É comum ler nos noticiários fartas reportagens envolvendo conflitos familiares e isso independe da classe social (atinge tanto os pobres quantos os ricos). No meu consultório, é freqüente os pacientes procurarem a TVP (Terapia de Vidas Passadas) para entenderem seus relacionamentos familiares conturbados. Mas por que as relações familiares costumam ser tão complicadas? É óbvio que existem várias explicações teóricas para esses conflitos.
No entanto, dentro da minha prática clínica de 24 anos com a terapia regressiva, ao lidar com inúmeros conflitos familiares, pude perceber que a TVP, como uma psicoterapia reencarnacionista, foi o que mais me ajudou a entender e a tratar das disfunções familiares, ou seja, das pessoas que estão em constante desarmonia em sua família.
No início do meu trabalho, eu queria entender o porquê dos membros de uma família se darem muito bem, enquanto em outra todos estarem sempre em “pé-de-guerra”, como num verdadeiro “barril de pólvora”. No meu entender, um grupo familiar é muito mais do que o resultado genético (DNA) da união entre os pais.
Em verdade, existem dois tipos de família: a carnal e a espiritual.
Família carnal (consangüínea): É aquela cujos membros estão juntos apenas por laços carnais (existe pouca ou nenhuma afinidade em conceitos como valores morais, religiosos, crenças, pensamentos ou sentimentos). É comum que um membro dessa família se sinta um “estranho no ninho”, sem sentir nenhuma afeição, identificação ou afinidade com a família.
Certa ocasião, uma paciente desabafou comigo dizendo que gostava de seus pais e irmãos, mas não sentia amor por eles, não sentia nenhuma afinidade com aquela família. Um dia teve um sonho onde apareceram os seus verdadeiros pais que a aconselharam a ter mais paciência com a sua família, pois tanto ela como eles reencarnaram juntos para todos aprenderem suas respectivas lições de vida. No sonho, a paciente chorava muito dizendo que sentia muita saudade pela ausência deles nessa vida terrena.
Neste aspecto, existe uma segunda família:
Família espiritual. É o caso dos pais desta paciente que estavam no mundo espiritual. Uma outra paciente me disse que desde criança dizia aos seus pais que eles não eram os seus verdadeiros pais. Estupefatos com a afirmativa da filha chegaram a levá-la a um psiquiatra infantil que não constatou nenhum distúrbio psiquiátrico na menina.
Em verdade, família espiritual é aquela cujos membros tem uma profunda afinidade, afeição, resultado em que estiveram juntos em várias encarnações e que mantêm reforçados os seus laços de afinidade mesmo não estando juntos após a morte física.
Por outro lado, no grupo familiar carnal, costuma ocorrer indiferença entre os membros bem como atritos constantes. Como dizia o grande médium Chico Xavier: “É nas famílias onde costumam se reunir os inimigos do passado”.
Caso Clínico:
Repulsa pelo pai.
Mulher de 20 anos, solteira.
Veio ao meu consultório por conta de seu relacionamento difícil e truncado com o pai. Tinha repulsa, não conseguia sentir carinho por ele. O pai sempre foi muito autoritário, tinha pavor de receber ordens dele. Sentia que ele queria sempre dominá-la, daí se sentir incomodada pela simples presença dele. Desta forma, queria entender o porquê de sentir aversão e pavor, principalmente quando ele lhe dava ordens.
Ao regredir me relatou:
“Vejo lustres antigos, uma rua muito antiga. Está havendo uma rebelião, uma revolta, vejo muita gente correndo, atravessando de um lado para outro. As pessoas expressam no rosto muito medo... Agora está chegando uma carruagem, as pessoas estão com medo. Há uma autoridade dentro dela”. (pausa).
- Você consegue se ver? - pergunto-lhe.
“Estou descalça, sou uma pessoa muito pobre, humilde. Estou com os cabelos despenteados, visto roupas maltrapilhas, rasgadas. Sou mulher, meus olhos são puxados, meus cabelos estão sujos, espetados. Devo ter entre 20 e 25 anos”.
- Prossiga nessa cena - peço-lhe.
“Estou na rua, todos passam fome, necessidades. A gente está à mercê dessa autoridade que está dentro da carruagem. Eu me sinto impotente diante dele (pausa). Agora me vejo falando muito, esbravejando, querendo colocar para fora essa revolta. As pessoas se dobram diante dele, mas eu não, me vejo mais ereta, estou em pé. As pessoas atravessam essa rua com medo, quase ”rastejando“. Eu não aceito a autoridade dele, embora eu também tenha medo desse homem. Eu tenho medo de uma agressão física. Eu sou valente, sinto revolta, mas ao mesmo tempo medo e angústia de ser descoberta porque eu posso morrer se ele me descobrir”.
- Avance mais para frente nessa cena - peço-lhe.
