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Vítimas do próprio preconceito



Está para aparecer um assunto mais delicado do que este, o preconceito. Digo delicado porque existem assuntos com tantas divergências de opiniões que é impossível tocar neles sem provocar alguma reação. Falar sobre o preconceito então com quem se sente vítima do mesmo é mais delicado ainda, pois se olhar para certas feridas dói, imaginem ir além delas e perceber qual a nossa parte nisso, onde nós mesmos estamos nos ferindo ou perpetuando nossa própria ferida.
 
Comecei bem, né? Já dizendo que a responsabilidade por se sentir bem é nossa e não do preconceituoso e ignorante que nos agrediu. Mas isso tem uma explicação e sei que você vai me entender. Quando nos vitimizamos, estamos nos colocando em uma posição de impotência perante um poder externo superior à nossa vontade, como se não tivéssemos nenhuma escolha.
 
Às vezes passamos por situações onde conscientemente não escolhemos passar por elas, porém podemos escolher como lidar com elas uma vez que já aconteceu. E é neste ponto que nos vitimizamos e que entregamos nosso poder ao outro. O poder de nos machucar, nos frustrar, nos rejeitar. Nestes casos, a única maneira de recuperar nosso poder pessoal é reconhecendo que de alguma forma nós escolhemos aquilo, nós é que temos o poder de nos deixarmos tristes ou felizes, só nós podemos fazer isso. Reconheça então o que você está escolhendo acreditar e escolha outra coisa, você pode!
 
Tendo crescido com “problemas” de peso, sei bem o que é isso. Brincadeiras dos amigos que ferem por dentro, a família que nos trata como doentes, as máscaras que arrumamos para não demonstrar nossas mágoas e inseguranças, a preocupação com a aparência para disfarçar o corpo rejeitado. Existem tantas coisas por trás deste comportamento, que quanto mais consciência adquirimos menos acreditamos em preconceito. 
 
O preconceito me serviu como uma boa desculpa por muito tempo, dizer que a culpa é dos outros, da sociedade, da indústria da moda... Mas isso só depois de anos acreditando que o problema era comigo mesmo, afinal, eu tinha obrigação de ser magro, precisava ser magro para ser aceito, para arrumar namorada, emprego, ficar elegante e sei lá mais o quê. 
 
Não muito diferente, o mesmo ocorre com qualquer outra qualidade aparente como cor da pele, origem, sexo, tipo de cabelos, nível intelectual, financeiro, opção sexual ou qualquer outra. Todos crescemos bombardeados com modelos de perfeição utópicos, principalmente nos países religiosos onde todos precisam ser como Jesus, Moisés, Maomé, Buda etc. Somos desde cedo ensinados a buscar o errado em nós. “temos que ser educados”, dizem os mais velhos, pregando educação quando no fundo querem obediência. 
 
Digo “querem”, mas na verdade precisam de obediência. Porque o desobediente, aquele que é dono de suas escolhas e busca uma vida livre, é ameaçador para quem tem medo de olhar para si, para quem tem medo de se libertar de suas próprias amarras e do condicionamento disfarçado de educação que recebeu. Nada mais fácil então para o ignorante que está em uma posição de poder do que dizer aos outros o que é certo e como eles devem ser. Esta é a primeira estratégia do ego para sentir-se melhor a respeito de si mesmo, dizer que o problema é com o outro. 
 
Mas... e como para tudo existe um “mas”, nós também usamos isso quando culpamos o preconceito. 
 
E se na minha infância eu tivesse escolhido me aceitar e estar totalmente do meu próprio lado, amando o meu corpo do jeito que ele era? O que eu sentiria quando alguém criticasse minhas gorduras? Nada! Ou, no máximo, desejo que o outro tivesse tido uma educação melhor. Isso, é claro, se alguma crítica chegasse até mim, pois não havendo ressonância vibratória, eu atrairia mais daquilo que eu vibrava, ou seja, mais amor, mais aceitação. Quando percebi isso, percebi que o preconceito contra gordura era meu mesmo, do gordo. Haha 
 
Esta foi uma dura mas rica lição que aprendi, autoestima não é gostar de você mesmo quando você estiver rico, malhado e bem vestido, nem quando o outro gostar de você. Mas se aceitar incondicionalmente do jeito que você é, sem necessidade de aprovação alheia. 
 
