Uma reflexão sobre os extremos, o ódio, a democracia e a urgência de reaprender a ser humano.

Uma reflexão sobre os extremos, o ódio, a democracia e a urgência de reaprender a ser humano.

Autor Eliana Guedes

Assunto Psicologia
Atualizado em 10/14/2026 3:48:41 PM



Vivemos tempos em que a divergência, que deveria ser uma expressão natural da liberdade de pensamento, parece ter se transformado em uma ameaça. Pensar diferente já não significa apenas discordar: significa, muitas vezes, tornar-se inimigo. O debate cede lugar à ofensa, o argumento é substituído pela desqualificação e a diferença, que poderia ampliar nossos horizontes, passa a justificar o afastamento, a hostilidade e, em situações extremas, o ódio.

Mas o que está acontecendo conosco?

Como chegamos a um ponto em que alguém pode deixar de reconhecer a humanidade de outra pessoa simplesmente porque ela pensa diferente? O que justifica tamanha crueldade em nome de convicções políticas? Em que momento defender uma ideia se tornou, para alguns, uma autorização para humilhar, desprezar e desejar o mal àqueles que defendem outra?

Talvez precisemos, antes de condenar o que estamos vendo, fazer algo mais difícil: tentar compreender o que está por trás desse fenômeno. Não para justificar a intolerância, mas para reconhecer suas raízes e encontrar caminhos para transformá-la.

Afinal, aquilo que não compreendemos tende a nos dominar. E aquilo que não somos capazes de reconhecer em nós mesmos pode acabar se manifestando nas nossas relações com o mundo.

O medo de quem pensa diferente

A política, em sua essência democrática, deveria ser o espaço onde diferentes visões de mundo se encontram, se confrontam, se questionam e, eventualmente, se transformam. A democracia não exige que pensemos da mesma maneira. Ao contrário, pressupõe que possamos pensar de maneiras distintas e, ainda assim, reconhecer uns nos outros o direito de existir, de falar e de participar da construção da sociedade.

Discordar faz parte da vida democrática. O problema começa quando deixamos de discutir ideias e passamos a atacar pessoas; quando já não nos interessa compreender os argumentos do outro, mas apenas derrotá-lo, silenciá-lo ou provar que ele não merece ser ouvido.

Por que isso acontece?

Talvez porque, para muitas pessoas, determinadas posições políticas tenham deixado de representar apenas escolhas ou opiniões e passado a ocupar um lugar central na própria identidade. Nesse contexto, questionar uma ideia pode ser percebido como questionar o valor, a inteligência, a moral ou a dignidade de quem a sustenta.

A divergência deixa de ser intelectual e passa a ser vivida como uma ameaça pessoal.

Quando isso acontece, o outro já não é alguém com quem posso discordar. Ele se torna alguém contra quem preciso me defender.

E o medo, quando não é reconhecido e elaborado, pode se transformar em agressividade. A insegurança pode se disfarçar de certeza absoluta. A necessidade de pertencer pode se converter em obediência ao grupo. E o desejo de estar certo pode se tornar mais importante do que a disposição de buscar a verdade.

É assim que, pouco a pouco, a política deixa de ser um campo de ideias e passa a funcionar como um campo de batalhas emocionais.

A sombra que projetamos no outro

A psicologia profunda de Carl Gustav Jung nos oferece uma chave importante para refletir sobre esse cenário: o conceito de sombra.

A sombra representa, simbolicamente, aspectos de nós mesmos que temos dificuldade de reconhecer, aceitar ou integrar à consciência. São características, desejos, medos, contradições e fragilidades que preferimos não enxergar em nossa própria personalidade.

O problema é que aquilo que não reconhecemos em nós não desaparece. Muitas vezes, projetamos no outro aquilo que nos incomoda, nos ameaça ou nos causa desconforto.

No campo político, essa dinâmica pode adquirir proporções coletivas.

Passamos a enxergar o grupo oposto como a personificação de tudo aquilo que consideramos ruim: ignorância, corrupção, maldade, egoísmo, ameaça ou perversidade. Em contrapartida, idealizamos o grupo ao qual pertencemos, como se nele existissem apenas virtudes, boas intenções e pessoas moralmente superiores.

O mundo se divide, então, entre os que consideramos bons e os que julgamos maus. Nós nos colocamos do lado da luz; o outro é condenado a representar a escuridão.

