PARA ONDE VÃO OS NOSSOS SILÊNCIOS

PARA ONDE VÃO OS NOSSOS SILÊNCIOS

Autor Willes S. Geaquinto

Assunto Autoconhecimento
Atualizado em 9/11/2026 11:08:08 AM





Se existe uma pergunta que insiste em ecoar, é a indagação do cartunista argentino Quino[1], formulada através de sua inesquecível personagem Mafalda: "Para onde vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?"

Tudo o que interiorizamos - seja luminoso ou sombrio - deixa marcas. O corpo e a mente são territórios integrados: o que a boca cala, o coração acumula e a carne, eventualmente, traduz. Quando represamos, censuramos ou sublimamos emoções e sensações, criamos uma barragem invisível. O curto, médio ou longo prazo, esses sentimentos não ditos cobram seu preço, manifestando-se como desconforto psíquico ou sintomas físicos. É muito provável que grande parte dos mal-estares que o corpo apresenta seja resultado do amargor acumulado pelo silêncio forçado.

Conheci, em casos levados à psicoterapia, quadros depressivos oriundos de dinâmicas familiares que eram caladas para manter uma falsa harmonia. A solução só se apresentou quando, em um processo de reparentalização, ocorreu a quebra do silêncio imposto - ou seja, quando se restabeleceu a via de expressão autêntica e sem censura. Esse relato evidencia que muito do que introjetamos vem da criação familiar, mas também se estende a outras esferas, como o ambiente escolar, religioso e laboral. Em síntese, reproduzimos nesses espaços o que aprendemos - ou desaprendemos - na família, e esses novos ambientes muitas vezes potencializam tais padrões.

Alexander Lowen [2], criador da análise bioenergética, afirma em O Corpo em Depressão: "A supressão de sentimentos cria uma predisposição para a depressão, uma vez que ela impede o indivíduo de confiar em seus sentimentos como um guia para seu comportamento." Tal citação já ofereceria uma rica compreensão sobre o tema, mas é preciso ampliar a visão, especialmente no que tange a confiar ou não nas próprias impressões. Ao calarmos de modo sistemático sobre aquilo que deveríamos expressar, sinalizamos a nós mesmos uma espécie de incompetência emocional, como se não fôssemos capazes de externar o que sentimos em relação aos outros ou ao mundo que nos cerca.

Infelizmente, muitos de nós aprendem a viver sob o peso de crenças limitantes e mandatos invisíveis que bloqueiam a expressão autêntica. Por medo do conflito, do julgamento ou da rejeição, sufocam-se ideias, vontades e percepções. Há quem acredite que trocar a própria voz pela resignação seja um preço justo a pagar pelo acolhimento do outro e pela harmonização dos ambientes. Porém, trata-se de uma ilusão. A submissão jamais foi ponte para a aceitação genuína. O silêncio forçado não protege as relações; apenas ergue as paredes de uma prisão invisível onde o único custo real é o da autoanulação.

Vale reforçar, no quesito da somatização, que o corpo fala e se comunica por meio de dores, tensões e esgotamento quando a palavra lhe é negada.

Por outro lado, para enriquecer esta reflexão, é fundamental distinguirmos duas formas de silêncio:

  • O silêncio imposto: repressor e limitante, gerador de desarmonia, distúrbios emocionais e adoecimento físico.
  • O silêncio edificante: construtivo, que podemos chamar de silêncio da sabedoria. É um estado de introspecção que observa, acolhe e pondera; que constrói e expande respostas adequadas a cada situação ou obstáculo.
Em suma, é este segundo silêncio que gera equilíbrio. É ele que nos permite dizer "não" quando necessário ou "sim" quando aprazível, traduzindo-se em um ato genuíno de autocuidado, autonomia e libertação.

Notas:

[1] Joaquín Salvador Lavado Tejón (Quino) - 1932/2020. Pensador, desenhista e cartunista argentino, criador da personagem Mafalda.

[2] Alexander Lowen - 1910/2008. Médico e psicanalista norte-americano, criador da Análise Bioenergética. Autor de O Corpo em Depressão (Rio de Janeiro: Summus, 1983 (citação pg. 64).

Assista o vídeo sobre o assunto: https://www.youtube.com/watch?v=5rmt7Hj5M-A&t=931s



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Autor Willes S. Geaquinto   
Willes S. Geaquinto - Psicanalista,Psicoterapeuta, Consultor Motivacional. Trabalha com a Terapia do Renascimento promovendo o resgate da autoestima, o equilíbrio emocional e solução de transtornos, fobias,etc... Palestras e Cursos Motivacionais(relação de palestras no site). Contato: (35) 99917-6943 site: www.viverconsciente.com.b
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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