Em A Metamorfose, Franz Kafka transforma uma pergunta sobre trabalho e produtividade numa pergunta sobre valor humano: se você deixasse de ser útil amanhã, ainda se sentiria digno de amor?
Gregor Samsa acorda transformado em inseto e, antes mesmo de compreender o próprio corpo, preocupa-se com o atraso, o chefe, o trabalho e as dívidas da família. Sua identidade já estava organizada em torno de uma função, produzir, sustentar, servir.
Quando deixa de funcionar, começa também a desaparecer aos olhos dos outros e aos próprios olhos.
É aí que Kafka toca numa vergonha que conhecemos muito bem, a vergonha de não produzir, não render, não corresponder, tornar-se um peso.
Talvez a pergunta mais incômoda de A Metamorfose continue sendo esta: quanto do nosso valor pessoal ainda depende daquilo que conseguimos entregar?
Carolina Michelini | Clube de Leitura Ler-Se