Isso vale para qualquer seja sua queixa, pois é uma infantilidade e até arrogância esperar que todos gostem de nós, que todos irão com a nossa cara e que todos tem a obrigação de nos ajudar, nos dar o emprego que buscamos ou ser como esperamos que eles sejam. 
 
Os modelos de perfeição são puro marketing, estratégias de controle usadas por quem almeja algum tipo de poder. Da mesma forma, o preconceito é uma estratégia do ego para não precisar passar pela difícil provação de se amar, apesar de toda pretensão de ser diferente do que se é. 
 
A vida não é mais fácil para quem é homem, magro e de olho azul, também não é para quem é rico. As questões emocionais, mentais e espirituais afligem a todos. Não importa o quão elevados acreditamos que sejam nossos valores, são apenas julgamentos. O equilíbrio interno que todos almejamos virá do mesmo aprendizado. 
 
A falta de autoaceitação, de amor próprio e autoestima acarreta em inúmeros outros pontos de vista distorcidos, como a necessidade de agradar a todos, por exemplo. O medo de assumir-se, de dizer o que pensa, de seguir sua intuição, de ser criticado, rejeitado, abandonado... Enfim, todas as amarras que nos privam de nossa realização. Todas surgem da falta de amor, amor próprio em primeiro lugar. E é somente com o amor próprio que temos capacidade então de aceitar o próximo, pois estando seguros de ser quem somos, a liberdade alheia não nos agride. 
 
E destes comportamentos originados da falta de amor próprio surge outro, a exacerbação daquela qualidade que temos dificuldade de aceitar em nós. É como se precisássemos de uma força maior e contrária à primeira para superar a dificuldade que temos de nos aceitar, sem perceber que isto ainda é uma ferida sendo cutucada e uma reação raivosa escondendo a possibilidade de escolhermos algo diferente. Então agora vou criar o feriado do Dia do Gordo para me incluir na sociedade. Vou criar também a Parada Gorda para mostrar para os outros minha decisão de manter minha circunferência. Vou sair por aí dizendo que tenho orgulho de ser gordo e exigir uma vaga de estacionamento especial para mim. Opa, pera aí, quero também uma vaga na faculdade e isenção do IPVA. Haha. 
 
E nesta batalha do mal-amado com o obrigado a amar, ai daquele que disser que tem orgulho de ser hétero, homem, branco ou rico. Estes não têm direito, só mesmo os “oprimidos” é que ganham o aval para aprovarem-se diante dos olhos alheios, sem perceber que a opressão é, primeiramente, uma autoopressão. O preconceito, um autopreconceito. Qualquer privilégio pseudocompensador de um autojulgamento negativo sobre si não pode ser inclusivo, ao contrário, cria mais separação, pois afirma que existe uma diferença entre seres humanos, mesmo que Deus e a constituição digam o contrário. Isto diminui ainda mais os oprimidos a coitados, a fracos e sem o poder de escolher se amar. Privilégio é desforra e diferenciação, é exclusão. Inclusão é compreender que todos somos iguais, não importam as diferenças. 
 
Será que não estão percebendo que sempre tem o outro envolvido? Sempre tem a questão de ser aceito pelo outro, aprovado pelo outro? Será mesmo sempre o outro que determina quem somos? Por que ao invés disso não criamos o Dia do Ser Humano, para todos reconhecermos que somos iguais em essência e louvar as diferentes expressões do Espírito? Que tal o Dia da Criatividade, o Dia da Expressão, o Dia da Gentileza, o Dia da Gratidão, o Dia do Perdão? 
 
Não é o homem, branco, rico e estudado que faz sucesso ou é reconhecido, mas aquele(a) que acreditou em si, que não deu bola para a opinião negativa do outro e não perdeu tempo exigindo a aprovação de ninguém, mas dedicou-se a seguir seu próprio coração. Precisamos ir além das aparências e aprender a amar o humano que há em nós. Rotular menos e amar mais. 
 
Então, antes de dizermos que o outro é preconceituoso, vamos refletir se estamos nos amando do jeito que gostaríamos de ser amados, se nos aprovamos do jeito que buscamos a aprovação do próximo, se nos aceitamos do jeito que queremos que a sociedade nos aceite. Porque, passada a infância, a única pessoa que tem a obrigação de fazer algo para nós, somos nós mesmos. (E o governo hahaha) 
 
Namastê!
 
Rodrigo Durante.
 
Texto Revisado

Publicado dia 15/5/2018
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Autor: Rodrigo Durante   
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