No artigo anterior sobre Análise Transacional (AT), definimos a AT como uma teoria da personalidade e um método psicoterápico eficazes que levam ao autoconhecimento e, consequentemente, a uma boa comunicação. É que toda a nossa conduta, a forma de nos relacionarmos, tem tudo a ver com a nossa personalidade.
Desta forma, para se comunicar melhor é necessário exercitar o autoconhecimento avaliando mais nosso mundo inteiro, isto é, a nossa personalidade.
O Dr. Eric Berne, psiquiatra canadense, criador da AT, afirmava que formamos a nossa personalidade na infância e que os pais (e / ou alguém que fez a função de) têm uma forte influência nesta formação.
Ele dizia: "Os pais deliberadamente ou inconscientemente ensinam a seus filhos desde o nascimento como se comportar, pensar, sentir e perceber. Libertar-se destas influências não é algo fácil. Grande parte do que é ensinado na família tem caráter opressivo. Estes ensinamentos impostos às crianças é que eu denomino de treinamento básico de vida, que inclui um ataque sistemático, uma castração dos três potenciais humanos primários: intimidade, consciência e espontaneidade".
Concordo e assino embaixo a respeito das declarações do Dr. Eric Berne acima referidas. Realmente, os pais têm uma forte influência na formação de nossa personalidade; porém, trazemos o nosso caráter de vidas passadas de acordo com a teoria reencarnacionista.
Numa ocasião, um paciente, delegado da polícia federal, me confidenciou: "Sabe, Osvaldo, o que vou falar me constrange e é algo que me incomoda desde quando era criança. Nunca concordei com as atitudes de meus pais e irmãos. Todos roubavam e me obrigavam a fazer o mesmo. Até hoje eles me criticam e o meu relacionamento com os meus familiares piorou mais ainda pelo fato de ter me tornado um policial”.
Por outro lado, outro paciente, um rapaz de 22 anos, me procurou por ter também problemas de relacionamento com os pais. Filho do meio de cinco irmãos, teve uma boa educação, carinho e sentido de limites por parte dos pais.
Tinha tudo para ser feliz. Não obstante, nunca quis saber de estudar e gostava de se envolver com traficantes de drogas, assaltantes de carros, etc. O próprio paciente reconheceu que seus pais não tinham nenhuma responsabilidade por suas inclinações negativas. Desta forma, queria entender o porquê dessas inclinações dentro da TVP (Terapia de vidas passadas).
A AT como uma psicologia tradicional, que lida apenas com essa vida, realmente não explica de forma convincente o porquê das atitudes desses dois pacientes.
Por outro lado, não há como negar que os nossos pais, o meio ambiente em que fomos criados, os fatos ocorridos quando estávamos no útero materno e em nossa infância, reforçaram - e muito - as inclinações, tanto negativas como positivas, que trazemos de vidas passadas.
Desta forma, uma coisa não exclui outra. As duas áreas (AT e TVP) se completam e são importantes para um melhor entendimento do homem, esse ser complexo e desconhecido.
A ciência e a tecnologia tiveram grandes avanços, mas a ciência do homem, do comportamento, ainda se encontra na fase pré-embrionária, não explicando de forma convincente, como ocorre o processo de mudança, de cura terapêutica nos vários distúrbios psíquicos, psicossomáticos, orgânicos de causa desconhecida, comportamentais e de relacionamento interpessoal.
Sabemos que muitos pacientes foram beneficiados num curto espaço de tempo ao se submeterem à terapia de vidas passadas.
Mas, honestamente falando, sou incapaz de explicar o mecanismo exato de como ocorreu a cura na vida desses pacientes. Evidentemente, ainda demanda muita pesquisa para uma melhor compreensão de como ocorre o processo de cura terapêutica.
Por outro lado, não tenho dúvida alguma em afirmar que a AT, como teoria da personalidade, nos fornece subsídios para entendermos e melhorarmos umas das bases deste aspecto: a forma de nos relacionarmos.
No próximo artigo, irei abordar de maneira detalhada as estruturas internas que compõem o nosso mundo, isto é, a nossa personalidade dentro da ótica da Análise Transacional.
Caso Clínico:
Medo de o relacionamento amoroso dar certo.
Mulher - solteira - 33 anos
A paciente veio ao meu consultório querendo entender o porquê de ter medo que seus relacionamentos amorosos dessem certo.
Estava envolvida com um homem que também encontrava dificuldade de se envolver, de se entregar afetivamente.
A paciente permanência meses seguidos sem vê-lo e, inesperadamente, ele a procurava querendo sair com ela. Nesse intervalo de tempo, ela ficava esperando ansiosamente pela sua ligação. Se de um lado isso gerava nela muita ansiedade e insatisfação, por outro, a deixava aliviada pelo fato de não haver um envolvimento maior.
Embora no fundo quisesse constituir uma família e ter um companheiro que a amasse verdadeiramente, sabia que esse relacionamento não iria dar em nada. Mas dizia que não conseguia se libertar desse relacionamento que já perdurava três anos.
Ao regredir, me relatou:
"Eu trabalho no umbral (região de nível inferior do mundo espiritual). Não vejo nada, mas tenho a impressão que ajudo as pessoas que estão perdidas no umbral. Eu não sou dessa região, eu trabalho lá. A sensação que tenho é que flutuo nessa região, numa caverna escura onde as pessoas ficam vagando. Os habitantes dessa caverna estão vestidos de marrom. Eu estou vestida de branco. Não vejo os meus pés, uso uma túnica branca que cobre tudo. Sou jovem, cabelos compridos, fico flutuando, pairando no ar".
