O Portal da Espiritualidade II
Autor Osvaldo Shimoda
Assunto Vidas PassadasAtualizado em 28/04/2006 12:41:54
“A criança poderá tornar-se consciente somente se, na sua vida anterior, houver meditado o suficiente, se houver criado suficiente energia meditativa para lutar contra a escuridão que a morte traz.
O indivíduo encontra-se simplesmente perdido em um esquecimento e, então, de repente, encontra um novo útero e esquece complemente do corpo antigo. Essa escuridão, essa inconsciência gera a descontinuidade. O oriente tem trabalhado arduamente para penetrar essas barreiras. Todos podem adentrar sua vida anterior, e até muitas vidas passadas. Conquanto possa ser divertido fantasiar a respeito de vidas passadas famosas, isso não passa de uma distração. O importante é enxergar e entender os padrões kármicos das nossas vidas e as suas raízes, em um ciclo repetitivo sem fim que nos aprisiona em um comportamento inconsciente”.
Osho Hyakujo: The Everest of Zen chapter 7
No artigo anterior (O Portal da Espiritualidade 1) eu expliquei que na Terapia Regressiva Evolutiva (TRE) , método psicoterápico por mim desenvolvido, utilizo um portão que é um artifício para facilitar o acesso do paciente às memórias passadas de seu inconsciente, (experiências traumáticas), seja desta vida (infância, nascimento, útero materno) ou de suas vidas passadas, causadoras de seus problemas atuais.
Esse portão funciona como um portal que separa o passado do presente, o mundo espiritual do mundo físico.
É nesse portal que costumam ocorrer acontecimentos inusitados, e que daria para escrever um livro, tal a riqueza das experiências relatadas pelos pacientes que passaram comigo pela TRE.
Em verdade, é esse portal que propicia ao paciente adentrar o seu passado. “Enxergar e entender os padrões Kármicos das nossas vidas (passadas) e as suas raízes, em um ciclo repetitivo sem fim que nos aprisiona em um comportamento inconsciente”; parafraseando as palavras do mestre oriental Osho que expôs sabiamente sua visão acerca dos padrões Kármicos (crenças) que trazemos de vidas passadas na introdução desse artigo.
Portanto, atravessar esse portal, na regressão de memória, significa romper a barreira da memória (esquecimento) que nos impede de lembrar acontecimentos dolorosos de nosso passado (desta ou de outras vidas). Fatos causadores de inúmeros distúrbios psíquicos, psicossomáticos, orgânicos (doenças orgânicas de causa desconhecida pela medicina oficial) e de relacionamento interpessoal (relacionamentos dolorosos, truncados, difíceis que não “atam e nem desatam” entre marido e mulher, pais e filhos, entre irmãos, etc.)
São, portanto, distúrbios kármicos que nos aprisionam e nos infelicitam.
Quero esclarecer aqui que Karma não é castigo, punição de quem pecou em vidas passadas, mas o preço que pagamos pela resistência em mudar. É a repetição, às vezes por séculos, em várias encarnações, de crenças, idéias que o paciente teria condições de modificar, mas que ainda reluta em mudar.
Por exemplo, se você em várias encarnações cultivou a crença no desvalor, sentimento de inferioridade, de que não merece ser feliz, não é digno de respeito, de consideração, e continua cultivando na encarnação atual esses sentimentos de desvalorização e desapreço, irá certamente atrair situações e pessoas arrogantes, prepotentes que o humilharão, o destratarão.
Portanto, são os pensamentos e as crenças que criam o nosso destino (Karma). Através de nossas crenças, as profissões são escolhidas, os relacionamentos são formados e as vidas são vividas. Quando as modificamos para melhor, tudo se transforma. É comum o paciente, ao atravessar o portal, descobrir que em várias encarnações sempre passou por situações humilhantes e servis (escravo, prostituta, mendigo, serviçal, criança abandonada, espancada, etc.).
Desta forma, são as nossas crenças que geram nossas atitudes, criam o nosso destino. Somos nós, com o nosso arbítrio, quem o programamos. É fundamental afirmar nesse artigo, que podemos mudar e reprogramar o nosso destino. Em verdade, não existe fatalismo, uma vez que os acontecimentos mudam conforme mudamos as nossas atitudes.
Você cultiva um padrão de pensamento - embora não tenha consciência -, que atraiu determinados acontecimentos em sua vida atual. É possível que o venha cultivando em várias encarnações.
Com essa atitude, criou seu Karma que se repetirá enquanto você não descobrir a verdadeira causa que se oculta atrás de sua maneira de pensar.
A TRE, como instrumento de autoconhecimento e cura, propicia ao paciente – quando este rompe a barreira da memória, atravessando o portal - uma grande oportunidade de rever suas crenças antigas e quebrar o seu ciclo Kármico.
Caso Clínico:
Dificuldade de Engravidar
Mulher de 32 anos, casada.
Veio com o marido ao meu consultório. Queria saber o motivo de não conseguir engravidar.
Há dois anos o casal tentava sem sucesso ter uma criança.
Buscaram ajuda até no exterior (EUA), nas melhores clínicas de reprodução humana, mas a paciente não conseguia engravidar. Por recomendação de um renovado médico obstetra de São Paulo, especialista em reprodução humana - que conhecia o meu trabalho - o casal me procurou.
