O chão que a gente pisa
Autor Raphael Mello
Assunto PsicologiaAtualizado em 6/15/2026 3:50:47 PM
Tem coisas da infância que a gente não consegue elaborar e que não vão embora nunca.
Elas só mudam de endereço. Vão morar no modo como a gente ama, no medo de não dar certo, na pressa em agradar, na nossa dificuldade em confiar.
Vão morar na escolha repetida por pessoas que nos ferem daquele jeito que a gente já conhece bem, um jeito estranhamente familiar.
Como bem escreveu Lya Luft, "a infância é o chão que a gente pisa a vida inteira". Ela não determina tudo, mas deixa marcas.
E a marca, quando não encontra palavra, costuma inventar uma cena. É por isso que certos relacionamentos não são apenas encontros.
São palcos onde o antigo retorna, pedindo escuta. É tipo um "Vale a Pena Ver de Novo" do inconsciente: o roteiro é exatamente o mesmo, só mudam os personagens.
Há quem tema o abandono e passe a vida tentando provar que merece ficar. Para outros, que aprenderam que o amor era instabilidade, o barulho vira sinônimo de afeto.
Existe ainda a exigência de ser perfeito para ser querido, o que acaba transformando o vínculo em pura cobrança.
E há, também, quem foi tão pouco visto que aceita qualquer migalha achando que é banquete.
É que o coração insiste naquilo que a boca não consegue dizer.
A gente repete não por castigo, mas por tentativa.
Repete na esperança de que, desta vez, a dor possa ser dita, chorada, compreendida. E, quem sabe, deixada para trás.
No encontro com o outro, aquilo que a gente conseguiu esconder bem quando estava sozinho simplesmente desaba.
Nenhuma relação sustenta a tarefa impossível de reparar uma infância inteira.
O que a gente chama de amor costuma ser a tentativa bonita e quase sempre dolorosa, de fazer um contorno poético ao redor da nossa própria ferida.
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146
@psicologo.raphaelmello
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Autor Raphael Mello Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Psicologia clicando aqui. |










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