Como psicoterapeuta e estudioso do comportamento humano, sempre tive muito interesse em saber como se processam profundas mudanças no comportamento das pessoas. Ou seja, que fatores que levam uma pessoa a transformar sua vida, isto é, sua visão a seu respeito e do mundo.
Infelizmente, poucas pesquisas psicológicas parecem existir nessa área. Há, portanto, uma carência de pesquisa científica a respeito do que provoca profundas mudanças duradouras na vida de uma pessoa. E mudar significa transformar suas crenças, isto é, o que você acredita.
Quais fatos ou circunstâncias que determinam sucessos e fracassos na vida das pessoas? Que fatores que levam uma pessoa a mudar sua forma de pensar?
Uma amiga fez uma viagem à Índia e, quando voltou ao Brasil, me disse que nunca mais seria a mesma pessoa. Ela me disse que essa viagem mudou sua visão de vida “abriu sua cabeça”.
Embora exista uma variedade de fatores que provoquem profundas mudanças na vida de uma pessoa, constatei na minha experiência com os pacientes 4 categorias principais de fatores que levam às profundas mudanças:
- Terapia de Vidas Passadas;
- Experiências de Quase-Morte (EQM);
- Crise;
- Apaixonar-se.
a) Terapia de Vidas Passadas (TVP):
A TVP, como uma nova abordagem psicoterápica de cura criada pelo Psicólogo americano Dr. Morris Netherton e introduzida no Brasil (Em São Paulo, em 1982), oferece uma terapêutica breve e eficaz para curar distúrbios psíquicos, psicossomáticos, orgânicos e de relacionamento interpessoal.
No livro “A cura através da Terapia de Vidas Passadas” o Dr. Morris Netherton afirma: “A terapia de regressão não se limita a buscar lembranças de vidas passadas. Ao entrar em profundo estado hipnótico e de relaxamento muitas pessoas descrevem experiências místicas e espirituais.
Essas vivências têm muito poder e chegam a transformar suas vidas. A visão do paciente sobre a vida e a morte muda essencialmente. Os valores se convertem. Sem dúvida alguma, muitas pessoas que passaram comigo pela TVP tiveram profundas mudanças em suas vidas;
b) Experiências de quase-morte (EQM):
Também chamada pelos médicos de morte súbita interrompida, é a experiência onde o coração do paciente pára de funcionar por alguns momentos e volta a funcionar após massagem cardíaca da equipe médica.
Nesse intervalo de tempo da parada cardíaca muitos pacientes passam por uma experiência inusitada. Dr. Raymond Moody Jr. - Melvin Morse - Dra Elizabeth Kubler Ross - Dr. Brian Weiss - Ken Ring e uma legião de médicos e psicólogos nos Estados Unidos, Europa e outros lugares, fizeram pesquisas ouvindo os relatos de inúmeros pacientes que disseram terem saído seus corpos e presenciar o esforço dos médicos em tentar ressuscitá-los, bem como viram a reação de seus parentes aguardando no hospital. A narrativa desses pacientes tem alguns pontos em comum: saem do corpo e o espírito fica flutuando, pairando acima do corpo e se desloca pelo espaço. Muitos descreveram que atravessaram um túnel escuro e no final viram uma luz, anjos ou parentes aguardando-os e que lhes disseram que precisavam retornar aos seus corpos, pois não haviam ainda terminado seus propósitos de vida. E muitos que voltaram dessa experiência modificaram profundamente sua visão a seu respeito e da vida, perderam o medo da morte e fizeram uma revisão de seus atos se tornando mais humanos e valorizando mais a vida.
Experiências de quase-morte são freqüentemente contadas pelos povos antigos como os egípcios, romanos, gregos e os orientais quando afirmam terem morrido e, em seguida, retornando à vida. Culturas tribais fazem rituais simbólicos de morte, depois dos quais a pessoa volta com uma diferente e mais profunda perspectiva de vida, freqüentemente com uma consciência espiritual que melhora suas vidas e seus relacionamentos interpessoais.
c) Crise:
Toda mudança vem precedida por uma crise.
Neste sentido, a crise precipita mudanças de natureza profunda e duradoura na visão da vida e, conseqüentemente, na maneira de viver do ser humano. A palavra crise dentro do ideograma chinês é wei-ji e tem um duplo significado: perigo e oportunidade. Neste sentido, a crise é um período crucial ou decisivo para se mudar algo na vida. Observe que as grandes mudanças da humanidade vieram após um crie mundial. Desta forma, não devemos nos assustar com situações de crise, pois é neste cenário que surgem as grandes soluções e as oportunidades de se encontrar as grandes saídas. Mas para isso, é importante termos a coragem de romper com os bloqueios sem nenhum filtro que limite nossas ações.
d) Apaixonar-se:
A experiência do amor ou de apaixonar-se pode ser uma poderosa força na transformação de muitas pessoas. Muitos que já se apaixonaram descrevem-na como “um temporário estado de alegre insanidade”. Neste estado, não tem dia feio, não há espaço para a infelicidade. O apaixonado(a) suspende temporariamente suas neuras, lamentações ou dores. Faz coisas que em sã consciência jamais faria.
