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Neurocientista vê seu cérebro se deteriorar


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A norte-americana Jill Bolte Taylor descreve em livro sua experiência com o derrame que sofreu aos 37 anos

Às 7h de uma manhã de inverno, Jill Bolte Taylor acordou com uma forte dor de cabeça. A luz do sol ofuscava seus olhos. Ao ir até o banheiro, notou certa dificuldade para se equilibrar. Além disso, seu raciocínio estava confuso. Ainda assim, conseguiu tomar banho e se vestir. Só quando seu braço direito ficou paralisado, entendeu: estava tendo um derrame.

Neuroanatomista do Banco de Cérebros de Harvard, Jill passou as quatro horas seguintes observando a própria deterioração cerebral. O processo afetou linguagem, memória e movimentos -e a levou ao "nirvana". Era dia 10 de dezembro de 1996, e Jill tinha 37 anos. Neste ano, ela galgou a lista de mais vendidos nos EUA com o relato de sua recuperação -"A Cientista que Curou Seu Próprio Cérebro" (Ediouro).

O nirvana de Jill decorreu de especificidades de seu AVC (acidente vascular cerebral). Ela teve uma hemorragia no lado esquerdo do cérebro, ligado ao raciocínio lógico. Com o dano, prevaleceu o lado direito, mais abstrato e emocional. O resultado, conta, foi a suspensão da noção de tempo e a sensação de união com o universo.
Nesse ínterim, teve algumas "ondas de clareza". Numa delas, lembrou o telefone da mãe, mas não quis preocupá-la. Então ficou esperando outra "onda" que lhe permitisse lembrar o telefone do trabalho. Quando conseguiu ligar, descobriu que não sabia mais falar. Por sorte, reconheceram sua voz.

"Não senti medo", disse Jill à Folha. "Eu era uma cientista vendo meu cérebro avançar nesse processo incrível de deterioração e não previ que ficaria tão doente. E, quando chegou a hora em que eu poderia morrer, senti uma profunda paz."
A sensação era tão prazerosa que ela diz ter se questionado sobre o benefício da recuperação -o simples ato de ligar uma palavra à imagem mental certa levava horas e a deixava esgotada. O que a motivou a deixar a "divina serenidade" e encarar a reabilitação foi o desejo de ensinar aos outros como atingir a mesma tranqüilidade.
O que Jill propõe é uma forma de aquietar o lado esquerdo do cérebro para aproveitar as vantagens do lado direito.

Uma de suas estratégias consiste em focar a atenção em aspectos sensoriais (como aromas e sons) para se prender ao presente. Outra dica é orar e meditar. No livro, Jill cita um estudo que relaciona a neuroanatomia a experiências espirituais. A pesquisa avaliou praticantes de meditação e freiras e constatou que essas práticas reduziam a atividade de certas áreas do lado esquerdo.
"Nossa habilidade de experimentar a religião e a fé é baseada no cérebro. Quando os neurônios são ativados ou inibidos, experimentamos a união com algo maior", afirma Jill.

Críticas
Pelo tom de auto-ajuda, o discurso atrai críticas. "Há cientistas com a cabeça fechada que estão interessados em discutir a ciência no livro, mas não há uma ciência nova lá. Só uma vivência que condensa o que já se sabe", diz Jill.
Para ela, um dos melhores "remédios" foi o sono. Nas primeiras semanas após o AVC, sua rotina consistia em dormir por seis horas, passar 20 minutos acordada, tentando alcançar algum avanço cognitivo ou físico, e dormir de novo.
Ela também destaca o estímulo que recebeu da mãe nas atividades do dia-a-dia: perguntas cujas respostas eram "sim" ou "não" foram substituídas por questões de múltipla escolha, para que a filha precisasse elaborar uma resposta. "Embora saibamos muito sobre o cérebro, acho que temos um trabalho relativamente pobre na reabilitação cerebral", afirma Jill. "Não honramos o poder curativo do sono. Nos EUA, é comum acordar os pacientes cedo, dar-lhes anfetaminas e empurrá-los para um local repleto de estímulos, com TV ou rádio ligados. Meu cérebro queria dormir justamente para não ter de processar a estimulação excessiva."
Outro erro comum, a seu ver, consiste em dizer aos pacientes que a recuperação pára após os primeiros seis meses. Jill só voltou a fazer operações matemáticas, por exemplo, cinco anos após o trauma.

Hoje, ela dá aulas de neuroanatomia na Universidade Indiana e retomou uma atividade: a de "cientista cantora". A alcunha surgiu quando Jill iniciou uma campanha em prol da doação de cérebros para pesquisa. Como o tema deixava as pessoas tensas, ela tentava descontraí-las passando a mensagem por meio de músicas.
Seu interesse sobre o cérebro tem uma origem familiar. Com um irmão portador de esquizofrenia, ela queria entender como ele pensava. Acabou entendendo mais sobre si mesma.

A Recuperação após o derrame

10/12/1996
Jill sofre um AVC.

17 Dias
Submete-se a uma cirurgia, que tira um coágulo do tamanho de uma bola de golfe.

5 Semanas
Recupera o diálogo interno – a capacidade de “ouvir” os próprios pensamentos.

3 Meses
Volta a dirigir.

4 Meses
Consegue dar uma palestra de 20 minutos, que havia sido agendada antes do derrame. Para isso, estuda vídeos antigos de suas próprias palestras e passa um mês treinando.

2 Anos
Tenta reconstruir as lembranças relativas à manhã do AVC.
É encontrada pelo Rose Hulman Institute of Technology, em Indiana, para lecionar nos cursos de anatomia e fisiologia e de neurociência.


3 Anos
Volta a jogar paciência.

4 Anos
Após quatro anos andando 5 km por dia, com pesos nas mãos, consegue caminhar com um ritmo estável. Recupera a capacidade de fazer operações matemáticas simples, como somar, subtrair e multiplicar.
Consegue realizar tarefas simultâneas, como falar ao telefone e cozinhar ao mesmo tempo.


5 Anos
Consegue realizar contas matemáticas de divisão.
Ao final do ano, consegue pular de pedra em pedra na praia sem olhar para onde os pés aterrizam.


6 Anos
Alcança uma meta antiga: ter energia suficiente para subir osd degraus das escadas de dois em dois.

7 Anos
Começa a dar aulas no Departamento de Cinesiologia da Universidade Indiana.
Reduz a necessidade de sono noturno de 11 horas para 9 horas e meia. Volta a ter sonhos com estrutura narrativa.


8 Anos
Experimenta uma mudança na percepção do próprio corpo. “ Embora tenha comemorado voltar a ser alguém sólido, senti falta de me perceber como fluido. Sinto falta da lembrança constante de que somos todos um”.

Fonte: AMARÍLIS LAGE DA REPORTAGEM LOCAL
Folha de São Paulo - Suplemento Saúde

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