Da mesma forma que um viciado em drogas, álcool ou jogos, este ser é normalmente incapaz de se livrar dessa dependência; o “viciado afetivo” também se sente incapaz de sair de um relacionamento afetivo ruim e destrutivo.
Na entrevista de avaliação percebo que a queixa de um dependente afetivo não difere muito daquela de um dependente químico (viciado em drogas) em relação à sua incapacidade de sair dessas ligações tóxicas.
As frases mais freqüentes que costumo escutar dos meus pacientes são: “Quando ele liga para mim não consigo dizer não. Depois, como sempre, ele some e fico com muita raiva por não ter dito não”.
“Fico pensando o tempo todo nela. Não consigo me concentrar em outra coisa”.
“Toda vez que penso em terminar esse relacionamento, entro em pânico”.
“Quando ele não me telefona, tenho crises de choro, angústia, insônia, falta de apetite (ou excesso), depressão e incapacidade de me concentrar”.
Existem ainda aquelas pacientes que me relatam que já perderam as contas de quantas vezes romperam o relacionamento e voltaram a reatar por não conseguir ficar sem o parceiro.
Uma paciente me confidenciou no inicio da terapia que chegava a sustentar o namorado pagando todas as suas contas e chegou a entrar em pânico, pedindo aos prantos, de joelhos, para que ele não a deixasse.
Desta forma, o desespero dela em não mais tê-lo era tão grande, que chegou a perder sua própria dignidade e seu amor próprio, passando a mendigar afeto.
Desde a época em que eu era estudante de psicologia, ficava me questionando o porquê do ser humano, apesar de estar em primeiro lugar entre todos os seres da Natureza, mostra esta fragilidade emocional.
Os animais desde cedo se desvinculam de seus pais e normalmente, se insistirem em continuar a querer mamar além do tempo necessário, levam uma patada da mãe. Por outro lado, nós, seres humanos, somos muito frágeis e, durante muito tempo, totalmente dependentes de nossos pais.
Chamamos de simbiose primária quando há uma relação de dependência (saudável) entra a mãe e o nenê, da mesma forma como ocorre em todos os seres do reino animal. Por outro lado, denominamos de simbiose secundária quando a dependência (recíproca) continua e, em muitos casos, vai até o final da vida. Este tipo de dependência só existe entre os humanos, não ocorrendo com as outras espécies do reino animal.
Desta forma, na simbiose secundária, muitos homens e mulheres reproduzem essa relação parasitária nos seus relacionamentos amorosos. Assim, se um homem teve uma mãe possessiva, autoritária e controladora, tende a reproduzir no nível da inconsciência esse modelo de relacionamento, buscando mulheres com perfil semelhante ao da sua mãe.
No caso da mulher, se teve um pai alcoólatra, dependente da esposa, em geral a filha tende a buscar se relacionar com homens também alcoólatras. É isso que constato em muitas pacientes em meu consultório.
Por outro lado, cada pessoa é única e por este motivo a causa de seu problema é também singular. Neste aspecto, só através do processo regressivo da TVP (Terapia de Vidas Passadas), saberemos desvendar, isto é, abrir a “caixa preta” da mente e descobrir se a origem da dependência afetiva vem da vida atual (infância, nascimento, útero materno) ou muito mais atrás, em vidas passadas. Neste caso, podemos dizer que essa dependência afetiva é resultado de um relacionamento cármico trazido de uma existência passada.
Caso Clínico: Sentimento de abandono
Mulher de 27 anos, solteira.
A paciente veio ao meu consultório por se sentir incompreendida pelas pessoas, sentindo-se irritada, ansiosa e tensa. Costumava remoer acontecimentos de seu passado (guardava muitas coisas ruins) e não conseguia se livrar deles.
Irritava-se profundamente com as “coisas erradas” das pessoas. Sua tensão, ansiedade, preocupação no seu dia-a-dia geraram tendinite nos joelhos, braços, pulsos e ombros, baixando também sua resistência imunológica e isso a fazia ficar gripada e resfriada constantemente, bem como enfrentava crises alérgicas em forma de eczemas de pele. Dormia muito mal, tinha um sono muito agitado, acordava várias vezes de madrugada. Chorava com facilidade, sem saber o motivo. Tinha muita dificuldade de expressar o que pensava e sentia.