- Como você se sente - pergunto-lhe.
"Não me sinto mal, encaro com naturalidade esse trabalho. Estou aqui também para aprender".
- Volte antes para ver como você parou no umbral - peço-lhe.
"Vejo agora uma luz forte, amarela, vejo a figura de um homem que se parece com Jesus. Estou anotando o que ele fala como se tivesse tendo uma aula. Estou escrevendo. A única palavra que me vejo escrevendo é generosidade... Agora vem a frase: ‘Medo de perder a liberdade’ (pausa).
Tenho a impressão de que fiquei presa numa casa, dependente, submissa a meu marido. Não tenho vontade própria, não podia fazer nada. É uma vida cerceada, numa época em que a mulher devia obediência ao marido. Eu moro isolada numa fazenda. Não vejo a cena, mas tenho a impressão que uma negra me serve. Ela me serve água num copo de barro, um objeto bem antigo, provavelmente do período colonial. A negra usa uma saia estampada, tem um lenço na cabeça... Vejo agora um quarto antigo de fazenda, móveis bem rústicos, o piso é de madeira. Ela serve água na minha cama. Eu não posso sair de meu quarto, estou proibida de sair pelo meu marido. O único contato com o meio externo se dá através dessa escrava".- Volte antes dessa cena para entender por que o seu marido a proibiu de sair de seu quarto - peço-lhe.
"Talvez seja por ciúme. Não o vejo. Ele não aparece. Estou cansada, eu quero fugir desse quarto. As janelas estão fechadas com tábuas. A negra não pode me ajudar senão ela vai ser castigada. Não sei como fugir. Os empregados têm muito medo do meu marido. Há capangas dele que me impedem de fugir. Eu nunca concordei que a mulher devia submissão ao marido. Eu escondia os meus livros. Gostava de ler filosofia, romances".
- Avance mais para frente nessa cena e veja o que acontece com você - peço-lhe.
"Eu consegui fugir, atravesso a floresta, o rio. Estou vendo agora uma igreja, um convento da Igreja Católica. É uma Igreja rústica, há uma cruz de madeira (pausa). Eu morri nessa Igreja, estava muito machucada, fiquei muito fraca com a fuga, estava doente. Após minha morte física, pedi ao meu mentor espiritual para eu poder ajudar essas pessoas no umbral".
- E por que você pediu para trabalhar lá - pergunto-lhe.
"É porque eu sempre defendi a liberdade. Eu as ajudo levando palavras de conforto para aliviar o sofrimento delas. Meu mentor espiritual me diz que vou ver o meu marido dessa vida passada que me prendeu. Vou ter que exercitar a minha generosidade, vou ter que levar palavras de conforto para ele. É um exercício de perdão, tenho que perdoá-lo".
- Onde seu marido está - pergunto-lhe.
"Ele está aqui no umbral. Eu vou ter que socorrê-lo. Sou um espírito socorrista.
Eu não tenho medo desses espíritos que habitam essa região. Eles só sairão daqui quando aceitarem que precisam de ajuda. Eu gosto desse trabalho. Na verdade, eu pedi para trabalhar aqui para me fortalecer e me preparar a vir na encarnação da vida terrena atual. Preciso exercitar a paciência, a liberdade e o perdão (paciente começa a chorar copiosamente).
Eu preciso perdoar o meu marido dessa vida passada. Eu o reconheço (pausa).
É o meu namorado da vida atual.
Agora compreendo o porquê desse temor de me envolver afetivamente. Tenho medo de um homem me prender de novo. Eu não quero mais passar por isso. Tenho medo de perder a liberdade (pausa). Agora estou escutando uma voz. A voz me diz que não vou mais sofrer, que isso não vai mais acontecer, que eu posso ficar tranqüila e que tudo vai dar certo. É só eu não duvidar".
- Pergunte a essa voz por que você teve que se reencontrar com o seu marido na vida atual? - peço-lhe.
"Eu escolhi para exercitar a paciência, a aceitação e o perdão. Eu não sabia o que era isso. Eu pedi uma prova para exercitar essas qualidades".
- Pergunte ao seu mentor espiritual se acabou o tempo da aprendizagem entre vocês - peço-lhe.
"Diz que sim. Ele diz também que esse relacionamento foi uma lição de aprendizagem para eu me fortalecer e aceitar mais as pessoas. Dessa forma, não terei mais medo de me envolver com os homens".
Após passar por mais seis sessões de regressão, a paciente tomou a firme decisão de romper esse relacionamento. Estava se sentindo muito bem, não se sentia mais insegura, com medo de se envolver. Ela me confidenciou que agora estava realmente aberta para se relacionar com homens que sejam realmente capazes de amar e sentia que era uma questão de tempo para encontrar um companheiro amoroso.
Sobre o autor
Osvaldo Shimoda é terapeuta com mais de 40 anos de experiência e 60 mil sessões de regressão já realizadas. Criador da Terapia Regressiva Evolutiva TRE, professor e pesquisador das terapias integrativas e do desenvolvimento espiritual, com atuação dedicada ao estudo da consciência, dos processos terapêuticos profundos e da formação de novos terapeutas. Reconhecido por sua abordagem ética, responsável e acolhedora, Osvaldo Shimoda desenvolveu e estruturou metodologias terapêuticas que auxiliam pessoas em seus processos de autoconhecimento, equilíbrio emocional, expansão da consciência e desenvolvimento espiritual. Email: [email protected] Visite o Site do Autor