Ao regredir a paciente me relatou:
“Vejo uma árvore e, ao lado, um pequeno baú de madeira. Tenho a sensação de estar na Itália, no séc. XIX. Meus cabelos são lisos e compridos, calço um sapatinho marrom, bico fino. Minhas mãos são brancas, uso um vestido longo, simples, as mangas são fofas. Ele é apertado na cintura.
Eu me sinto atormentada...
Sei que aquele baú de madeira que vi no início da regressão, ao lado daquela árvore, contém aquilo que me atormenta. Eu não quero que ninguém saiba o que tem dentro daquele baú. Também não quero me desfazer do que tem dentro dele” (pausa).
- Volte mais no tempo, retroceda para ver o que você guarda nesse baú – peço à paciente.
“Estou numa casa rica, é a minha casa, moro com os meus pais. Tenho a impressão de ser uma florentina, nasci na cidade de Florença, na Itália. Mas essa bela cidade me faz mal, odeio essa cidade, apesar de sua beleza.
Existe muita podridão aqui. É tudo pelo dinheiro, poder e prazer.
Temos a arte mais desenvolvida do mundo, as abóbadas das nossas construções são de uma perfeição que nenhum grego é capaz de imaginar. Mas o veneno corre solto, as pessoas adoram matar os seus desafetos, os envenenando. A lei aqui é uma piada. As pessoas de poder fazem o que bem entendem, podem tudo. Agora, um cidadão comum, por um deslize menor, é severamente julgado” (pausa).- Vá prosseguindo nessa cena - peço à paciente.
“Eu me vejo debruçada na janela de minha casa. Vejo a cidade do alto, é uma vista magnífica” (pausa).
- Avance agora bem mais para frente nessa cena - peço à paciente novamente.
“Eu volto naquela árvore, estou sentada, encostada no tronco da árvore. Eu me sinto doente, febril, minha existência foi em vão. Não consegui mudar nada”.
- O que você queria mudar? - pergunto-lhe.
“Eu queria que todos aqueles florentinos safados com poder fossem à forca, que o povo os julgasse e os condenasse como eu fui condenada. Mas a minha condenação foi só moral; porém, pesada”.
- Você foi condenada por quê? – pergunto-lhe.
“Eu matei o meu próprio filho, assim que o pari. Eu fui expulsa de casa pelos meus pais, assim que eles descobriram que eu estava grávida. Fui viver uma vida simples, após a minha expulsão. Assim que eu pari o meu filho, fiquei desesperada, não tinha recursos, apoio de ninguém.Após matá-lo, eu me recusei a enterrá-lo. Eu o carrego dentro daquele baú. Eu não me separo dele nunca, lá estão os seus ossos.
É muito cruel o que fiz! (paciente chora intensamente). Eu tentei esconder a gravidez de meus pais, mas eles acabaram descobrindo. Todos da cidade ficaram sabendo. Era uma desonra para o meu pai, sua filha grávida não ser casada. Fui apedrejada pelos moradores, tive que fugir da cidade, fui morar numa outra cidade, bem longe da minha terra natal.
Eu me apresentava como Marieta, mas o meu nome verdadeiro era Giuliana.
As pessoas me perguntavam o que tinha dentro do baú. Não enterrei o meu filho porque a culpa era muito grande. Além do que fiz, meu pai tinha grandes planos para mim. Ele queria me ver bem casada” (pausa).
- Vá para o momento de sua morte nessa vida passada - peço à paciente.
“Eu acho que morri de uma estranha doença, uma febre intensa que dava naquela época”.
- Que pensamentos e sentimentos lhe vieram no momento de sua morte – pergunto-lhe.
“Eu chorei, pedi perdão a Deus e àquele filho (paciente chora copiosamente).
Foi muito doloroso não deixá-lo viver.
Mas a minha desonra, não era nada perto da sujeira, da imundice daquela cidade. As prostitutas eram respeitadas pelos homens de poder, pois eles freqüentavam os prostíbulos.
No desespero, eu matei o meu filho, pois iria ser um filho bastardo e eu me acovardei. Durante a gravidez, eu conversava com ele passando a mão na barriga. A minha consciência me perturbava. Na verdade, eu queria ser mãe, mas no fim fiquei com medo de meus pais e da sociedade. Na época, uma mulher grávida fora do casamento, podia ser morta pelo pai. Mas ele preferiu me expulsar de casa.
Eu não me separava daquele baú; onde eu ia, carregava-o comigo.
À noite, eu o embalava em meu colo; morri segurando-o próximo de meu corpo”.
Após a sessão de regressão, a paciente compreendeu que ainda trazia na vida atual, a culpa, o remorso de ter tirado a vida de seu filho daquela vida passada. Em verdade, entendeu que não conseguia engravidar porque inconscientemente estava se autopunindo, pois não se sentia digna, merecedora de engravidar, de ser mãe.
Após passar por mais quatro sessões de regressão, a paciente conseguiu se perdoar e se libertar, portanto, dessa culpa. Seis meses após o tratamento, recebi um telefonema da paciente me comunicando que estava grávida.








in memoriam