O tempo te ensina ou apenas te dessensibiliza?
Autor Rodolfo Fonseca
Assunto AutoconhecimentoAtualizado em 14/02/2026 17:57:55
Diz a sabedoria popular que o tempo é o senhor da razão e o mestre da cura. Mas há uma verdade menos poética e mais crua que raramente admitimos: o tempo não apenas cura; ele dessensibiliza. Existe um ponto na jornada humana em que o acúmulo de perdas, lutos e fins não nos torna necessariamente mais sábios ou "iluminados", mas simplesmente mais anestesiados.
Quando perdemos a primeira pessoa importante, nosso mundo racha, no meu caso foi minha avó materna. Foi triste e chocante ver minha mãe e tios com aquele sentimento de tristeza profunda. Mas quando perdemos a décima, a rachadura já faz parte da arquitetura da casa. Isso não é, necessariamente, uma evolução espiritual; é um mecanismo de defesa biológico e psíquico.
A dessensibilização é o "calo" da alma, assim como a pele engrossa onde o atrito é constante para não sangrar mais, a nossa sensibilidade diminui conforme as pancadas da finitude se tornam repetitivas. Paramos de perguntar "por que eu?" e passamos a entender que o "eu" é apenas mais um elemento na fila da impermanência.
O sofrimento agudo dá lugar a uma aceitação morna, quase automática.
Muitas vezes confundimos resignação com sabedoria, mas aceitar a própria finitude nem sempre nasce de uma meditação profunda sobre o sentido da vida, mas sim do cansaço de lutar contra o inevitável. Chega um momento em que a morte, a perda e o fim deixam de ser conceitos filosóficos e passam a ser vizinhos de mesa.
Nesse estágio, a vida perde o brilho do novo, mas ganha o peso do real. Já vimos o filme vezes demais para nos surpreendermos com o final. A natureza das coisas, como falei num artigo anterior, torna-se tão óbvia que a dor perde o seu elemento de surpresa. E é justamente aqui que mora o perigo do vazio.
É essa dessensibilização, esse "esfriamento" do sentir, que empurra o ser humano de volta para os templos... Quanto mais entendemos (pela via do trauma ou da repetição) que somos matéria perecível e que o tempo é indiferente aos nossos planos, mais o vazio existencial sopra frio.
Ai que entram as religiões e igrejas, que não sobrevivem apenas pela fé, mas da necessidade humana de esperança espiritual contra a crueza dos fatos. Quando o tempo nos mostra que somos "vapor" (Hevel), buscamos desesperadamente algo que prometa ser sólido.
Buscamos o conforto do ritual, porque ele interrompe o fluxo caótico do tempo.
Buscamos a promessa da eternidade, porque a finitude nua e crua é insuportável para quem já perdeu muito...
O medo não é apenas da morte, mas da insignificância, pois se o tempo nos dessensibiliza a ponto de não sentirmos mais a vida latejar, então corremos para onde, para quem?
Talvez a maturidade real não seja o fim do sofrimento, nem a anestesia total, mas o equilíbrio precário entre ambos. Reconhecer que o tempo nos calejou é um ato de honestidade. Aceitar que a finitude não precisa ser um mergulho no niilismo frio, pode ser o ponto de partida para buscar uma espiritualidade que não nega a dor, mas que nos ajuda a suportar e lembrar que ainda estamos aqui, sentindo o calor do sol, antes que o vento leve essa "poeira de estrelas" que somos.
Simplificar a vida, como queria Epicuro, ou buscar Deus, como querem os religiosos, são apenas formas diferentes de tentar "aquecer as mãos" em um universo que o tempo insiste em resfriar.










in memoriam