Nenhuma relação elimina a insegurança fundamental de existir.

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Autor Raphael Mello

Assunto Psicologia
Atualizado em 5/12/2026 6:12:25 PM


Tem gente que não vive em estado de presença. Vive em estado de alerta.

Como se o corpo tivesse aprendido, cedo demais, que relaxar é perigoso.
E aí tudo vira monitoramento: o humor do outro, o risco das situações, os sinais mínimos de abandono, rejeição ou desastre.

Não é "drama".
É um jeito de sobreviver que, em algum momento da vida, provavelmente fez sentido.

Tem pessoas que cresceram entendendo que amor vinha junto com tensão. Que era preciso antecipar necessidades, evitar conflitos, dar conta de tudo, perceber o clima do ambiente antes que algo explodisse. E o problema é que o corpo aprende isso. Aprende tanto que, depois, mesmo quando a vida muda, ele continua funcionando como se ainda estivesse em perigo.

Então surge aquela sensação constante de que:
"se eu não fizer, algo terrível vai acontecer."

E talvez essa seja uma das frases mais silenciosamente organizadoras de muitos sofrimentos.

Porque ela não produz só ansiedade. Ela produz hipervigilância. Produz excesso de responsabilidade. Produz dificuldade de confiar. Produz cansaço. A pessoa nunca descansa de verdade, porque está sempre tentando impedir uma catástrofe que nem sabe exatamente qual é.

E aí acontece algo muito sofrido: a pessoa começa a confundir controle com segurança.

Só que controlar tudo tem um preço.
Quem tenta sustentar tudo quase nunca consegue simplesmente viver.

Porque, no fundo, existe uma tentativa incessante de evitar a falta, o abandono, o imprevisível. Como se fosse possível amar sem risco, se relacionar sem insegurança, viver sem a chance de perder. Mas quanto mais alguém tenta eliminar o risco, mais distante fica da própria experiência.

Porque amar alguém envolve risco.
Confiar envolve risco.
Descansar envolve risco.

Não existe relação sem falta, sem desencontro, sem momentos em que o outro escapa do nosso controle. Mas para algumas pessoas isso é vivido quase como ameaça de sobrevivência.

E talvez por isso tanta gente permaneça cansada mesmo quando "está tudo bem". O corpo não acredita. O corpo continua esperando a próxima explosão.

Uma das coisas mais difíceis na análise é descobrir que você já não precisa mais viver como se estivesse em guerra o tempo todo.

E mais difícil ainda: perceber que, sem a guerra. você talvez nem saiba ainda como habitar a paz.


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Autor Raphael Mello   
Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades.
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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