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Psicossomática XIV: O Trabalho como fonte de doenças

por Rosemeire Zago
Psicossomática XIV: O Trabalho como fonte de doenças
Publicado dia 05/08/2020 00:01:39 em Corpo e Mente

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Devemos lembrar que o estresse é cumulativo, assim como não podemos deixar de citar o workaholic, termo que se originou da palavra inglesa alcoholic, que significa alcoólatra, com a palavra work, que significa trabalho, considerando que a pessoa que trabalha compulsivamente também é viciada, porém, em trabalho. Além de prover o sustento, o trabalho compulsivo pode também ser utilizado como fuga de sentimentos difíceis de serem vivenciados, aliviando a angústia, mas temporariamente. Com o tempo, esse escudo protetor -o trabalho compulsivo- pode se romper ao surgir alguma doença com o objetivo, inconsciente, de enfrentar aquilo do que fugiu.

Normalmente, uma pessoa que trabalha compulsivamente possui algumas características:
- trabalha compulsivamente, mesmo quando não há necessidade;
- trabalha o tempo todo e deixa de lado a família e o lazer;
- fica ansiosa e sem saber o que fazer longe do trabalho, como nas férias e nos finais de semana;
- não sabe falar de outra coisa a não ser do trabalho;
- cobra dos demais o mesmo ritmo e produtividade que está acostumada;
- critica constantemente os colegas de trabalho;
- exige perfeição, dedicação e devoção ao trabalho, como ela própria se exige;
- é severa, ambiciosa, inflexível, perfeccionista e exageradamente "realista";
- racionaliza tudo;
- oculta seus próprios sentimentos;
- nega para si mesma a existência de algum conflito;
- freqüentemente tem problemas de saúde, sendo forte candidata ao infarto e outras doenças relacionadas ao estresse;
- busca reconhecimento, muitas vezes dos pais, que em geral foram ou são, muito exigentes.

Como podemos observar, o trabalho acaba por ser uma válvula de escape de uma insatisfação perante a vida. Ser "bem sucedido" implica em ter conquistado uma boa qualidade de vida, o que o workaholic dificilmente possui, pois trabalha de forma compulsiva e na maioria das vezes, desnecessária, e dificilmente consegue obter prazer em outra atividade que não seja ligada ao trabalho. A preocupação obsessiva é procurar sempre corresponder às expectativas dos outros, ou ainda, superar essas expectativas, o que gera muita cobrança interna e conseqüente tensão. Até as atividades de lazer, quando as têm, são feitas obsessivamente. Não faz exercícios para relaxar, ao contrário, cumprem religiosamente a mesma rotina, controlando os horários e tempo de cada atividade. Geralmente justifica sua rigidez dizendo-se disciplinado e não obsessivo. Está sempre se cobrando produzir, mesmo quando vai à praia, ao invés de relaxar, permitir-se fazer nada, está sempre lendo algo, ou até mesmo, dando telefonemas "inadiáveis". Seu objetivo é produzir, esteja onde for.

A obsessão com o trabalho surge em função de outras insatisfações e conflitos, mas prefere trabalhar a ter que se confrontar com aquilo que sente dentro de si. Por exemplo, uma pessoa que está passando por alguma dificuldade conjugal, familiar ou pessoal, pode substituir as horas em família por ficar até mais tarde no escritório, ainda que não tenha nada para fazer. Ou seja, não convive com a família, com pessoas queridas, não acompanha o crescimento dos filhos, sequer percebe o cuidado ou a presença do companheiro(a), não tem horário para almoçar, nem para atividades físicas, lazer, enfim, não tem tempo para si mesmo, muito menos para manter o diálogo interno e identificar a causa de seus reais conflitos. O que deveria ser prioridade acaba cedendo lugar apenas para o trabalho.

O lamentável de tudo isso é que as pessoas entram num círculo na busca pelo poder, prestígio e aquisição de bens materiais, mesmo sabendo que tudo isso pode ser pago com sua própria saúde. Infelizmente, essa busca incessante se faz muito mais para satisfazer aos outros do que a si mesmas, numa busca inconsciente por reconhecimento. O que dificilmente é aceito.

Todos sabemos que hoje em dia é praticamente impossível vivermos sem ansiedade e estresse, mas podemos aprender a lidar com as situações geradoras de tensão ao nos permitirmos relaxar, praticar atividade física, ter momentos para simplesmente fazer nada e nem por isso nos sentirmos culpados. Evite fazer do trabalho sua única razão de viver, principalmente se perceber que ele pode ser uma fuga para evitar o confronto com seus próprios sentimentos. Procure equilíbrio entre o seu trabalho e outras áreas de sua vida, sem que com isso tenha que abdicar de tantos outros valores, tão ou mais importantes, como uma maior convivência com aqueles que ama, e principalmente, consigo mesmo. Buscar a ética, qualidade, responsabilidade e excelência no trabalho deve ser a meta de todos nós ao fazermos o melhor que podemos, mas não podemos confundir esses valores quando percebemos que estamos prestes a perder nosso bem mais precioso: a saúde!



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Sobre o autor
Rosemeire Zago é psicóloga clínica CRP 06/36.933-0, com abordagem junguiana e especialização em Psicossomática. Estudiosa de Alice Miller e Jung, aprofundou-se no ensaio: `A Psicologia do Arquétipo da Criança Interior´ - 1940.
A base de seu trabalho no atendimento individual de adultos é o resgate da autoestima e amor-próprio, com experiência no processo de reencontrar e cuidar da criança que foi vítima de abuso físico, psicológico e/ou sexual, e ainda hoje contamina a vida do adulto com suas dores.
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