Mas será que a realidade humana é tão simples?

Nenhum grupo é composto exclusivamente por virtudes, assim como nenhum ser humano pode ser reduzido a uma única opinião. Existem pessoas bem-intencionadas que pensam de maneiras diferentes, assim como existem atitudes condenáveis em diferentes posições e grupos.

Reconhecer isso não significa relativizar a responsabilidade por atos concretos, nem aceitar injustiças em nome de uma falsa neutralidade. Significa compreender que a crítica a uma conduta não precisa se transformar na negação da humanidade de quem a praticou.

Talvez uma das maiores dificuldades do nosso tempo seja justamente esta: reconhecer a complexidade humana sem abrir mão de nossos princípios.

É mais fácil encontrar um culpado do que investigar as causas de um problema. É mais confortável acreditar que todo o mal está no outro do que admitir que a capacidade para a intolerância, a vaidade, o preconceito e a crueldade também faz parte das possibilidades humanas.

A pergunta, portanto, não deveria ser apenas: o que há de errado com eles?

Deveríamos também perguntar: o que acontece dentro de nós quando encontramos alguém que pensa de maneira radicalmente diferente?

O que essa diferença desperta? Medo? Raiva? Insegurança? A sensação de que nossos valores estão ameaçados?

O autoconhecimento começa quando deixamos de olhar exclusivamente para o lado de fora e temos coragem de investigar o que se movimenta dentro de nós.

Quando o ódio nos rouba a humanidade

Há algo particularmente preocupante quando a discordância deixa de reconhecer o outro como um ser humano digno de respeito.

A desumanização é um processo perigoso porque reduz a complexidade de uma pessoa a um rótulo. O outro deixa de ter uma história, uma família, experiências, dores, esperanças e contradições. Passa a ser apenas o adversário, o inimigo, o problema.

E, quando alguém é reduzido a uma categoria, torna-se mais fácil ignorar seu sofrimento, ridicularizar sua existência e tratar sua dignidade como algo dispensável.

O ódio costuma se alimentar dessa simplificação. Ele precisa que o outro seja percebido como inteiramente mau, porque a existência de nuances torna mais difícil sustentar a hostilidade absoluta.

Mas há uma contradição profunda nisso tudo: ao combater aquilo que consideramos desumano, podemos começar a agir de maneira desumana, acreditando que nossos objetivos justificam qualquer comportamento.

É possível defender a justiça praticando injustiças? Defender a liberdade tentando silenciar todas as vozes discordantes? Defender a dignidade humana negando dignidade a quem não compartilha das nossas convicções?

Essas perguntas nos colocam diante de um espelho incômodo.

Porque os valores que afirmamos defender não são demonstrados apenas quando estamos entre pessoas que concordam conosco. Eles se revelam, sobretudo, na maneira como tratamos aqueles que nos contrariam.

Isso não significa tolerar ameaças, discriminação, violência ou violações de direitos. Significa que podemos estabelecer limites firmes, responsabilizar condutas e combater ideias prejudiciais sem transformar o desprezo em princípio de convivência.

A firmeza não exige crueldade. A convicção não exige arrogância. E a defesa de princípios não precisa nos privar da capacidade de reconhecer a humanidade alheia.

As redes sociais e a transformação da indignação em espetáculo

Também precisamos olhar para o ambiente em que essas disputas acontecem.

Nas redes sociais, opiniões circulam em velocidade extraordinária, enquanto a reflexão exige tempo. Mensagens curtas disputam espaço com análises complexas; imagens e frases de impacto podem despertar emoções antes que tenhamos a oportunidade de verificar informações ou compreender contextos.

Conteúdos que provocam indignação, medo ou hostilidade podem receber grande atenção. Algoritmos de recomendação e dinâmicas de engajamento podem ampliar mensagens polarizadoras, embora seus efeitos variem conforme a plataforma, o contexto e o comportamento dos usuários.

Nesse ambiente, a reação impulsiva frequentemente ganha mais visibilidade do que a ponderação.

Compartilhamos antes de verificar. Julgamos antes de compreender. Respondemos antes de refletir.

E, pouco a pouco, podemos confundir a intensidade de uma reação com a profundidade de um pensamento.

A indignação tem seu lugar. Ela pode despertar consciências diante de injustiças e mobilizar transformações necessárias. O problema surge quando se torna um estado permanente, uma identidade e até uma forma de pertencimento.