Ao regredir me relatou:
“Parece que estou dormindo numa enfermaria. Estou deitada numa cama, vejo um lençol branco. Visto um roupão branco”.
- Como você se sente? – pergunto-lhe
“Eu me sinto cansada. O lugar é claro, estou sozinha. É como se estivesse na UTI de um hospital. Eu tenho muita vontade de dormir (pausa)”.
- Avance mais para frente nessa cena – peço-lhe.
“Agora estou na beira de uma lagoa, num campo bem amplo. Vejo uma mulher loira, alta e magra. Ela está do meu lado, usa um roupão branco. Eu sou uma menina, devo ter uns 10 anos. Sou magra, meus cabelos são lisos, cumpridos. Uso um vestido rodado, estou descalça”.
- O que você faz nesse lugar? – pergunto-lhe.
“Eu me sinto impaciente. Tenho pressa em fazer as coisas. A mulher diz para eu aprender a ter mais paciência e não ser muito ansiosa. Mas eu me sinto como se estivesse de castigo, como tivesse que aprender algo para sair desse lugar. Ela diz também que eu preciso confiar na vida”.
- Pergunte para ela o porquê de sua irritabilidade, de se sentir incompreendida, de ficar remoendo coisas do passado – peço-lhe.
“Ela me esclarece dizendo que me sinto muito sozinha porque fui abandonada numa existência passada. Ela diz ainda que esse problema nas articulações é porque eu me agrido e que guardo coisas ruins do passado. Explica que eu me frustro, fico desiludida com as pessoas por conta desse sentimento de abandono que trago dessa existência passada e que a minha ansiedade é decorrente do medo de vir a ser abandonada novamente”.- Pergunte quem é ela – peço-lhe.
“Ela diz que é a minha mãe. É a mulher que me deixou (Veio a falecer) quando eu tinha 7 anos na existência passada. Ela me deixou com os meus avós (paciente chora intensamente). Eu fiquei magoada com ela porque me senti abandonada, eu era só uma criança. Diz ela que eu achei que ela fez de propósito, me abandonando ao morrer. Então, eu passei a não confiar nas pessoas porque me senti profundamente decepcionada pela sua partida. Ela fala que eu ainda brigo com ela em sonho.
Minha mãe pede desculpas pela sua partida e me esclarece que foi necessário, pois tinha chegado a sua hora. Mas ela diz que me compreende visto que eu era uma criança e é difícil aceitar a morte da mãe (pausa). Agora está dizendo que eu tenho que ser mais nobre, procurando entender a sua partida, que a vida é eterna e que a nossa alma é imortal. Prova disso é eu estar conversando com ela agora”.
- Você gostaria de dizer alguma coisa para ela? – pergunto-lhe.
“Eu peço para ela ficar mais próxima de mim e que vou tentar ouví-la mais. Ela diz que sempre esteve do meu lado, mas eu nunca a escutei. Eu digo que a amo (chora intensamente) e que agora me sinto mais segura e reconfortada (pausa). Agora ela está se despedindo de mim”.
- Peço então para que a paciente se despeça de sua mãe.
No término da sessão, a paciente estava muito emocionada e percebeu o quanto estava agindo de forma infantilizada.
Fizemos mais 8 sessões de regressão e, no final do tratamento, estava se sentindo bem mais tranqüila e centrada.
Sobre o autor
Osvaldo Shimoda é terapeuta com mais de 40 anos de experiência e 60 mil sessões de regressão já realizadas. Criador da Terapia Regressiva Evolutiva TRE, professor e pesquisador das terapias integrativas e do desenvolvimento espiritual, com atuação dedicada ao estudo da consciência, dos processos terapêuticos profundos e da formação de novos terapeutas. Reconhecido por sua abordagem ética, responsável e acolhedora, Osvaldo Shimoda desenvolveu e estruturou metodologias terapêuticas que auxiliam pessoas em seus processos de autoconhecimento, equilíbrio emocional, expansão da consciência e desenvolvimento espiritual. Email: [email protected] Visite o Site do Autor