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Carta aos Amantes

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Desculpe o tom moralista. Mas nos envergonhamos hoje da moralidade quando deveríamos nos envergonhar da falta dela.

Se alguém fala de seus valores, logo censuramos: quem é você para dar sermão? De pecados, estamos cheios e, se fosse por isso, ninguém falava mais nada.

A infidelidade é um ato infantil. Não estou esvaziando nossa responsabilidade.
Um casal infiel não é formado por adultos. Nem sei como o motel nos deixa entrar, já que não aceita menores. Somos duas crianças fugindo de suas casas, como fazíamos antes na infância.
Ao invés de pular a janela para cair em festa ou enfiar travesseiros nas cobertas para sugerir presença, duplicamos os compromissos para selar encontros. Há culpa e alívio, há apreensão e desejo, solúveis à água dos olhos.
Ao invés de esconder o cigarro ou a maconha, escondemos a consciência das palavras.

Não enganamos mais os pais (muito menos estamos enganando nossa mulher ou marido), mas a si mesmos. Alegramo-nos por conseguir nos iludir com perfeição e esmero. Fingimos que nossa vida não é conosco.
É como alguém que não tem coragem para se demitir, e aguarda a demissão para contar com o Fundo de Garantia.

O que me intriga não é o fato de sairmos ao encontro sem remorso. É voltar para a residência e participar da rotina com alegria redobrada. Mentimos ao chegar, não ao sair. Mentimos o que somos em nome do que parecemos ser.

Escrevemos juras adolescentes, mensagens de infinita afinidade; efetuamos pactos de imortalidade, porque não estamos juntos para nos duvidar.

Estamos brincando que nascemos agora. Brincamos um pouco mais do que a conta. Brincamos que não há filhos, que não há tarefas, que não há aluguel e mensalidades, que não há encargos, que ainda podemos escolher o que seremos quando crescer.

Brincamos até que somos namorados entre as quatro paredes.

Não nos importamos com a babá. Ou com a hora de voltar. Afinal, estamos numa reunião importantíssima.

Fácil ser criança. Por isso, maridos tediosos são maravilhosos às amantes. Por isso, mulheres irritantes são suaves aos amantes. O que fazemos além de amar?

E amar, sem precisar deslumbrar quem os conhece. Complicado surpreender a esposa ou o marido que decoraram nossas estratégias. Os amantes são preguiçosos para o final, portanto, repetem inícios.

Não brigamos, porque não nos preocupamos em preservar esse amor. Quem briga está com medo de perder. E não temos medo de nada.

Não temos passado para sermos questionados. Não há sogra ou sogro, ração de cão ou gato a comprar, não há ex-namorados e ex-namoradas.

Somos vaidosos: queremos elogios e menos realidade. Acreditamos que temos razão, como todas as crianças que choram no supermercado.

Participamos de um jogo erótico, de ir até onde pudermos suportar. Tentamos nos diferenciar perdendo a memória, pois nos achamos iguais a quem nos casamos.

Não mostramos nossas manias, nosso ciúme, nossos defeitos, nossa incapacidade de compreender o silêncio como prova de doação. Não haverá tempo para captar as frustrações e os traumas. É o intervalo de uma risada, não da cumplicidade eloqüente da dor.

Compreendemo-nos no ato, não discordamos, não prestamos satisfações. Somos adiamentos, detestamos conversa séria. Um anula a personalidade do outro.

À semelhança de férias na praia, nos entregamos a uma segunda infância. Vamos pensando na volta, voltamos pensando em ir de novo. Dizemos que é tarde para mudar e é cedo para assumir o futuro. Trocamos promessas desmedidas, incomensuráveis de paixão, tal estudante que esquece o tema da escola e inventa brincadeiras com os amigos.

Durante os momentos de envolvimento, somos livres porque concebemos a liberdade como uma transgressão. Ainda enxergamos a liberdade como desrespeitar as regras quando a liberdade é não precisar delas.

Como crianças, bagunçamos o quarto e sequer arrumamos a cama.

Como crianças, desejamos - no fundo - o castigo.

Por: Fabrício Carpinejar
https://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br


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