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Guru - Cap. 19


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Hoje, quando o “Marcio” olha para o mundo na condição de educador, da pessoa que está lá para nortear, direcionar e ser um ideal para outras pessoas, lembro-me do comportamento do nosso Guru. Lembro das dificuldades que nós tínhamos o tempo inteiro em tentar perceber se não estávamos cometendo nenhum tipo de ofensa, fosse em forma de pensamento, de gestos bruscos ou através de olhares.

Hoje olho para trás e vejo como nós, os monges, tínhamos o cuidado de, por pior que achássemos que estivéssemos manifestando algo, sempre achávamos que não tínhamos consciência plena do que é estar na frente de um Guru. Ainda assim, tentávamos muito. Éramos silenciosos e gentis, tentávamos fazer as práticas que nos eram indicadas da forma mais plena e consciente, mantendo-nos diligentemente no presente. Hoje, quando olho para os jovens, quando olho para o mundo, vejo um contraste que justifica o entendimento do que é a Kalliyuga, a era negra.

A Kalliyuga, no entender desse monge, é um mergulho consciente na matéria, onde tanto o corpo –pois acreditamos agora que somos somente o próprio corpo e seus sentidos– quanto a mente, passaram a ser os gestores, os gurus da realidade presente. Precisamos estar juntos na forma de pensar, de agir e vestir, para que fiquemos em paz. Uma paz clara de ser percebida que é a paz da convivência. É a paz que vem de ser aceito, a paz de participar de um movimento social, de identificar-se com um grupo e fazer parte dele. No entender desse mesmo monge que vos fala, isso é Maia. Maia, porque todos os dias ficam iguais e temos a sensação de estarmos correndo ininterruptamente atrás de algo que nunca alcançaremos: a felicidade e a paz interior. Parece que a realização destas duas qualidades fica sempre adiada para o dia de amanhã.

Lá atrás, quando nós chegávamos à frente do nosso mestre, não era somente no ashram que essa reverência acontecia. No momento em que ele passava, todos nós abaixávamos a cabeça e a encostávamos no chão evitando trocar sequer um olhar para não incomodá-lo, porque sabíamos que ele sentia nossos corpos em seu próprio corpo e nossos pensamentos como se fossem seus. Não era só a nossa limpeza física que levávamos para o ashram, era também a nossa mente vazia. Vazia de qualquer tipo de problema.

O ato de pegar o ônibus, de estar presente naquele momento, era estar atento a cada pessoa ao redor. Nas nuanças de seu olhar, em seu tom de voz quando estava insegura, abraçada a si mesma pelos cantos, ou quando estava depressiva, seu corpo já não lhe importava mais e sua mente já não era mais resguardada. Era possível lermos tudo. Cada pessoa no ônibus, cada ser com o qual cruzávamos o olhar na rua, líamos porque sentíamos. Mas o exercício de ver o Guru, de sentir o Mestre, era a única meta. Tentar vê-lo nele mesmo e tentar ver todas as pessoas como professores, como receptáculos da vontade divina, como se fossem a própria manifestação do amor sem forma, incondicional, era o exercício supremo.

Quando chegava perto do ashram, lembro-me que descia do ônibus, caminhava até a esquina e prosseguia pela rua Toneleiros, uma rua sinuosa, e nesse caminhar, avistava o ashram todo branco, com a estátua do Sr. Krishna lá em cima e um arco de flores de primavera na entrada. O coração se aquietava, a respiração ficava cada vez mais tranquila, e só cabia-me emitir um sentimento de gratidão. Gratidão por poder chegar à frente de uma pessoa desprovida de pensamento, que não julga, que quase nunca fala porque, quando não há julgamento, não há pensamento e o silêncio prevalece. E aí chegamos a um estado de percepção em que o Mestre é o próprio silêncio e as fumaças negras, as egrégoras negativas, são situações barulhentas. Estas egrégoras alimentam-se de sons, palavras e gestos desarmônicos, dissonantes com a nossa própria natureza.

Quanto mais nos deixamos influenciar por essa dança, por essa performance que é provocada pela dissonância no mundo interno, mais a nossa mente é capturada e não conseguimos sair deste estado desarmônico. Ficar longe do Mestre por um dia era como se essas 24 horas fossem perdidas, da mesma forma em que, afastados uma semana, sentíamos uma dor impossível de descrever, e por fim, um mês de afastamento perdurava como se fosse uma eternidade. Mas, quando nós chegávamos efetivamente no ashram e olhávamos para o lugar onde ele se sentava, ali conseguíamos entender que um guru é um amador, é um servo. É uma pessoa que se dispõe a viver em paz o tempo todo.

Naquele momento, os monges, e eu mesmo, percebíamos a importância de se alimentar a cada segundo dos olhares, das palavras e dos gestos daquele homem. Alimentar-se daquele tipo de expressão era valioso porque no decorrer dos anos, eventualmente a lei da impermanência far-se-ia irremissível, privando-nos de sua presença corpórea, mas a verdade do Guru manifesta neste espaço-tempo, ficaria indelevelmente marcada na nossa memória.

Hoje, quando olho para cada pessoa, percebo universos de desarmonia, mas vejo um ponto de luz que ainda resta na maioria dos olhos, nem que seja a luz refletida do mundo externo. Eu olho para esta luz e vejo a essência do meu Guru e, como num passe de mágica, brota um sorriso de ambas as partes, uma cortesia nos gestos e então, de repente, o mundo fica leve porque quem tem o Mestre o tem para sempre. Quem o ama, o vê em todos os seres, em todas as ações, em todos os gestos. Nesse brilho lusco-fusco desses olhos, nos colocamos em um estado de devoção. E a maior devoção que se pode dar a qualquer ser humano é ouvir, compreender e amar, no sentido de servir e não querer absolutamente nada em troca.

Que a luz do universo esteja com todos vocês.

Nota: Guru: o dissipador de trevas - tradução do sânscrito
Capítulo 18




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