Amar é oferecer ao outro a chave de uma porta que nem eu sabia que existia.

Amar é oferecer ao outro a chave de uma porta que nem eu sabia que existia.
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Autor Raphael Mello

Assunto Psicologia
Atualizado em 3/30/2026 8:13:04 PM


Amar sempre nos coloca diante de uma espécie de risco.

Quando amo, não entrego apenas afeto. Entrego partes de mim que, até então, talvez nem eu soubesse nomear. Entrego minhas faltas, minhas fragilidades, meus pontos cegos. Entrego ao outro o acesso àquilo que em mim é mais desarmado. Amar é, de algum modo, consentir que o outro toque aquilo que sustenta minha própria fantasia de inteireza.

Por isso que o amor tem um saborzinho de angústia.

Porque, na experiência amorosa, eu me torno vulnerável ao desejo do outro. Amar é sempre se haver com o fato de que o outro não me pertence, não me garante, não me completa.
O outro permanece um enigma. E é justamente aí que o amor acontece: no intervalo.

Há algo de profundamente paradoxal nisso. Eu amo justamente aquele que poderia me ferir, porque amar é oferecer ao outro um lugar dentro de mim.
Um lugar de palavra, de afeto, de marca. O outro passa a ter o poder de me atravessar, de me desorganizar, de tocar algo do meu desamparo mais antigo.

Mas talvez o amor não esteja exatamente na confiança de que o outro não destruirá.

Talvez o amor esteja em sustentar que, mesmo podendo me afetar profundamente, o outro não precisa ser reduzido a uma ameaça.
Amar é suportar que o outro é um sujeito desejante, faltante, atravessado por seus próprios abismos.

No fundo, amar é aceitar que não há garantias.

É oferecer ao outro a chave de uma porta que nem eu sabia que existia, sabendo que toda abertura implica também um perigo.
Porque quem entra pode também sair. Quem acolhe pode também faltar. Quem promete pode também falhar.

E ainda assim, eu amo.



O amor é sobre a  coragem de permanecer diante da falta, sem exigir do outro a função impossível de me salvar de mim mesmo.


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Autor Raphael Mello   
Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades.
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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