O desejo de encontrar o outro e a necessidade de não perder a si mesmo

O desejo de encontrar o outro e a necessidade de não perder a si mesmo

Autor Eliana Guedes

Assunto Almas Gêmeas
Atualizado em 10/19/2026 10:10:40 AM





A complexidade das relações humanas: entre o desejo de encontrar o outro e a necessidade de não perder a si mesmo

Por que as relações humanas são tão complexas? Por que, mesmo desejando amar e ser amados, tantas vezes nos vemos diante de desencontros, frustrações e conflitos que parecem desafiar nossa capacidade de compreender o outro e, muitas vezes, a nós mesmos?

Vivemos em busca de alguém que nos complemente, nos acolha, desperte nosso desejo, compartilhe nossos sonhos e torne a vida mais prazerosa. Desejamos uma presença que nos faça sentir especiais, que nos compreenda sem que precisemos explicar tudo, que reconheça nossas necessidades e nos ofereça a segurança emocional que tanto buscamos. Entretanto, nessa procura, podemos cair em uma armadilha: esperar que o outro corresponda a um ideal que, talvez, nem ele próprio saiba que estamos projetando sobre ele.

O prazer, a atração e a paixão são componentes importantes das relações amorosas, mas seus efeitos mais intensos não permanecem necessariamente os mesmos ao longo do tempo. A novidade cede espaço à familiaridade, o encantamento encontra a realidade e as diferenças, antes percebidas como interessantes, podem se transformar em fontes de irritação. É nesse momento que a relação começa a exigir algo além do desejo: maturidade emocional, diálogo, respeito, flexibilidade e disposição para reconhecer que amar alguém significa também conviver com aquilo que não corresponde inteiramente às nossas expectativas.

Talvez esperemos demais. Talvez tenhamos aprendido a idealizar o amor como uma experiência capaz de preencher nossas lacunas, curar nossas feridas e nos proporcionar uma felicidade contínua. Mas será justo atribuir a outra pessoa a responsabilidade por uma completude que talvez dependa, antes de tudo, de nossa própria relação conosco?

Por outro lado, reduzir as expectativas não significa aceitar qualquer relação, silenciar necessidades legítimas ou conformar-se com uma convivência apenas parcialmente satisfatória. Existe uma diferença fundamental entre compreender que ninguém é perfeito e convencer-se de que precisamos suportar aquilo que nos machuca para não ficarmos sozinhos.

E então surge o dilema: devemos preservar nossa individualidade, nossos desejos e nossa maneira de ser, mesmo correndo o risco de não encontrar alguém com quem construir uma relação duradoura? Ou devemos ceder, adaptar-nos e renunciar a partes importantes de nós mesmos para manter uma relação que oferece alguma companhia, mas não necessariamente a satisfação afetiva que desejamos?

Talvez essa seja uma falsa escolha. Não precisamos decidir entre viver exclusivamente para nós mesmos e viver em função do outro. O desafio está em construir uma terceira possibilidade: uma relação na qual duas pessoas possam estar juntas sem deixar de pertencer a si mesmas.

Mas como fazer isso quando amar também significa lidar com frustrações, diferenças, inseguranças e necessidades que nem sempre encontram correspondência no parceiro?

A psicologia nos oferece caminhos importantes para refletir sobre essa questão.

1. Jung e a idealização do parceiro: amamos quem o outro é ou quem imaginamos que ele seja?

Na perspectiva da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, uma das possibilidades para compreender a complexidade das relações amorosas está no fenômeno da projeção psicológica.

Nem sempre nos relacionamos apenas com a pessoa real que está diante de nós. Inconscientemente, podemos projetar nela desejos, expectativas, necessidades afetivas e aspectos de nossa própria personalidade que ainda não reconhecemos plenamente.

No início de uma relação, por exemplo, podemos enxergar no outro a segurança que nos falta, a liberdade que desejamos experimentar, a sensibilidade que gostaríamos de encontrar ou a força que acreditamos não possuir. A pessoa passa a representar muito mais do que ela realmente é: torna-se portadora de nossas imagens internas sobre o amor.

Essa experiência pode ser encantadora, mas também pode nos afastar da realidade. À medida que conhecemos melhor o parceiro, percebemos que ele possui características, limites e necessidades que não correspondem à imagem inicialmente construída.