Realmente é um estado de alegre insanidade.
Há algum tempo, minha paciente resolveu se dar alta em seu processo terapêutico, pois seus sintomas neuróticos simplesmente desapareceram. Não sentia mais angústia, medo e insegurança. Estava casada.
Em seu livro Quem ama não adoece, o Dr. Marco Aurélio Dias da Silva, cardiologista, trata muito bem deste assunto. Pena que este estado não dure a vida toda.
Estudos recentes de cardiologistas nos EUA constataram que pessoas deprimidas, solitárias e as que não constituíram família, tendem a morrer prematuramente do coração numa taxa de três a cinco vezes mais do que as pessoas com relações sociais saudáveis. Mulheres que se sentem isoladas têm chance três vezes mais de morrer de câncer no seio ou no ovário ao longo de um período de 17 anos do que as que se dizem amadas.
Homens que declararam nas pesquisas que não se sentiam amados pelas esposas, apresentaram angina num índice 50% mais elevado do que os maridos felizes.
São pesquisas irrefutáveis. Ainda nessa pesquisa, os pesquisadores constataram que pessoas solitárias, amargas (fatores antes relevados pela ciência médica), acostumadas a se consolarem numa bebidinha ou no cigarro, são candidatos potenciais a terem um infarto precoce.
Portanto, é fundamental se resgatar a capacidade de amar, mudando o estilo de vida e dar boas risadas, se perder nas gargalhadas, conversar gostosamente com os amigos, com os entes queridos, pois tudo isso “massageia o coração”.
Caso clínico:
Agressividade e impulsividade
Mulher de 38 anos, solteira.
Veio fazer terapia comigo por causa do seu jeito agressivo, explosivo e impulsivo de se relacionar com as pessoas. Era muito seca e dura, não medindo as palavras, sendo muito direta com as pessoas. Isto, evidentemente, criava principalmente em seu ambiente de trabalho, inimizades e desentendimentos.
Queria portanto saber o porquê de ser uma pessoa explosiva, destemperada e impulsiva. De repente perdia sua compostura agredindo verbalmente o seu interlocutor quando algo em seu comportamento não lhe agradava.Ao regredir me relatou: ”Estou sozinha; está tudo escuro, está frio. As minhas mãos estão geladas, dormentes. Não consigo me mexer, está muito apertado o lugar onde estou.
Eu quero mexer os braços e o meu corpo, mas não consigo. Eu não consigo me levantar.
Eu quero sair daqui e me levantar, mas não consigo ver onde estou. O lugar é muito escuro.
Vejo agora que estou deitada numa pedra. As paredes também são de pedras. É noite, as paredes são úmidas, tem uma pequena janela no alto que reflete a lua. Não tem ninguém”.
- Avance mais na cena e veja o que acontece com você – peço à paciente.
“Meus dedos continuam formigando... Tem uma luz amarela, uma porta.
Eu quero ir até essa porta, mas não consigo me mexer.
Meus pés e as minhas mãos estão amarrados”.
- Por que você está amarrada?
“Alguém me amarrou... Vejo agora uma mulher gritando comigo. Ela é velha, usa um lenço na cabeça, blusa branca e uma saia comprida. Agora me vejo sentada”.
- Dê uma olhada em suas mãos e veja a cor de sua pele, peço-lhe.
“Minhas mãos estão sujas, minha pele é clara. Sou mulher e calço um chinelo fechado. A velha continua gritando, está brava. Ela aponta muito o seu dedo indicador como se estivesse me culpando.
Eu me sinto muito triste, não consigo entender o que ela fala. Uso uma saia laranja, blusa branca, sou moça, devo ter por volta dos 20 anos”.
- Quem é essa velha? Pergunto-lhe:
“É a minha mãe. Moramos nós duas sozinhas. A casa tem velas, vejo uma mesa grande.
A luz da vela é amarela, foi a minha mãe que me amarrou. Ela brigou comigo”.
- Porque ela brigou com você?
“Vejo muitos homens num bar. O lugar é escuro, existem muitos homens em cima de mim, me pegando. Estou bebendo e fumando no balcão.
Só tem eu de mulher. Estou tentando seduzi-los por dinheiro. Eu sou prostituta.
Estou rindo, bebendo sentada numa mesa. Minha mãe brigou comigo porque ela não quer que eu saia com os homens. Eu saio por dinheiro e ela é contra isso.
Vejo agora minha mãe me levando para um quarto escuro. Ela amarrou meus pés e minhas mãos com uma corda. Ela me amarrou para eu não sair com os homens. Estou deitada em cima de uma pedra. Ela saiu e me deixou sozinha. Eu quero ir até a porta para sair, mas não consigo. Estou tentando me desamarrar. Estou com raiva, quero sair daqui (paciente começa a gritar e a chorar).
