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O abandono que não se esquece - Parte II


Neste artigo vou continuar abordando as possíveis causas que fazem com que nos sentimos abandonados. Lembrando que, quando sofremos de maneira desproporcional diante de um abandono quando adultos, muito provavelmente já o conhecemos desde muito cedo. Imagine uma criança que não é aceita, ou seja, é rejeitada no seu jeito de olhar, expressar, falar, comer, sentir, existir, não obtendo reconhecimento de seu valor em nada do que faz, ou sendo sempre cobrada mais e mais, como se tudo que fizesse sempre poderia ser melhor, típico de pais exigentes.

Isso quer dizer que, conforme percebemos, consciente ou inconscientemente, ainda muito pequenos, que a maneira como agimos não agrada aos nossos pais, vamos tentando nos adequar ou adaptar nosso jeito de ser, e aos poucos, vamos nos distanciando de quem somos de verdade, agindo de maneira a sermos aceitos, afinal, tudo que mais queremos é sermos amados por eles.

Assim, começamos a desenvolver o que chamamos de um falso self, um estado de falta de comunicação consigo mesmo, gerando uma sensação de vazio. O falso self é um mecanismo de defesa que dificulta o encontro com o self verdadeiro na vida adulta. É muito comum que crianças que cresceram em famílias disfuncionais, ou seja, em desequilíbrio proveniente do alcoolismo, excesso de cobranças e exigências, agressividade, maus-tratos, ou qualquer outro tipo de abuso, tenha sofrido a negação de seu verdadeiro eu. É nesse momento que o abandono começa a ser registrado, quando temos que nos afastar de quem somos de verdade, com o desejo inconsciente de sermos aceitos e amados.

Uma criança que chora ou demonstra algum sentimento, pode ser considerada frágil por seus pais e apanhar ainda mais (como se isso fosse torná-la forte), aprende a reprimir seus sentimentos e passa a sofrer em silêncio ou sem chorar, ou como algumas relatam: "chorando por dentro". Uma criança só pode demonstrar o que sente quando existe alguém que a possa aceitar completamente, ouvindo, entendo e dando-lhe apoio, carinho, amor, o que raramente acontece. Essa criança pode desenvolver-se de modo a revelar apenas o que é esperado dela, sequer percebendo que por trás das máscaras que teve que criar para sobreviver, existe uma essência, um ser especial e com potencial infinito de capacidades esperando por ser reconhecido. E pode passar a vida esperando por esse reconhecimento e/ou aprovação, transferindo para seus relacionamentos essa necessidade não suprida.

Alguns pais, inconscientemente, numa tentativa de encobrir sua falta de amor - o que é muito comum, por mais assustador que seja para alguns - declaram muitas vezes seu amor pelos filhos de forma repetitiva e mecânica, como se precisassem provar para si mesmos o amor que sentem, e as crianças sentem que suas palavras não condizem aos verdadeiros sentimentos e/ou comportamentos, podendo gerar uma busca desesperada por esse amor, cuja busca pode se estender durante toda a vida. Isso é muito comum nos casos de superproteção.

Mas nem sempre a superproteção dos pais é uma demonstração de falta de amor legítimo ou abandono, mas o fato de "sufocar" a criança na ânsia de demonstrar o amor que sentem por ela, pode causar as mesmas consequências que o abandono. Pais superprotetores, na ânsia de proteger a criança, fazem tudo por ela, e crescem com a sensação que são incapazes e com muita dificuldade em enfrentar o mundo e as frustrações que a vida apresenta. Com isso, também abandonam sua verdadeira essência na intenção de agradar a esses pais.

No outro extremo temos crianças que têm muita liberdade dos pais, e elas também sentem o abandono. Sim, porque o excesso de liberdade faz com que sinta que não se importam com ela.

Outro fator que também pode fazer com que a criança se sinta abandonada: quando passam a maior parte de seu tempo com "terceiros" que são pagos para cuidar delas, como babás, secretárias, motoristas. Ou ainda, crianças com muitas tarefas, cursos de línguas, esportes, estudando em tempo integral ou em colégio interno, que a faz ficar a maior parte do tempo fora de casa, em clubes, casa de amigos ou mesmo parentes, pode fazê-la sentir que esse excesso de atividades, que a mantém distante de seus pais, não é para seu próprio bem como muitos pais justificam, não é assim que a criança sente.

Ainda que os motivos para a ausência dos pais possam ser válidos: ausentes pelo trabalho excessivo, viagens, doenças, internações constantes, ou mesmo pela dificuldade em cuidar de uma criança. O fato é que a criança não entende os motivos da ausência, ela simplesmente sente que os pais não estão presentes, e que provavelmente ela é a culpada do abandono gerado por essas situações. Temos que lembrar que tê-los presentes não é garantia de receber afeto, principalmente se os pais forem agressivos, abusivos, controladores, críticos, exigentes.

Temos ainda as crianças que tiveram todas suas necessidades materias supridas, mas não receberam amor verdadeiro, ou seja, foram negligenciadas afetivamente, com certeza se sentirão abandonadas. Hoje, com os pais trabalhando em tempo integral, com pouco tempo para seus filhos, encontramos pais que acreditam que possam suprir sua ausência com tudo que o dinheiro pode comprar. Como o menino que diz: "meu pai é tão pobre, tão pobre, que só me dá dinheiro".

Todos esses sentimentos que não são conscientes quando acontecem, poderão trazer muitas consequências na vida adulta.

Continuarei no próximo artigo.
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Rosemeire Zago é psicóloga clínica CRP 06/36.933-0, com abordagem junguiana e especialização em Psicossomática. Estudiosa de Alice Miller e Jung, aprofundou-se no ensaio: `A Psicologia do Arquétipo da Criança Interior´ - 1940.
A base de seu trabalho no atendimento individual de adultos é o resgate da autoestima e amor-próprio, com experiência no processo de reencontrar e cuidar da criança que foi vítima de abuso físico, psicológico e/ou sexual, e ainda hoje contamina a vida do adulto com suas dores.
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