Home >
Corpo e Mente
Sociedade do Cansaço ou da Preguiça?
por Willes S. Geaquinto
Sociedade do Cansaço é um livro tese do pensador sul-coreano Byung-Chul Han, muito em voga em tempos de internet. A princípio, não discordo da tese; por outro lado, vejo que vivemos um tempo de muitos paradoxos, e um deles que trago para a reflexão é a relação entre a preguiça e o cansaço. Para alguns, a preguiça não combina com o cansaço, mas, a meu ver, elas se comunicam — mesmo que seja no campo emocional, onde está a raiz do problema. Ninguém passa impune pela preguiça, até porque ela contraria a dinâmica da vida em evolução, que é movimento.
Por outro lado, a razão do cansaço a que se refere o pensador citado pode estar relacionada à aceleração da vida que hoje experimentamos. Ou seja: estamos cada vez mais imediatistas ao mesmo tempo em que tudo anda tão líquido, como diria Zygmunt Bauman, o sociólogo e filósofo polonês, autor de
Modernidade Líquida.
Indo um pouco além no paradoxo citado, podemos dizer que ele toca exatamente no nó cego da subjetividade contemporânea: a preguiça e o cansaço, além de se comunicarem, às vezes são duas faces da mesma moeda emocional e existencial. O senso comum tende a ver a preguiça como a ausência de ação e o cansaço como o resultado do excesso de ação. Porém, na dinâmica hiperativa e fluida das obras dos dois pensadores citados, essas dimensões se fundem, trazendo à tona elementos que devem ser observados:
-
A Preguiça como Esgotamento Psíquico: A "preguiça" contemporânea raramente é o repouso contemplativo ou o ócio criativo. É, com frequência, a paralisia diante do excesso. Quando o indivíduo é cobrado a ser infinitamente produtivo, autogerenciável e presente, a recusa ou a incapacidade de agir manifesta-se como preguiça — mas uma preguiça carregada de culpa e desgaste mental.
-
O Cansaço sem Movimento Físico: O cansaço da "sociedade do desempenho" não vem apenas do esforço muscular ou do trabalho braçal, mas da hipervigilância, do excesso de estímulos digitais e da busca ininterrupta por validação. É possível passar o dia estático, estagnado em um estado de inércia, e terminá-lo exausto.
Se aprofundarmos um pouco mais a análise sobre as teses de Han e Bauman no contexto desta reflexão, perceberemos que, ao conectarmos a aceleração e o imediatismo do primeiro à volatilidade das relações e das estruturas do segundo, emerge um cenário em que o indivíduo tenta continuamente se equilibrar sobre certezas efêmeras.
Daí surgem dois polos que também devemos considerar:
-
Autoexploração e autocobrança: Han argumenta que a passagem da sociedade da disciplina (do "não deve") para a sociedade do desempenho (do "pode tudo") transformou o sujeito em carrasco de si mesmo. A pressão para estar sempre em movimento, evoluindo e produzindo, gera uma sobrecarga contínua.
-
Inércia Reflexa: Diante da fluidez das coisas, em que nada dura o suficiente para se consolidar, o esforço contínuo perde o sentido prático. A "preguiça" surge, então, como uma forma defensiva de inércia — um freio de emergência involuntário do psiquismo —, mas que, por contrariar o imperativo de movimento da vida, acaba gerando mais sofrimento, desequilíbrio e desconfortos emocionais e físicos.
Portanto, mais do que escolhas opostas, vivemos em uma sociedade do cansaço que se manifesta frequentemente como uma sensação angustiante de preguiça. A inércia deixa de ser descanso e passa a ser mais uma fonte de esgotamento. Trata-se de uma verdadeira crise de saúde mental coletiva, na qual tentamos curar o cansaço do corpo, mas adoecemos a mente por não conseguir desligar do imperativo da produtividade. O grande desafio contemporâneo não é fazer mais, mas conseguir preservar a sanidade em um mundo que exige tudo de nós o tempo todo.
Texto Revisado
Autor: Willes S. Geaquinto
Willes S. Geaquinto - Psicanalista,Psicoterapeuta, Consultor Motivacional.
Trabalha com a Terapia do Renascimento promovendo o resgate da autoestima, o equilíbrio emocional e solução de transtornos, fobias,etc...
Palestras e Cursos Motivacionais(relação de palestras no site).
Contato: (35) 99917-6943
site: www.viverconsciente.com.b
E-mail: [email protected]
Visite o Site do autor e leia mais artigos.
|
Atualizado em 9/14/2026
© Copyright - Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução dos textos aqui contidos sem a prévia autorização dos autores.