer que sou culpado, uma pessoa má, principalmente minha mãe, uma mulher ruiva, olhos claros e com o rosto cheio de sardas. Ela fala muito no inferno, que eu não faço as coisas direito. Acho que ela não vai entender se eu falar, então falo cada vez menos. Minha mãe não escuta o que eu falo. Às vezes quero falar com uma pessoa mas acho que ela não vai me escutar e nem me entender.
Alternadamente às sessões de regressão, procuramos trabalhar com a hipnoterapia, utilizando frases sugestivas pós-hipnóticas, sugerindo-lhe a mudar essa crença de que as pessoas não vão entendê-lo ou mesmo escutá-lo. Após sucessivas sessões, ele foi exercitando e se permitindo falar em público, deixando ser entendido, sendo claro e objetivo nas suas explanações, procurando olhar nos olhos das pessoas, sem desviá-los.
Atualmente é capaz de se expressar naturalmente sem aquela desconfiança de que não vai ser entendido.
Sobre o autor
Osvaldo Shimoda é terapeuta com mais de 40 anos de experiência e 60 mil sessões de regressão já realizadas. Criador da Terapia Regressiva Evolutiva TRE, professor e pesquisador das terapias integrativas e do desenvolvimento espiritual, com atuação dedicada ao estudo da consciência, dos processos terapêuticos profundos e da formação de novos terapeutas. Reconhecido por sua abordagem ética, responsável e acolhedora, Osvaldo Shimoda desenvolveu e estruturou metodologias terapêuticas que auxiliam pessoas em seus processos de autoconhecimento, equilíbrio emocional, expansão da consciência e desenvolvimento espiritual. Email: [email protected] Visite o Site do Autor