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Você foi vítima de maus-tratos? Dor silenciada IV

por Rosemeire Zago
Publicado dia 06/12/2012 16:26:23 em Corpo e Mente

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Durante muito tempo pais e educadores recomendavam a repressão dos sentimentos da criança. Ou seja: “não chore, não sinta, e se sentir, não fale”. Pensava-se que mesmo uma criança vítima de abuso sexual não sofreria nenhum dano, a não ser que se falasse sobre o acontecido com ela e o silêncio era a norma. Como se o fato de não falar fosse sinônimo de não sentir. O que sabemos que não é verdade. Mesmo quando uma criança é impedida de falar, seja por ameaças, medo, vergonha, ainda assim tudo fica registrado, podendo comprometer suas futuras escolhas. Quantos adultos silenciam suas dores até hoje? Quantos adultos continuam com medo de falar sobre os abusos que sofreram? Quantos adultos têm suas vidas comprometidas por um passado de dor? Quantos adultos não conseguem ter vida sexual pelos abusos sofridos? Mas a dor não para de gritar, continua latejando dentro de cada um, fazendo-se muito presente, independente do tempo que passou.

Ainda hoje encontramos pessoas que continuam escondendo de si mesmas aquilo que viveram nos primeiros anos de vida. Guardam seus segredos e repetem aquilo que aprenderam tão cedo: não expresse, não fale, não confie. É muito difícil para uma criança buscar ajuda com um parente, vizinho, ou alguém em quem confie, pois aprenderam logo cedo que não devem confiar. Mais difícil ainda é denunciar seus pais, mesmo que sofra algum tipo de abuso, seja psicológico, físico ou sexual, pois além das ameaças que sofre, ela tem muito medo de ser considerada culpada ou não acreditarem nela. Por mais absurdo que isso possa parecer, acontece muito.

Muitas pessoas não sabem que o período da infância é decisivo para o desenvolvimento emocional, principalmente os 3 primeiros anos, e que podemos inconscientemente recriar as experiências traumáticas da infância quando adultos. Sim, muitos adultos que abusam de crianças foram crianças que também sofreram algum tipo de abuso. Muitos pais agressivos foram vítimas de pais também agressivos. Muitos adultos não conseguem confiar em outra pessoa, porque não puderam confiar naqueles que deviam, acima de tudo, respeitar-lhes e amar quando eram crianças. Ou seja, continuamos repetindo aquilo que tanto queremos esquecer.

Imagine que a criança vivencia seus sentimentos com muito mais intensidade que os adultos. Por exemplo, uma criança que sente raiva pelo abuso que sofre, quanto mais sua raiva for reprimida, mais ela se intensifica, podendo ser expressa em qualquer momento, e até contra ela mesma, adoecendo. Muitas doenças são causadas pela repressão dos sentimentos. O ódio e a raiva de uma criança podem ser reações às experiências traumáticas que teve e por não saber como lidar e nem ter com quem desabafar, podem ser expressas aparentemente de modo desproporcional.

Alice Miller diz: “não se consegue educar uma criança para o amor com surras, ameaças e castigos. Nada disso pode tornar uma criança capaz de amar. Uma criança que só ouve sermões, só aprende a fazer sermões, e uma criança surrada, só aprende a surrar”.
A criança busca o amor dos adultos porque não pode viver sem ele, e responde a todas as demandas no limite das suas possibilidades. Para que possa assim manter sua sobrevivência, idealiza sempre que seus pais irão aceitá-la, amá-la e, por isso, muitas vezes se cala. Toda criança precisa e tem o direito ao respeito, atenção, carinho, afeto, compreensão e amor.

Se você foi vítima de algum tipo de abuso, busque ajuda profissional, pois dificilmente se consegue suportar sozinho traumas reprimidos. Sim, é importante encontrar um profissional que tenha a consciência e a sensibilidade que ele pode estar sendo a primeira pessoa na vida do paciente o qual conta sobre seu abuso e que espera acima de tudo poder confiar. Portanto, o profissional que trabalha com abuso infantil não deve culpar, julgar ou alienar o paciente, mas que esteja disposto para juntos descobrirem fatos “desconhecidos” sobre sua vida, tendo como propósito encontrar a verdade da realidade da infância. Digo isso porque há profissionais que por não saberem como conduzir o processo, acabam por minimizar a dor sentida e, com isso, intensificam ainda mais essa dor e o sentimento de se estar sozinho.

O processo de cura começa quando as reações como medo, raiva, desespero, tristeza, dor, que foram reprimidas no passado, possam sem expressas com alguém que a ouça e a compreenda, sem julgamentos, mas com o desejo sincero de ajudá-la a superar tanta dor. Por isso é importante que, no processo psicoterapêutico, a pessoa atendida tenha certeza que o profissional irá aceitá-la e não julgá-la, para que deste modo possa expressar seus sentimentos, queixas e vivenciar sua raiva, decepção, tristeza e dor, e assim elaborar todo o luto pela idealização do que não existe. A diferença se faz quando se sabe que não irá mais enfrentar sozinho seus traumas, mas sente ter encontrado quem a ajude a viver toda sua verdade.



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Sobre o autor
Rosemeire Zago é psicóloga clínica CRP 06/36.933-0, com abordagem junguiana e especialização em Psicossomática. Estudiosa de Alice Miller e Jung, aprofundou-se no ensaio: `A Psicologia do Arquétipo da Criança Interior´ – 1940.
A base de seu trabalho no atendimento individual de adultos é o resgate da autoestima e amor-próprio, com experiência no processo de reencontrar e cuidar da criança que foi vítima de abuso físico, psicológico e/ou sexual, e ainda hoje contamina a vida do adulto com suas dores.
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