O desencanto, nesse sentido, nem sempre significa que o amor acabou. Às vezes, significa que começamos a enxergar a pessoa para além da idealização.

Jung nos convida a compreender que o encontro com o outro também pode se tornar um encontro com aspectos desconhecidos de nós mesmos. Aquilo que nos atrai intensamente, assim como aquilo que nos irrita profundamente, pode despertar questões importantes sobre nossa história, nossos complexos e nossas necessidades emocionais. Isso não significa que toda atração ou todo conflito seja uma projeção, mas que vale a pena investigar o que essas experiências mobilizam em nós.

A pergunta, portanto, deixa de ser apenas: "Será que encontrei a pessoa certa?"

E passa a incluir outra, talvez mais transformadora: "O que essa relação revela sobre mim, sobre minhas expectativas e sobre aquilo que ainda preciso compreender em minha própria vida?"

2. Individuação: amar sem abandonar a própria identidade

Para Jung, o processo de individuação corresponde, em linhas gerais, ao desenvolvimento de uma personalidade mais integrada, consciente de suas contradições e capaz de reconhecer sua singularidade.

Sob essa perspectiva, uma relação amorosa pode favorecer o crescimento psicológico, desde que não se transforme em um espaço no qual um dos parceiros precise renunciar continuamente a si mesmo para ser aceito.

Quando alguém modifica suas opiniões, abandona seus interesses, silencia suas necessidades e reprime seus sentimentos por medo de perder o outro, corre o risco de construir uma relação às custas da própria identidade.

A adaptação faz parte de qualquer convivência. Não podemos esperar que outra pessoa pense, sinta e aja exatamente como nós. Entretanto, adaptar-se não é o mesmo que se anular.

A adaptação saudável permite que duas individualidades encontrem um caminho comum; a anulação exige que uma delas deixe de existir plenamente para que a relação continue.

A individuação não significa buscar uma independência absoluta, como se precisar de afeto fosse sinal de fraqueza. Somos seres relacionais, e o vínculo, a intimidade e o reconhecimento do outro são dimensões importantes da experiência humana.

O desafio é desenvolver uma autonomia que não impeça a intimidade e uma intimidade que não destrua a autonomia.

Talvez amadurecer afetivamente seja justamente aprender a dizer: "Eu quero estar com você, mas não preciso deixar de ser quem sou para merecer o seu amor."

3. Erich Fromm: o amor não é apenas sentimento, mas uma capacidade que se desenvolve

Em A arte de amar, publicado originalmente em 1956, Erich Fromm propõe uma reflexão fundamental: amar não é apenas experimentar um sentimento intenso ou encontrar alguém que desperte nosso interesse. O amor também exige aprendizado, compromisso e uma atitude ativa diante da vida e do outro.

Fromm destaca quatro elementos importantes para o amor maduro: cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento.

Esses elementos nos ajudam a compreender que uma relação duradoura não depende exclusivamente da intensidade da paixão ou da quantidade de prazer que proporciona.

  • Cuidado: interessar-se genuinamente pelo bem-estar e pelo desenvolvimento do outro.
  • Responsabilidade: estar disposto a responder às necessidades da relação, sem confundir isso com a obrigação de satisfazer todos os desejos do parceiro.
  • Respeito: reconhecer que o outro possui uma individualidade que não nos pertence e que não precisa ser moldada inteiramente às nossas preferências.
  • Conhecimento: buscar compreender a pessoa real, para além das idealizações, das aparências e das expectativas que projetamos sobre ela.
Essa concepção modifica a pergunta inicial. Em vez de procurar apenas alguém que nos agrade e nos proporcione prazer, precisamos considerar também nossa capacidade de construir um vínculo no qual ambos possam crescer.

A questão não é deixar de desejar prazer, satisfação ou reciprocidade. É compreender que esses elementos, embora importantes, não são suficientes para sustentar uma relação quando faltam respeito, confiança, diálogo e disposição para enfrentar os inevitáveis desafios da convivência.

Amar não significa gostar de tudo no outro. Significa poder reconhecer suas diferenças sem precisar transformá-las permanentemente em defeitos, desde que essas diferenças não violem nossos valores fundamentais ou comprometam nosso bem-estar.