Há grupos que se aproximam não apenas pelo que desejam construir, mas também por aquilo que odeiam em comum.

Quando isso acontece, o inimigo passa a ser necessário para manter a coesão do grupo. A hostilidade oferece uma sensação de unidade, ainda que essa unidade dependa da continuidade do conflito.

E a pergunta que fica é inquietante: se a nossa identidade precisa da existência de alguém a quem odiar, quem seremos quando deixarmos de odiar?

Talvez precisemos reaprender a habitar o silêncio, a suspender temporariamente nossos julgamentos e a fazer algo que parece cada vez mais raro: pensar antes de reagir.

Nem toda provocação merece uma resposta. Nem toda opinião contrária é um ataque. Nem toda discordância precisa terminar com alguém derrotado.

Às vezes, a atitude mais corajosa não é falar mais alto, mas recusar-se a participar da escalada do ódio.

O paradoxo dos extremos: certezas absolutas em um mundo complexo

Os extremos políticos não são idênticos em suas ideias, propostas, práticas ou consequências. Cada posição precisa ser compreendida a partir de suas características concretas, de seu contexto e de suas ações.

Entretanto, a radicalização pode assumir uma dinâmica semelhante em diferentes ambientes: a dificuldade de reconhecer limites, contradições e legitimidade na existência do outro.

Quando uma pessoa acredita possuir o monopólio da verdade, deixa de considerar a possibilidade de estar equivocada. Quando acredita que somente seu grupo representa o bem, passa a enxergar a oposição como uma ameaça que precisa ser eliminada do debate.

O pensamento crítico é substituído pela fidelidade incondicional. A reflexão cede espaço à repetição. A complexidade é reduzida a respostas simples para problemas difíceis.

Mas a vida humana não cabe inteiramente em slogans, assim como a sociedade não pode ser compreendida apenas por meio de explicações que dividem o mundo entre culpados e inocentes.

Precisamos de convicções, mas também de humildade intelectual. Precisamos de princípios, mas também da disposição para rever interpretações. Precisamos defender nossas ideias sem nos tornarmos prisioneiros delas.

Mudar de opinião diante de novos argumentos não é necessariamente sinal de fraqueza. Pode ser sinal de maturidade.

Reconhecer que o outro tem um argumento válido não significa abandonar nossos valores. Significa admitir que a realidade pode ser maior do que a nossa compreensão atual dela.

Talvez a verdadeira liberdade de pensamento não esteja apenas no direito de expressar nossas opiniões, mas também na capacidade de questioná-las.

Tolerar não é concordar: é reconhecer limites e direitos

Em tempos de intolerância, a palavra tolerância pode parecer insuficiente. Afinal, há situações em que não basta suportar passivamente a diferença; é necessário defender direitos, enfrentar preconceitos e impedir que a liberdade de alguns seja utilizada para retirar a liberdade de outros.

Por isso, tolerar não significa aceitar tudo, silenciar diante de injustiças ou fingir que todas as posições produzem os mesmos efeitos.

Significa compreender que a convivência democrática exige limites, direitos, responsabilidades e respeito à dignidade humana.

Podemos discordar profundamente de uma ideia e, ainda assim, defender o direito de seu interlocutor participar do debate, dentro dos limites legais e democráticos. Podemos contestar uma proposta com firmeza sem recorrer à humilhação. Podemos reconhecer erros e exigir responsabilização sem reduzir uma pessoa inteira ao seu pior comportamento.

O diálogo verdadeiro não é uma tentativa de obrigar o outro a pensar como nós. É a disposição de construir um espaço em que argumentos possam ser apresentados, questionados e avaliados.

Dialogar exige algo que o orgulho nem sempre permite: admitir que não sabemos tudo.

Exige escutar sem preparar imediatamente uma resposta. Perguntar sem a intenção oculta de ridicularizar. Discordar sem transformar o interlocutor em inimigo.

E exige, sobretudo, compreender que o diálogo não é garantia de consenso.

Há conflitos legítimos, diferenças profundas e situações em que não será possível chegar a um acordo. Ainda assim, podemos procurar soluções institucionais, estabelecer limites e conviver sem recorrer à violência ou à desumanização.