“Esse homem que está dentro da carruagem usa um anelão de ouro, fuma um charuto. Ele é gordo, veste um sobretudo. Ele olha para todos de forma irônica e prepotente. Todos são magros, raquíticos, dobrados. Sua obesidade contrasta com o povo. Parece que ele não se compadece com a situação de todos, com a situação de fome e miséria. Parece que ele quer arrancar mais alguma coisa das pessoas, mas só vai conseguir algo escravizando todos porque bens materiais não têm mais. É por isso que as pessoas correm com muito medo (pausa). Agora estou me vendo com as duas mãos amarradas. Estou sendo arrastada, fui escravizada, estou sendo levada e esse homem está rindo de mim. Ele me pegou como bode expiatório. Estou sendo arrastada, meus pés estão sendo arrastados, minhas costas estão beirando quase o chão. Minha boca está amordaçada. Vou esbravejando, sinto muita raiva”.
- Repita: “Sinto muita raiva!” (peço à paciente repetir várias vezes em voz alta essa frase).
“Eu sinto ódio desse homem, pena que não posso matá-lo!”. (grita chorando) Agora o vejo mais gordo, ele parece mais gordo ainda, como se o poder dele tivesse aumentado. Ele dá gargalhadas, fuma dando umas baforadas. Eu vou sendo arrastada por um longo período de tempo. Vou perdendo as forças... Caí num estado de tristeza. Eu me sinto injustiçada, só queria defender aquela gente (chora intensamente). Não vejo mais perspectivas. O sol vai caindo, faz horas que estamos rodando. Eu continuo sendo arrastada, ele não tem o menor respeito (pausa). Paramos. Estou uma morta-viva. Estou abandonada, nem ele sabe o que vai fazer comigo. Vejo de longe uma taberna. Estou muito triste, abandonada de tudo e de todos, e até de Deus. Sinto revolta de Deus, como ele permite isso”?- Prossiga nessa cena e veja o que acontece com você - peço-lhe.
“Estou aguardando, só me resta chorar, esperar ele se divertir na taberna. Parece que eles e seus capangas estão bebendo, jogando. Vejo uma mesa de madeira grossa, todos estão ao redor da mesa jogando. Deve ter umas 10 ou 12 pessoas, só homens. É uma mesa oval. Estou quase perdendo os sentidos. Alguém pergunta para ele o que fazer comigo? Ele diz: deixa ela lá! (pausa).
Agora apagou tudo, vejo tudo escuro, não vejo mais aquele homem. Acho que eu morri... Estou num lugar escuro, não estou mais amarrada, mas estou muito triste, como se não tivesse mais nada no mundo, como se tivesse perdido tudo. Estou longe das pessoas amadas... Agora estou deitada em posição fetal no chão. Já não tenho aquela aparência maltrapilha. Tem um foco de luz dourada em cima de mim.
Sinto que alguém me socorreu, esta luz é uma pessoa que me traz conforto, sinto-me bem agora. Estou em pé e com os dois braços abertos. Através das palmas das minhas mãos estou recebendo a energia do universo. Estou emocionada, pois essa luz começa a clarear intensamente. Não é uma luz que ofusca, mas é muito terna, calorosa. Sinto a presença dessa força espiritual que está recompondo o meu campo energético. É como se ela me encorajasse, estivesse me preparando para uma outra reencarnação (pausa). Agora estou de joelhos, agradecendo a presença desse ser espiritual. Estou numa postura muito humilde, eu o reverencio, sinto essa comunhão, eu me sinto agraciada. Recebo mentalmente instruções dessa luz que me diz que aquele senhor gordo é o meu pai dessa vida atual e que eu preciso me reconciliar com ele e que a lição a aprender na encarnação atual é exercer o amor na relação com ele.
Tenho dúvidas se o que a luz me propõe posso cumprir, mas eu aceito com muita humildade. A luz diz que trago para a vida atual muitas mágoas de meu pai. Ela diz que eu preciso perdoá-lo, que o meu pai é um espírito atormentado e hoje - na vida atual - ele está muito mais aprisionado do que eu. Diz que eu já tenho condições de sair dessa sintonia negativa e que o meu caminho é de luz e que é para eu seguir adiante, não importa o que aconteceu no passado (pausa). Sinto agora uma sensação de que eu posso ter paz e que esta será a verdadeira cura para as minhas feridas. Diz ainda que tenho todas as condições de tocar esse processo de renovação e de transformação interna”.
No final dessa sessão de regressão, a paciente estava bastante emocionada e me agradeceu por esse contato ímpar com essa entidade espiritual, bem como por ter compreendido a origem de seu problema de relacionamento com o pai. Trabalhamos mais quatro sessões de regressão e, no final do tratamento, me disse que a repulsa e o pavor que sentia pelo pai haviam desaparecido.
Sobre o autor
Osvaldo Shimoda é terapeuta com mais de 40 anos de experiência e 60 mil sessões de regressão já realizadas. Criador da Terapia Regressiva Evolutiva TRE, professor e pesquisador das terapias integrativas e do desenvolvimento espiritual, com atuação dedicada ao estudo da consciência, dos processos terapêuticos profundos e da formação de novos terapeutas. Reconhecido por sua abordagem ética, responsável e acolhedora, Osvaldo Shimoda desenvolveu e estruturou metodologias terapêuticas que auxiliam pessoas em seus processos de autoconhecimento, equilíbrio emocional, expansão da consciência e desenvolvimento espiritual. Email: [email protected] Visite o Site do Autor