“O mundo é um palco. E todos os homens e mulheres são atores.
Têm suas saídas e suas entradas; cada homem na sua vida representa vários papéis”.
Shakespeare.
Neste início de ano, é tempo de renovação, de mudanças. É preciso romper com as barreiras da auto-limitação e acreditar que você pode ser feliz. É necessário revitalizar a sua vida, vibrar e celebrar suas conquistas. Como você costuma se levantar no seu dia-a-dia?
Você é capaz de se levantar de manhã com rapidez, facilidade e cheio de energia? Ou é aquela pessoa parada, sem vida, sem entusiasmo? Custa a acordar e se levantar de manhã...
Mas por que acontece isso? É porque você reprimiu, recalcou seu entusiasmo de querer viver. E como você fez isso?
Antes de saber como, é preciso entender. O que é vitalidade?
Vitalidade é a força vital, é a energia de vida, é esse impulso de vida que vivifica a todos os seres. Os japoneses a chamam de “Ki”. O “Ki” (energia vital) se traduz como essa motivação, vontade de fazer as coisas, esse desejo de viver. Enfim, é aquele entusiasmo de querer viver. De que parte do corpo nasce esse entusiasmo?
Ainda segundo os japoneses, o “Ki” vêm do estômago (Hara). Sobe do Hara e trás uma força, um domínio do mundo. Por isso se torna uma ameaça para o nosso sistema político, educacional e religioso. Todos sabemos qual foi o fim da maioria daqueles que defenderam com ardor e entusiasmo suas idéias: Jesus Cristo, Mahatma Gandhi, Sócrates, Joana d’Arc e outros, tiveram um final trágico em suas vidas. Essas pessoas ousaram “quebrar” os paradigmas, os sistemas de crenças da época.
No sistema educacional, grande parte do que é ensinado pelos pais tem um caráter opressivo, que tolhe a liberdade da criança de pensar por si mesma, sentir e agir. Essa doutrinação vai castrando, minando aos poucos as três funções primárias responsáveis por vivificar as nossas vidas: A Consciência: Capacidade de entender a si, os outros e viver de forma consciente; A Espontaneidade: Capacidade de expressar livremente e de forma prazerosa os nossos sentimentos. É essa liberdade de ser o que se é. A Intimidade: Capacidade de dar e receber amor, de forma verdadeira, sincera, sem jogos de manipulação ou chantagem emocional.
O exercício pleno da consciência, espontaneidade e intimidade resulta em uma pessoa autônoma. Castradas essas funções, ou mesmo uma delas, perde-se o entusiasmo, a alegria de viver e, consequentemente, a vontade de viver. Você se torna uma pessoa adaptada (um autômato), ou seja, segue rigidamente os papéis que a sociedade cobra (pai, mãe, filho, marido, mulher, chefe, funcionário, etc.).
Todos esses papéis quando exercidos rigidamente o fazem perder a naturalidade, a espontaneidade e sua própria identidade. É o caso da esposa que viveu por muitos anos em função do marido e, quando o perde, vai embora junto a razão de viver. Perdeu também sua própria identidade porque se anulou, não sabendo mais quem ela é e o que quer da vida. É o caso também da mãe que sempre viveu em função dos filhos (se esqueceu dela mesma), entrando em depressão profunda quando cada um toma seu próprio rumo. O mesmo acontece com o pai que só se preocupou em ser pai à moda antiga e esqueceu de ser amigo dos filhos. Depois não consegue entender o porquê dos mesmos não serem íntimos com ele.
É o caso também do gerente que veste (e nunca tira) a “roupagem” de chefe (durão consigo e com os seus subordinados), e se esquece do ser humano que é. Quando perde o cargo, entra em profunda crise existencial.
Como tudo é obrigação, dever, você acaba perdendo a alegria e o encantamento pela vida. O problema da grande maioria dessas pessoas, é não saber mais do que gostar na vida, o que lhes dá prazer. Buda dizia que o apego é um dos causadores do sofrimento. Quando você se apega excessivamente a um problema, acaba não vendo mais nada e, consequentemente, não vê a solução. Para ver, é preciso desfocar, isto é, se afastar do problema, se desapegar momentaneamente dele. Já te aconteceu quando você tentou de todas as formas possíveis encontrar uma solução para o seu problema e, quando você “esfriou” a cabeça, se desligou, a resposta veio? Veio porque você se desapegou. Da mesma forma, você pode desempenhar os múltiplos papéis sociais em sua vida, sem se apegar, sem precisar mudar o seu jeito de ser.