4. Carl Rogers: a importância de sermos nós mesmos na relação

Carl Rogers, um dos principais representantes da abordagem centrada na pessoa, valorizou a autenticidade, a empatia e a aceitação como condições importantes para relações humanas construtivas.

Aplicada à vida amorosa, essa perspectiva nos convida a refletir sobre uma questão delicada: podemos ser verdadeiramente conhecidos e amados quando precisamos esconder partes importantes de quem somos?

Quando alguém acredita que só será aceito se corresponder às expectativas do parceiro, pode começar a representar um papel. Aprende a dizer o que o outro deseja ouvir, a esconder sentimentos considerados inconvenientes e a evitar conversas difíceis para preservar uma aparente harmonia.

Mas essa harmonia tem um custo. Por fora, a relação pode parecer tranquila; por dentro, uma das pessoas pode sentir solidão, ressentimento e a impressão de não ser compreendida.

A autenticidade não significa dizer tudo sem considerar os sentimentos alheios, tampouco usar a sinceridade como justificativa para ferir. Significa encontrar formas respeitosas de expressar necessidades, limites e sentimentos reais.

Uma relação emocionalmente saudável precisa oferecer espaço para que ambos possam dizer o que pensam, discordar, negociar e rever posições sem que cada diferença seja interpretada como ameaça ao vínculo.

Afinal, não basta estar acompanhado; é preciso sentir que existe espaço para ser quem se é na presença do outro.

5. Expectativas: precisamos esperar menos ou aprender a esperar melhor?

Talvez não seja necessário diminuir indiscriminadamente nossas expectativas, mas distinguir aquelas que expressam necessidades legítimas daquelas que exigem do outro uma perfeição impossível.

Esperar respeito, honestidade, consideração, reciprocidade e disponibilidade para o diálogo não é necessariamente exigir demais. São elementos importantes para uma convivência afetiva satisfatória.

Por outro lado, esperar que o parceiro compreenda todas as nossas necessidades sem que precisemos comunicá-las, concorde sempre conosco, jamais nos decepcione ou mantenha indefinidamente a intensidade emocional do início da relação é atribuir ao amor uma tarefa impossível.

A questão está em diferenciar o essencial do idealizado.

Podemos flexibilizar preferências, negociar hábitos e aprender a conviver com diferenças. Entretanto, não precisamos negociar indefinidamente nossa dignidade, nossos valores fundamentais ou nosso direito de expressar necessidades.

Também é importante reconhecer que nem toda incompatibilidade pode ser resolvida com paciência e boa vontade. Duas pessoas podem ser boas, respeitosas e sinceras, mas desejar estilos de vida, formas de intimidade ou projetos de futuro muito diferentes.

Nesses casos, a dificuldade não está necessariamente em quem ama mais ou em quem deveria ceder. Pode estar na própria incompatibilidade entre aquilo que cada um precisa e consegue oferecer.

Maturidade emocional também é reconhecer quando uma relação pode crescer e quando a tentativa de mantê-la está exigindo sacrifícios excessivos de uma das partes.

6. Afinal, devemos agradar a nós mesmos ou ao outro?

Talvez a resposta não esteja em escolher entre essas duas possibilidades, mas em questionar a ideia de que precisamos sacrificar uma para alcançar a outra.

Agradar a si mesmo é importante, mas uma relação não pode funcionar como um projeto individual no qual o parceiro existe apenas para satisfazer nossas necessidades.

Da mesma forma, agradar ao outro pode ser uma expressão legítima de carinho, desde que não se transforme em uma obrigação permanente de renunciar aos próprios desejos.

O amor maduro exige movimentos de aproximação e diferenciação. Em alguns momentos, cedemos porque compreendemos a importância de algo para quem amamos. Em outros, precisamos sustentar nossas escolhas porque elas expressam algo essencial de nossa identidade.

A reciprocidade não significa que ambos farão sempre as mesmas concessões ou que a relação será perfeitamente equilibrada em todos os momentos. Significa que os interesses, os sentimentos e as necessidades de ambos têm importância e podem ser considerados.