Mãe me tira daqui!!! Mãe me tira daqui”!!! (grita desesperadamente).
- Prossiga mais pra frente dessa cena e veja o que aconteceu com você. Peço-lhe.
“Eu morri. Eu estava me debatendo, para me desamarrar e bati com força a cabeça na pedra. Agora estou chorando me vendo deitada na pedra. Estou ajoelhada do lado do meu corpo. Estou chorando arrependida. Estou flutuando. Eu me desloco até a porta, mas não consigo abrir a porta. Estou tentando chamar minha mãe, mas ela não me escuta... Agora estou em pé na porta olhando para o meu corpo. Eu vejo o meu corpo, mas não consigo ver o meu rosto.
Está quente e o ambiente é apertado. Estou deitada em algo macio. O lugar é escuro. Não consigo me mexer e ninguém me escuta”.
- Que lugar é esse que você está deitada?
“É de madeira. É muito apertado. Eu me sinto presa. É todo macio. Oh, meu Deus! É um caixão. O caixão está fechado. Minha cabeça está doendo. Não consigo me mexer (paciente não tem consciência que está morta). Quero abrir a tampa do caixão, mas não consigo. É difícil de respirar. Eu quero sair daqui!!! (grita desesperadamente).
Não consigo me mexer, ninguém me escuta”.
- Prossiga na cena para ver o que acontece com você. Instruo a paciente.
“Estou tentando me acalmar, tento controlar a minha respiração. Eu quero sair daqui (chora copiosamente).
Estou ficando nervosa, fico desesperada”...
- Avance mais na cena, prossiga.
“Vejo agora a minha mãe e um homem. Ele joga terra em cima de mim”.
- Onde você está? Pergunto-lhe.
“Estou sentada em cima do caixão. Por que ele joga terra em cima de mim ele não me vê?
Agora estou do lado de minha mãe. Tento conversar com ela, mas não me responde. Não estou entendendo, estou confusa. Minha mãe está com um rosto serio e brava.
É noite agora; está frio”
Onde você está agora? Pergunto-lhe.
“Estou deitada em cima da terra chorando. Eu me sinto triste, muito triste porque queria voltar atrás. Não quero sair de perto do meu corpo”.
- Por quê?
“Eu acho que o meu corpo vai sair de lá e vai acordar. Por isso eu preciso estar aqui. Não posso deixar o meu corpo”.
- O que acontece após sua morte física?
“Fiquei muito tempo naquele cemitério. Eu não saio de perto do meu corpo”.
Vejo agora uma mulher vestida de azul, está sentada do meu lado. Estou deitada em cima da terra. Ela está sorrindo para mim. Ela é branca, tem cabelos longos. Ela está estendendo as mãos para mim e me abraça. Estou pedindo ajuda para ela (chora copiosamente). Ela me abraça e me conforta (Pausa).
Agora estou num hospital. Vejo uma janela grande, a porta está aberta. Vejo um corredor branco, estou deitada numa cama. Tenho medo de me levantar, de não conseguir. Eu quero ir até o corredor, mas tenho medo de me levantar”.
- Você consegue se ver? - Pergunto-lhe.
“Eu me vejo. Sou jovem, tenho 20 anos, cabelos compridos. Minha cabeça tem um curativo, mas não dói muito”.
- Pergunto à paciente se ela consegue fazer uma conexão do porquê na vida atual ser explosiva, agressiva e impulsiva.
“Na vida atual, esse meu lado agressivo, explosivo e impaciente está relacionado com o fato de ter sido amarrada pela minha mãe dessa vida passada e mais o desespero e a angústia de estar presa naquele caixão e não poder me mexer para sair. Não queria aceitar que estava morta e que não tinha mais volta”.
Após o término da sessão, a paciente me disse que estava se sentindo mais calma, tranqüila como se tivesse tirado um peso de suas costas.
Nas cinco sessões seguintes, ela trouxe novamente as mesmas lembranças dessa vida passada, mas as revivenciou, desta vez, sem a carga emocional de raiva e desespero como da 1ª sessão. Disse-me que estava se sentindo mais calma e centrada.
Agora era capaz de agir de forma ponderada. Não agia mais de forma explosiva e destemperada como antes. Demos por encerrado o nosso trabalho.
Sobre o autor
Osvaldo Shimoda é terapeuta com mais de 40 anos de experiência e 60 mil sessões de regressão já realizadas. Criador da Terapia Regressiva Evolutiva TRE, professor e pesquisador das terapias integrativas e do desenvolvimento espiritual, com atuação dedicada ao estudo da consciência, dos processos terapêuticos profundos e da formação de novos terapeutas. Reconhecido por sua abordagem ética, responsável e acolhedora, Osvaldo Shimoda desenvolveu e estruturou metodologias terapêuticas que auxiliam pessoas em seus processos de autoconhecimento, equilíbrio emocional, expansão da consciência e desenvolvimento espiritual. Email: [email protected] Visite o Site do Autor