É óbvio que a sociedade cobra certos comportamentos esperados de determinados papéis.
O que é esperado de um presidente da República? É ser ético, sério, competente, responsável, cheio de obrigações. É evidente que o cargo exige esses atributos, dentre outros. Mas não precisa deixar o jeito de ser, alegre e brincalhão. Para muitos, ser responsável é ser sério e até mesmo mal-humorado. Agora, se você costuma brincar com as pessoas, dar boas gargalhadas, é visto como irresponsável. Gente alegre, brincalhona e sorridente incomoda às pessoas amargas. Se sentem ofendidas diante de pessoas felizes excessivamente. Elas pensam assim: “Como dá para levar à sério uma pessoa que vive rindo e brincando o tempo todo”?
Na verdade, o sentido verdadeiro da palavra responsabilidade é a capacidade de responder de forma rápida e flexível. Visto por este sentido, responsável é uma pessoa ativa e flexível.
O que é esperado de uma mulher casada? Ela precisa ser recatada, não pode mais beijar os amigos, ser brincalhona como sempre foi quando era solteira.
O que é esperado de um médico? Ele precisa ser sério (até mesmo sisudo), para ser visto como um profissional competente, responsável e, portanto, confiável. Há médicos tão presos ao seu papel que tratam apenas da doença e se “esquecem” de cuidar do ser humano que está por trás da doença. Muitos são extremamente carinhosos e brincalhões com os seus pacientes. Por outro lado, há outros que nem olham para os enfermos. A intimidade e o bom humor com os pacientes, muitas vezes, permitem uma cura mais rápida ou até mesmo aliviam a dor deles. Veja o trabalho dos “Doutores da alegria” que com o seu humor melhoram a qualidade de vida dos pacientes nos hospitais, principalmente dss crianças portadoras de doenças graves.
Não podemos perder a nossa alma, o nosso jeito de ser, a qualidade de viver. O apego a esses papéis nos leva a aprisionar as nossas almas, nos torna rígidos, desvitaliza a nossa energia vital e acabamos envelhecendo precocemente. O segredo da vitalidade consiste em gostar de viver e ser feliz em tudo o que fazemos.
Lembre-se: Você veio a este mundo para ser feliz e se realizar. E nada pode roubar o seu entusiasmo e a sua alegria de viver.Caso Clínico: Insatisfação com a Vida
Mulher de 40 anos, solteira, me procurou pelo fato de viver insatisfeita consigo e com a vida. Faltava um sentido de vida, vivia por viver. A depressão era uma constante e não tinha consciência do motivo dessa insatisfação. Sua vida se resumia em casa e trabalho. Havia um desânimo muito acentuado em função dessa insatisfação.
Era muito dura consigo mesma e com os outros, vivia se criticando e criticando os outros, sentia-se culpada sem motivo aparente. Era uma pessoa extremamente perfeccionista, procurava fazer as coisas de forma certa e não admitia erros. Se algo não desse certo, caia numa profunda depressão e sentimento de culpa. Tinha também constantes acessos de tosse. Embora tivesse procurado vários especialistas, não obteve sucesso no tratamento. Os médicos diagnosticaram sua tosse como sendo de origem emocional.
Ao regredir, começou a tossir e ter dificuldades de respirar e se viu deitada num leito com vários médicos à sua volta. Vestia uma roupa branca, tinha cabelos pretos, era magra, franzina, aparentando ter uns 30 anos de idade. Estava muito debilitada, sem forças.
Pedi para que ela prosseguisse na cena e avançasse mais adiante. Subitamente se viu dentro de um carro e me disse: “Sofri um acidente, vejo as ferragens, estou dentro do carro, está tudo escuro”.