A democracia não elimina os conflitos. Ela oferece caminhos para que os conflitos possam ser enfrentados sem que a força, o medo ou a exclusão se tornem os únicos instrumentos de decisão.

Talvez essa seja uma das suas maiores conquistas - e uma das mais difíceis de preservar.

E se o caos também nos trouxer uma oportunidade de transformação?

Chegamos, então, à questão que considero mais importante: o que podemos fazer com tudo isso?

Compreender as raízes do conflito é necessário, mas não suficiente. O conhecimento precisa se transformar em consciência, e a consciência precisa encontrar expressão em nossas escolhas cotidianas.

Na filosofia, na psicologia e em diferentes tradições de pensamento, encontramos a ideia de que as crises podem revelar aspectos da realidade que, em períodos de estabilidade, permaneciam ocultos.

O caos rompe estruturas, expõe contradições e coloca em evidência aquilo que já não pode ser sustentado da mesma maneira. Isso não significa que toda crise produza necessariamente algo melhor, nem que o sofrimento seja indispensável para o crescimento. Significa que, diante de uma crise, existe a possibilidade de escolher entre repetir padrões destrutivos e construir respostas mais conscientes.

É aqui que a ideia de que depois do caos virá a ordem ganha um sentido mais profundo.

Não como uma promessa de que tudo se resolverá naturalmente. Não como uma garantia de que a história, por si só, corrigirá nossos erros. Mas como um convite à responsabilidade.

A ordem que desejamos não surgirá simplesmente porque o caos atingiu seu limite. Ela dependerá daquilo que formos capazes de aprender, transformar e reconstruir.

Se a intolerância nos revela nossa dificuldade de lidar com a diferença, precisamos desenvolver a capacidade de conviver com ela.

Se o ódio expõe nossas feridas coletivas, precisamos compreender como o medo, a insegurança, o ressentimento e a necessidade de pertencimento podem ser manipulados ou convertidos em hostilidade.

Se a desumanização se torna frequente, precisamos recuperar a capacidade de enxergar pessoas para além dos rótulos.

E, se a democracia se fragiliza quando o adversário passa a ser tratado como inimigo absoluto, precisamos fortalecer a cultura democrática não apenas nas instituições, mas também em nossas relações diárias.

A transformação começa em grandes decisões políticas, mas não se limita a elas. Começa também na conversa familiar que não precisa terminar em rompimento, no grupo de mensagens em que escolhemos não compartilhar uma mentira, na discussão em que conseguimos escutar antes de responder e na coragem de reconhecer um erro sem sentir que toda a nossa identidade foi destruída.

São gestos pequenos diante da dimensão dos problemas. Mas uma cultura de convivência também se constrói por meio de comportamentos repetidos.

Não podemos controlar todas as forças que atravessam a sociedade. Podemos, contudo, assumir responsabilidade pela maneira como participamos delas.
A individuação coletiva: tornar-se consciente também é uma tarefa social.

Sob uma perspectiva junguiana, podemos ampliar essa reflexão e pensar na individuação: o processo pelo qual uma pessoa busca integrar aspectos conscientes e inconscientes de si mesma, reconhecendo suas contradições e desenvolvendo uma relação mais madura com a própria totalidade.

Embora a individuação seja, propriamente, um conceito relacionado ao desenvolvimento psíquico individual, podemos utilizá-la como inspiração para pensar os desafios da vida coletiva.

Uma sociedade também precisa olhar para suas contradições.

Precisa reconhecer suas feridas, seus preconceitos, seus mecanismos de exclusão, seus medos e suas ilusões de superioridade. Precisa compreender que nenhuma comunidade se torna verdadeiramente madura apenas proclamando seus ideais; ela amadurece quando confronta a distância entre aquilo que afirma defender e aquilo que efetivamente pratica.

Talvez estejamos diante de um convite coletivo à ampliação da consciência.

Um convite para perceber que a nossa visão de mundo, por mais consistente que pareça, continua sendo uma perspectiva humana, limitada e sujeita a revisões.

Um convite para reconhecer a sombra sem permitir que ela governe nossas ações.

Um convite para abandonar a fantasia de pureza moral, segundo a qual o erro está sempre no outro, e assumir a responsabilidade pelas nossas próprias escolhas.

A maturidade não consiste em eliminar todos os conflitos internos, mas em desenvolver a capacidade de reconhecê-los e lidar com eles sem precisar projetá-los continuamente sobre alguém.