É preciso observar, sobretudo, se os esforços para manter o vínculo são compartilhados ou se apenas uma pessoa está continuamente se adaptando.

Uma relação não precisa ser perfeita para ser satisfatória. Mas também não deveria exigir que alguém se torne menor para que o relacionamento possa continuar existindo.

E quanto à busca pelo parceiro ideal?

Talvez seja mais realista procurar uma pessoa com quem exista compatibilidade suficiente para construir algo significativo, e não alguém que corresponda integralmente a todas as nossas expectativas.

Não precisamos abandonar o desejo de encontrar um grande amor. Precisamos, talvez, abandonar a ideia de que esse amor será capaz de eliminar todas as nossas faltas, resolver todos os nossos conflitos internos ou nos proteger de qualquer frustração.

O outro pode caminhar conosco, mas não pode realizar por nós o trabalho de nos conhecermos, construirmos nossa autonomia e atribuirmos sentido à própria existência.

Considerações finais: entre a liberdade de ser e a coragem de compartilhar a vida

As relações humanas são complexas porque colocam em contato duas histórias, duas subjetividades, dois universos de desejos, medos, valores e expectativas. Cada pessoa chega ao encontro trazendo suas experiências anteriores, suas formas de amar, suas defesas e suas maneiras particulares de compreender o mundo.

O desafio não consiste em eliminar as diferenças, mas em descobrir quais delas podem ser acolhidas, negociadas e transformadas em oportunidades de crescimento - e quais revelam incompatibilidades que precisam ser reconhecidas.

Talvez o amor não seja encontrar alguém que nos preencha perfeitamente, mas encontrar alguém com quem possamos compartilhar nossas incompletudes sem transformar o outro em responsável por resolvê-las.

Talvez não precisemos escolher entre a liberdade individual e a construção de um vínculo. Precisamos aprender a preservar ambas.

E talvez o verdadeiro amadurecimento afetivo aconteça quando deixamos de perguntar apenas o que o outro pode nos oferecer e começamos a investigar o tipo de relação que estamos construindo juntos.

Porque estar em uma relação não deveria significar escolher entre a própria felicidade e a felicidade do outro. Deveria significar encontrar maneiras possíveis de cuidar de ambas, reconhecendo que nem todos os desejos poderão ser satisfeitos, nem todas as diferenças serão superadas e nem toda relação terá condições de continuar.

Isso exige coragem para amar, mas também para conversar, negociar, estabelecer limites e, quando necessário, reconhecer que o amor, por si só, nem sempre é suficiente para tornar duas pessoas compatíveis.

Talvez a questão fundamental não seja encontrar alguém que nos complete, mas construir uma relação na qual nenhum dos dois precise se abandonar para permanecer junto.

E fica uma última reflexão: será que buscamos um parceiro para compartilhar a vida que estamos construindo ou esperamos que alguém chegue para nos oferecer a vida que ainda não conseguimos construir sozinhos?

A resposta pode revelar muito sobre a maneira como amamos - e sobre o caminho que ainda temos a percorrer em direção a nós mesmos.

Referências para aprofundamento

  • JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes. Obra importante para refletir sobre individuação, relação entre consciência e inconsciente e desenvolvimento da personalidade.
  • FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes. Publicado originalmente em 1956. Fundamenta a compreensão do amor como capacidade que exige cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento.
  • ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes. Explora autenticidade, experiência subjetiva e condições facilitadoras do crescimento pessoal.
  • JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes. Contribui para aprofundar o estudo dos símbolos, das imagens arquetípicas e dos processos inconscientes que podem participar da experiência amorosa.
Nota conceitual: as reflexões sobre projeção, individuação e autenticidade apresentadas no texto são aplicações interpretativas das ideias desses autores às relações amorosas, não citações literais nem afirmações de que eles tenham formulado exatamente essas conclusões.





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Autor Eliana Guedes   
Realizo Atendimentos Online - Cel./WhatsApp: 9.9365-3322. Com Pós Graduação em: Acupuntura, Psicologia Integrativa Transpessoal, Saúde Mental e Gerontologia, Psicologia Hospitalar, Gestão Pública e Neuropsicologia. Site: https://www.elianaguedes.com.br/ Instagram: @eliana.guedes.psicologa
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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