O carro está pegando fogo. A fumaça está muito intensa. Estou inalando essa fumaça (volta a tossir fortemente). Parece que têm mais gente comigo. Estou preocupada com alguém. Parece um bebê. É o meu bebê!!! (começa a gritar e chorar). Ele morreu!!! Eu estava dirigindo. Eu devo ter matado o meu bebê.
”A paciente chora copiosamente e diz ter sentido muita culpa por ter provocado esse acidente. Em seguida, se vê novamente no leito do hospital e prossegue no relato de sua vida passada. “Estou segurando o meu bebê nos meus braços, deitada na cama. Estou acariciando-o . Vem alguém e tira o nené de meus braços. É a enfermeira que o leva embora. Me vejo só. A impressão é que o nené está morto”.
Peço novamente para que ela prossiga na cena e a adiante mais para ver o que foi que aconteceu com ele. Ela me diz: “Continuo no hospital, sentada no leito, cabisbaixa e chorando muito. É muita dor, sentimentos de perda, solidão, angústia e culpa”. Ela identifica o pai da criança como sendo um colega que trabalha com ela na vida atual. “É uma pessoa para quem nutro um sentimento muito forte”, comenta.
Prossegue em seu relato: “Estou no cemitério, estou fraca, alguém está me segurando. Estou indo para o enterro do meu bebê. Estou muito magra, uso a mesma roupa do hospital, uma camisola branca. O pai da criança está comigo. Vejo o caixão do nené, é branco. Caminho em direção à cova. Tem um gramado, vejo muitas cruzes. Estou muito triste”.
Peço para que ela me diga qual o país e o ano que ela viveu. Ela me diz:
“Suécia é o país que veio na minha mente e o ano é 1930. Agora estou entendendo o motivo de me sentir tão culpada na vida atual. Entendo também o porquê de eu ser tão crítica comigo e de ser perfeccionista. Eu não me permito errar. Tenho que fazer tudo certo. Na verdade, ainda estou me cobrando e me culpando pela morte do meu bebê. Me sinto culpada pelo fato de não ter salvado a criança. Continuo carregando essa culpa na vida atual. Fica claro também a causa dessa crise de tosse, essa falta de ar que costumo sentir. No acidente, vejo muita fumaça preta, o carro pegou fogo. Perdi a direção na estrada à noite e caí na ribanceira. Estava dentro do carro com a criança nos braços, desesperada, gritava por socorro. Por fim os bombeiros nos socorreram. Eu sempre acho que a culpa é minha quando algo dá errado. Vem sempre o pensamento: Fui eu que não fiz as coisas certas”.
No final da sessão eu sabia que havíamos atingido o alvo e descoberto a verdadeira causa de sua insatisfação, sentimento de culpa e as crises constantes de tosse. Foram necessários mais cinco sessões para que ela regredisse àquela vida e passássemos e repassássemos cada trecho do acidente e se desvinculasse emocionalmente da morte de seu bebê.
Por fim, no findar da última sessão, ela conseguiu descrever a cena com absoluta serenidade e objetividade. Ela reagiu às recordações do acidente não mais com tristeza e sentimento de culpa, mas como um fato que ocorrera em sua vida passada e que não tinha mais nenhuma ligação com a vida presente. As tosses, a depressão, o sentimento de culpa, não mais a incomodaram. As crises de tosse que ela sentia constantemente, desapareceram por completo. Ela passou também a reformular suas atitudes com relação ao seu perfeccionismo, sendo mais tolerante consigo e com as pessoas. Demos por encerrado o nosso trabalho.
Sobre o autor
Osvaldo Shimoda é terapeuta com mais de 40 anos de experiência e 60 mil sessões de regressão já realizadas. Criador da Terapia Regressiva Evolutiva TRE, professor e pesquisador das terapias integrativas e do desenvolvimento espiritual, com atuação dedicada ao estudo da consciência, dos processos terapêuticos profundos e da formação de novos terapeutas. Reconhecido por sua abordagem ética, responsável e acolhedora, Osvaldo Shimoda desenvolveu e estruturou metodologias terapêuticas que auxiliam pessoas em seus processos de autoconhecimento, equilíbrio emocional, expansão da consciência e desenvolvimento espiritual. Email: [email protected] Visite o Site do Autor