O que você faz com o que sente?
Autor Rosemeire Zago
Assunto PsicologiaAtualizado em 29/01/2026 17:41:00
Parte I - Sair do automático e começar a se escutar
Quando você sente algo, como costuma reagir?
Pare um momento e lembre-se de algumas situações do seu dia a dia.
Por exemplo:
Quando seu filho faz birra, chora ou parece não te ouvir, como você reage? Quando seu chefe chama sua atenção de forma injusta? Quando um colega de trabalho divulga sua ideia como se fosse dele? Quando um familiar te critica? Quando sua parceira(o) não responde mensagens ou chega tarde sem avisar? Como você reage?
Você se cala, silencia, congela?
Discute, grita, briga?
Abaixa a cabeça e sai?
Diante de situações desafiadoras, você costuma refletir sobre o que aconteceu, identificar o que sentiu ou simplesmente segue a vida no modo automático, sem pensar muito nos motivos que te levaram a reagir daquela forma?
Da reação ao que é sentido
Toda reação nasce de algo que foi sentido antes - mesmo que isso não seja percebido de forma consciente. Antes da reação, houve uma emoção, um sentimento, uma sensação no corpo.
Para compreender uma reação, é preciso dar um passo atrás e olhar para dentro: o que aconteceu em mim? O que eu senti antes de reagir dessa forma?
Muitas pessoas não conseguem responder a essas perguntas com facilidade - e isso não acontece por acaso, tem uma origem, há uma dificuldade real em identificar o que se sente.
Quando sentir não foi seguro
Aprendemos muito cedo que as emoções não importam. E isso vai trazer consequências para a vida.
Quando uma criança chora e não é acolhida - e isso se repete ao longo do tempo - ela aprende que sentir não é seguro, não é importante ou não faz diferença. Sentir dor emocional sem acolhimento, validação, afeto, é algo insuportável para uma criança.
Para continuar pertencendo e se adaptando, essa criança encontra uma solução possível: desconectar-se do que sente.
Frases como: "engole o choro", "vou te dar motivo pra chorar", "isso não é motivo pra ficar assim", "caiu, levanta", "tá triste por que?", "por que está tão feliz?", ensinam muito cedo que emoções precisam ser controladas, escondidas, ignoradas, como se sentir fosse algo errado. E assim, aprendemos a suprimir, negar ou minimizar o que sentimos.
Por isso que, na vida adulta vamos ter muita dificuldade em identificar e expressar o que sentimos, e principalmente, nomear e regular nossas emoções. (parte 2 e 3)
Como isso aparece nas relações
Tudo isso irá também se refletir na forma como lidamos com o outro.
Você pode ter dificuldade em acolher o choro do seu filho, de um colega de trabalho ou de uma amiga. Talvez não tenha paciência para ouvir a história triste de seu parceiro. Não porque falte empatia, mas porque, em algum momento, o seu próprio sentir não foi acolhido. E na vida adulta irá se tratar da mesma forma, sem permissão para sentir e sem acolhimento.
Para romper esse padrão, é preciso sair do automático e começar a se escutar. Pode ser que isso seja difícil no início, principalmente se suas necessidades emocionais básicas não foram atendidas na infância. Ainda assim, é possível aprender.
Começando pelo diálogo interno e pela escuta do corpo
Vamos começar aprendendo a identificar e nomear o que você sente.
Tudo começa com o diálogo interno - uma das ferramentas mais importantes no processo de autoconhecimento e cuidado emocional. Dialogar internamente é, de forma simples, conversar consigo mesmo.
Você já pratica esse diálogo?
Todos os dias, experimente se perguntar: "O que estou sentindo agora?"
Escute a resposta e, se possível, escreva. Registrar irá te ajudar a acompanhar o seu processo ao longo do tempo.
A resposta pode não vir de imediato. Seja paciente com você. Acolha o que surgir, sem julgar, sem se culpar.
Ao mesmo tempo, observe o corpo. Perceba se há tensão, aperto, desconforto, agitação, cansaço, dor ou mudanças na respiração. Muitas vezes, o corpo reage antes mesmo de conseguirmos colocar em palavras o que sentimos. Escreva tudo que identificar.
Depois, faça uma segunda pergunta: "O que aconteceu que me fez sentir isso?"
Escute a resposta e escreva. E, a cada resposta, você pode fazer uma nova pergunta, aprofundando a escuta e compreendendo melhor suas reações, seus sentimentos e os sinais do corpo.
Aprender a fazer essa leitura - da emoção, do pensamento e do corpo - amplia a consciência sobre si mesmo e faz diferença ao longo do processo de autoconhecimento. Com o tempo, essa escuta mais atenta ajuda a reconhecer padrões e a responder às experiências de forma mais consciente.
Na Parte 2, vou trazer uma lista de emoções, sentimentos e estados emocionais para te ajudar a se aprofundar nesse diálogo.










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