Talvez uma sociedade mais consciente não seja aquela em que todos pensam da mesma forma, mas aquela em que as pessoas conseguem sustentar diferenças sem transformar a convivência em uma guerra permanente.

A evolução da consciência não nos torna infalíveis. Torna-nos mais capazes de reconhecer nossos limites, reparar nossos erros e escolher respostas menos destrutivas.

E essa talvez seja uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo.

Depois do caos, não basta esperar: é preciso reconstruir

Gosto da imagem de que, depois do caos, pode surgir uma nova ordem. Ela nos oferece esperança, mas também nos obriga a fazer uma pergunta: que ordem desejamos construir?

Uma ordem baseada no silêncio dos discordantes ou na possibilidade de todos participarem? Na submissão ao pensamento dominante ou na liberdade responsável? Na vitória de um grupo sobre todos os demais ou na construção de instituições capazes de acolher diferenças, estabelecer limites e proteger direitos?

Porque nem toda ordem representa evolução. Há ordens sustentadas pelo medo, pela opressão e pela supressão das diferenças.

A ordem que merece ser construída é aquela que nasce de uma consciência mais ampla, de relações mais responsáveis e de instituições que permitam enfrentar conflitos sem destruir as condições da convivência.

Talvez o caos que testemunhamos nos coloque diante de uma escolha: aprofundar a divisão ou aprender com ela.

Podemos continuar alimentando a necessidade de encontrar culpados, reafirmando certezas e colecionando inimigos. Ou podemos utilizar este momento para investigar as raízes da intolerância, fortalecer o pensamento crítico e recuperar a capacidade de conversar sobre aquilo que nos divide.

Não se trata de ingenuidade. Existem interesses, disputas de poder, injustiças reais e comportamentos que precisam ser confrontados. A esperança não exige fechar os olhos para a realidade; exige acreditar que nossas respostas à realidade não estão inteiramente determinadas por ela.

O futuro não está garantido. Ele também é construído pelas escolhas que fazemos no presente.

E talvez a grande lição deste tempo seja compreender que não precisamos concordar para coexistir, não precisamos pensar da mesma maneira para reconhecer direitos e não precisamos odiar alguém para defender aquilo em que acreditamos.

A diferença não precisa ser uma ameaça. Pode ser uma oportunidade de ampliar nossa compreensão do mundo.

O adversário político não precisa se tornar um inimigo existencial. Pode continuar sendo alguém cujas ideias questionamos, cujas propostas contestamos e cujas ações avaliamos criticamente, sem negar sua condição humana.

E a democracia não precisa ser o lugar onde todos terminam pensando igual. Ela precisa ser o lugar onde ninguém seja obrigado a abandonar sua dignidade para que o outro possa exercer a própria liberdade.

Talvez, no fim, a grande transformação que esperamos do mundo comece por uma transformação na maneira como nos relacionamos com ele.

Que possamos aprender a discordar sem destruir, argumentar sem humilhar, defender sem odiar e reconhecer que a consciência humana se expande não quando vence todas as discussões, mas quando se torna capaz de enxergar além das próprias certezas.

Depois do caos, a ordem é uma possibilidade. Depois da intolerância, o diálogo é uma escolha. Depois do ódio, a reconstrução é um trabalho.

E talvez a verdadeira evolução não esteja em descobrir como eliminar aqueles que pensam diferente de nós, mas em desenvolver a maturidade necessária para que a diferença deixe de ser motivo de desumanização.

Porque, antes de sermos adversários políticos, somos seres humanos compartilhando o mesmo mundo, a mesma vulnerabilidade e um futuro cuja construção depende, também, da maneira como escolhemos tratar uns aos outros.

Talvez o nosso maior desafio não seja descobrir quem está certo em todas as disputas, mas impedir que, na necessidade de provar que estamos certos, nos esqueçamos daquilo que nos torna humanos.


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Autor Eliana Guedes   
Realizo Atendimentos Online - Cel./WhatsApp: 9.9365-3322. Com Pós Graduação em: Acupuntura, Psicologia Integrativa Transpessoal, Saúde Mental e Gerontologia, Psicologia Hospitalar, Gestão Pública e Neuropsicologia. Site: https://www.elianaguedes.com.br/ Instagram: @eliana.guedes.psicologa
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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