Entendendo nossas Estratégias de Sobrevivência - Parte IV

Entendendo nossas Estratégias de Sobrevivência - Parte IV

Autor Rosemeire Zago

Assunto Psicologia
Atualizado em 30/04/2026 16:30:00


A Teoria Polivagal - desenvolvida pelo Dr. Stephen Porges - nos ajuda a entender o funcionamento do nosso Sistema Nervoso Autônomo, o impacto do trauma no corpo e como respondemos a situações de estresse e gatilhos. Essas respostas são conhecidas como Estratégias de Sobrevivência, que são ativadas sempre que o nosso corpo identifica um perigo.

Nosso Sistema Nervoso Autônomo funciona como um radar invisível, escaneando o ambiente o tempo todo - sim, 24 horas por dia - para responder à pergunta: "estou seguro ou em perigo?". Porges chamou esse processo de neurocepção.

Dependendo da resposta a essa pergunta, o nosso sistema nervoso escolherá um entre apenas três caminhos possíveis. Embora cada pessoa reaja de um jeito único, a base da nossa sobrevivência se resume a apenas três estratégias de sobrevivência.

Todo esse processo acontece de forma automática e inconsciente. Sabe quando você encosta em uma panela quente e retira a mão imediatamente? Você age antes mesmo de pensar, não é?

O mesmo acontece com nossas reações emocionais em situações mais complexas e profundas. Reagimos e, geralmente, não entendemos o porquê, ou justificamos dizendo: "é o meu jeito de ser". Agora, você vai descobrir que isso é muito mais profundo e, principalmente, que é possível aprender o caminho de volta para o estado de segurança - algo essencial para o seu cérebro, seu sistema nervoso, seu corpo, enfim, para a sua vida.

Para facilitar, vamos pensar no sistema nervoso como um semáforo de três fases e seus significados:"
- Verde: Segurança. Você pode ficar calmo, relaxar e se conectar.
- Amarelo: Alerta e perigo. É hora de lutar ou fugir.
- Vermelho: Parada total. É o momento de congelar ou anestesiar para suportar a dor.

Agora vamos trazer essa compreensão para a Teoria Polivagal.

Temos, então, três sistemas principais no Sistema Nervoso Autônomo. Eles funcionam como nossas Estratégias de Sobrevivência - respostas automáticas à pergunta silenciosa: "Estou seguro ou em perigo?"

- Sistema de Segurança e Conexão (Vago Ventral) - verde: Responsável por fazer o corpo retornar ao equilíbrio. É o sistema do engajamento social e conexão. Ele nos traz equilíbrio, calma e regulação. É o estado em que você está quando lê um livro, aprecia a natureza, conversa com um amigo ou brinca com seu pet. Quando ativado você se sente seguro e regulado. Aqui, a respiração é longa e lenta. Sem segurança, não há conexão. Também conhecido como Sistema Parassimpático Ventral.

- Sistema de Mobilização - Luta ou Fuga (Simpático) - amarelo: Responsável por preparar o corpo para responder às situações de estresse e perigo através da luta ou fuga. É quando você sente que precisa se defender, reagir, confrontar algo ou, muitas vezes, se afastar rapidamente de uma situação ou pessoa. Quando ativado traz ansiedade e uma respiração mais curta e rápida. Também conhecido como Sistema Simpático.

- Sistema de Imobilização - Congelamento (Vago Dorsal) - vermelho: Acontece quando o perigo é percebido como uma ameaça à vida e lutar ou fugir não é mais uma opção. É o estado de choque e desligamento. Muito comum na infância, quando a criança não tem como lutar ou fugir. Quando ativado faz a pessoa desligar, congelar, anestesiar, dissociar, colapsar, para se proteger da dor. Também conhecido como Sistema Parassimpático Dorsal.

Esses estados são nossas respostas quando algo acontece e reagimos sem pensar, sem nossa decisão consciente. O mais importante aqui é você entender que o seu corpo não pede permissão para reagir. Tudo isso acontece em uma parte do nosso sistema que é inconsciente. Sabe quando você leva um susto e pula antes mesmo de ver o que era? É exatamente assim.

O seu sistema nervoso decide por você, buscando sempre a sua proteção. Por mais que na hora a gente fique sem entender o porquê de ter reagido de tal forma, para o seu corpo, aquela foi a única forma que ele encontrou para te manter seguro.

O Exemplo da Ana
Vamos pensar no seguinte exemplo: Ana está sentada no sofá, relaxada, conversando com um grande amigo. Nesse momento, ela está no Vago Ventral: seu coração bate calmo e ela se sente conectada.
De repente, um barulho vem da cozinha. Antes mesmo de Ana conseguir pensar, o corpo dela já assumiu o controle. Ela fica imóvel e a voz some, ela congelou. É o seu Vago Dorsal sendo ativado.

