Sobre dar o nome certo às coisas...

Sobre dar o nome certo às coisas...

Autor Rodolfo Fonseca

Assunto Autoconhecimento
Atualizado em 05/04/2026 22:36:27


Existe uma frase antiga, repetida muitas vezes sem que se compreenda sua profundidade real, a verdade vos libertará. Ela costuma ser interpretada como algo quase espiritual ou abstrato, mas existe uma camada mais prática e direta que raramente é explorada, a verdade começa na forma como você nomeia as coisas.
Antes de qualquer grande despertar ou transformação, existe um passo simples e ao mesmo tempo difícil, parar de distorcer a realidade com as palavras.

A linguagem não é apenas um meio de comunicação, ela é uma ferramenta de percepção. Você não apenas descreve o mundo com palavras, você enxerga o mundo através delas. Quando o nome que você usa para algo está errado, suavizado ou distorcido, a sua própria capacidade de entender e reagir àquilo também se torna distorcida. E é aqui que começa um dos maiores autoenganos humanos, o uso constante de eufemismos para tornar a realidade mais confortável do que ela realmente é.
Na prática, isso acontece o tempo todo. Situações difíceis recebem nomes mais suaves, comportamentos questionáveis são maquiados por termos neutros, decisões erradas são reinterpretadas para parecerem aceitáveis. O problema é que, ao fazer isso, você não está apenas mudando a forma de falar, está alterando a forma de perceber. E quando a percepção é comprometida, a ação também será.

Esse mecanismo não é novo, ele é estrutural. Um dos pensamentos mais antigos e profundos sobre isso vem da filosofia chinesa, com Confúcio e o conceito de "retificação dos nomes". Quando perguntaram a ele o que faria primeiro ao governar um estado, sua resposta foi direta e surpreendente, retificar os nomes. Para ele, se os nomes não estão corretos, a linguagem deixa de refletir a realidade, e quando a linguagem falha, toda a ordem prática da vida começa a se desorganizar.
Não é apenas um problema de comunicação, é um problema de estrutura da realidade vivida!

A lógica é simples, mas implacável: Se alguém ocupa um papel, mas não age de acordo com ele, o nome perde o sentido. Se as palavras deixam de corresponder à essência das coisas, elas deixam de orientar o comportamento. E quando isso acontece em escala coletiva, o resultado é confusão, conflito e desordem. Confúcio já percebia que a corrupção da linguagem precede a corrupção da própria vida.
Essa discussão atravessou séculos e apareceu também na filosofia ocidental. Durante a escolástica medieval, surgiu um debate fundamental sobre a natureza dos nomes. De um lado, o realismo, defendido por pensadores como Aristóteles e Tomás de Aquino, afirmava que os nomes correspondem a essências reais. Nomear corretamente algo é reconhecer o que aquilo realmente é.
Do outro lado, o nominalismo, associado a Guilherme de Ockham, defendia que os nomes são apenas convenções, rótulos criados sem uma ligação necessária com uma essência objetiva.
Essa diferença não é apenas teórica, ela muda completamente a forma de viver. Se você acredita que as palavras são apenas convenções, então qualquer coisa pode ser reinterpretada, ajustada, suavizada. Mas se você parte do princípio de que existe uma correspondência entre nome e realidade, então usar a palavra errada não é apenas um detalhe, é uma forma de cegueira.
E talvez seja justamente isso que mais acontece no mundo moderno, uma espécie de cegueira voluntária mediada pela linguagem.

No século XX, essa ideia apareceu de forma brutal na obra 1984, de George Orwell, onde a criação da Novilíngua tinha um objetivo claro, impedir que as pessoas pensassem corretamente. Ao eliminar ou distorcer palavras, o regime não apenas controlava o que era dito, mas o que podia ser pensado. Sem palavras para descrever liberdade, rebelião ou verdade, esses conceitos começam a desaparecer da própria mente.

Sempre que você evita dar o nome correto a algo que vive, sente ou faz, você reduz sua capacidade de compreender aquilo. E quando não compreende, não consegue transformar.
No campo econômico, por exemplo, essa discussão se torna ainda mais evidente. Termos técnicos ou aparentemente neutros muitas vezes escondem processos concretos e duros. Quando se usa uma palavra que dilui a percepção da causa ou da responsabilidade, cria-se uma distância entre o fenômeno e a sua compreensão real. E essa distância protege a ilusão.

Mas o ponto mais importante aqui não é político, econômico ou social. É interno.
No nível do autoconhecimento, dar o nome certo às coisas é um ato de coragem.
Significa parar de suavizar aquilo que precisa ser encarado.
Significa reconhecer padrões pelo que são, não pelo que você gostaria que fossem.
Significa abandonar narrativas que te protegem, mas que também te aprisionam.

Quantas vezes você chama de "fase" algo que é um padrão recorrente?
Quantas vezes chama de "erro" algo que já virou hábito?
Quantas vezes chama de "adaptação" aquilo que, no fundo, é medo?
Cada pequeno desvio na linguagem cria um pequeno desvio na percepção, e ao longo do tempo esses desvios constroem uma realidade inteira baseada em interpretações imprecisas.

Dar o nome certo não resolve tudo, mas muda completamente o ponto de partida, pois quando algo é visto com clareza, ele deixa de ser difuso e passa a ser possível lidar com ele de forma real.

A verdade, nesse sentido, não é apenas algo que liberta no final do processo, ela é o próprio início da libertação!
Ela começa de forma simples, quase banal, mas profundamente transformadora, na escolha honesta das palavras que você usa para descrever a sua própria vida.

No fim, o maior desafio não é descobrir novas verdades, mas parar de fugir das que já estão diante de você, escondidas atrás de nomes que você aprendeu a usar para não precisar enxergar.

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