O que define a reação de Ana?
Além da genética, o que molda nossa resposta é o nosso "Histórico de Segurança". Se Ana cresceu com um pai que jogava pratos no chão, o corpo dela registrou que barulho alto = violência. Como na infância ela não podia lutar nem fugir, o sistema dela aprendeu a congelar para sobreviver.
É por isso que, hoje, Ana congelou mesmo sendo apenas o vento batendo uma porta. Para o sistema nervoso dela, o corpo não sabe a diferença entre o prato quebrado no passado e a porta de agora; ele apenas reconhece o som do impacto que ficou registrado.
Ana não pensou: "vou congelar agora". O corpo escolhe automaticamente o caminho que já conhece e que já garantiu a sobrevivência dela antes. É como se o corpo dissesse: "Eu já conheço esse som, e sei que para sobreviver, eu preciso congelar porque isso já funcionou em outros momentos". É uma resposta do passado tentando proteger o presente.
Percebe que nosso sistema nervoso é como um arquivo de memórias? Se o caminho foi usado muitas vezes para te salvar no passado, o cérebro registrará esse caminho neural como principal, e vai percorrê-lo durante a vida. Nós reagimos hoje com as ferramentas que nos salvaram ontem. Qual é o seu histórico de segurança?

Outro exemplo:
Estava circulando um vídeo, onde um casal foi assaltado enquanto andava na rua, e o rapaz saiu correndo e a moça ficou parada. Nele foi ativado o estado de fuga (simpático) e ela congelou, paralisou (vago dorsal).
Nos comentários, julgavam que o rapaz tinha sido covarde por ter fugido, deixando a namorada sozinha com o assaltante. A própria namorada talvez tenha pensado o mesmo. Mas você, que agora está conhecendo como o sistema nervoso funciona, sabe que cada um reagiu conforme o seu sistema foi moldado ao longo da vida, através das experiências passadas.
O rapaz que correu e a moça que paralisou não escolheram isso. O Sistema Nervoso de cada um "escaneou" a situação e decidiu, em milésimos de segundo, a melhor chance de sobrevivência baseada em suas histórias de vida. Não há covardia na biologia, há apenas estratégias de sobrevivência.

Vamos agora entender que existe uma Hierarquia Polivagal, ou seja, a resposta ao estresse segue uma ordem evolutiva: A Hierarquia Polivagal
Conexão (Vento Ventral): Primeiro, tentamos resolver pelo diálogo /conexão. Mas a qualquer sinal de perigo, será acionado o próximo estado.
Mobilização Luta/Fuga (Simpático): Se a conexão falha e foi neuroceptado perigo, o sistema nervoso (ele decide antes do pensamento consciente) mobiliza o corpo para a luta ou a fuga, nessa sequência.
Imobilização (Vago Dorsal): Se nada funciona, o corpo "desliga" para sobreviver. Em situações de choque (acidentes, abusos), o corpo congela para sentir menos dor. É uma proteção contra o risco de morte ou dor física/emocional.
Algumas pessoas ficam presas na Hiperativação (Simpático): sempre ansiosas, em alerta, com insônia.
Outras ficam presas na Hipoativação (Dorsal): sentindo-se anestesiadas, sem energia, desconectadas.
Ser saudável não é estar sempre no Vago Ventral, mas sim conseguir misturar os estados com segurança. Vamos entender um pouco mais sobre isso.

Estados Mistos
Também temos os estados mistos, eles se misturam, e são fundamentais para uma vida saudável:
- Brincadeira / Jogo (Vago Ventral + Simpático - luta): É a mobilização com segurança. Você corre, pula ou compete (Simpático), mas sabe que é uma brincadeira e que está seguro (Ventral). Sem o Ventral, a brincadeira vira briga.
- Quietude e Intimidade (Vago Ventral + Vago Dorsal): É o estado de estar parado com entrega, e não com medo. É o abraço apertado, a amamentação ou a meditação. Você está imóvel (Dorsal), mas seu sistema detecta conexão e afeto (Ventral). Sem o Ventral, a imobilidade vira congelamento ou sensação de estar preso."
- Trabalho e Foco (Vago Ventral + Simpático - luta): No trabalho você está ativo, focado e produtivo (Simpático), mas sente que está no controle e em segurança (Ventral). Sem o Ventral, o trabalho vira estresse crônico, ansiedade e sensação de perigo.
Estar ativo não é necessariamente estar saudável.
Estar parado não é necessariamente estar descansando.

O que define a saúde é a presença da segurança (Ventral) no que estamos fazendo.
Nossa saúde e resiliência estão na nossa capacidade de manter o Vago Ventral ativo enquanto navegamos pelos desafios.
- Sem o Ventral: O sistema nervoso entende que a vida é uma ameaça constante. O Simpático vira ataque/pânico e o Dorsal vira depressão/desligamento.
- Com o Ventral: O sistema nervoso entende que pode haver desafios, mas há segurança. O Simpático vira motivação/foco e o Dorsal vira descanso/paz.

Portanto, a saúde não é a ausência de estresse, mas a capacidade de manter nossa âncora de segurança (Ventral) ativa, mesmo quando estamos em movimento ou em silêncio.
Agora que você conhece os três estados do seu sistema nervoso, talvez esteja se perguntando: "Como posso identificar em qual deles estou no dia a dia?" . No próximo artigo, vamos fazer um simples teste que vai ajudá-lo.

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zago
é psicóloga clínica CRP 06/36.933-0, com abordagem junguiana e especialização em Psicossomática. Estudiosa de Alice Miller e Jung, aprofundou-se no ensaio: `A Psicologia do Arquétipo da Criança Interior´ - 1940.
A base de seu trabalho no atendimento individual de adultos é o resgate da autoestima e amor-próprio, com experiência no processo de reencontrar e cuidar da criança que foi vítima de abuso físico, psicológico e/ou sexual, e ainda hoje contamina a vida do adulto com suas dores.
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