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Psicossomática X: A preocupação excessiva com doenças

Psicossomática X: A preocupação excessiva com doenças

por Rosemeire Zago

Vamos entender um pouco mais o que acontece com as pessoas que estão constantemente buscando um diagnóstico numa peregrinação constante em consultórios médicos, e os exames realizados não confirmam a preocupação. Nessa busca por um diagnóstico ou por alguém que confirme suas suspeitas, são alvos fáceis de "charlatões", acreditando em cada receita milagrosa que prometem.
Quando há:

- preocupação com o medo de ter uma doença grave;
- interpretação muitas vezes errônea de um ou mais sintomas somáticos;
- preocupação persistente, apesar de exames e uma avaliação médica não confirmarem sua suspeita;
- preocupação com a doença temida se torna uma característica central da pessoa;

Nesses casos, damos o nome de hipocondria, que se estende um pouco mais do termo utilizado popularmente em quem toma muitos remédios. A hipocondria pode iniciar em qualquer idade, mas surge com maior freqüência em adultos, tanto em homens como em mulheres. Preocupações com a saúde em pessoas idosas tende mais a ser realista e dificilmente constitui hipocondria.
Podemos perceber no hipocondríaco um desespero permanente em descobrir a causa pelo que sente, os sintomas aparecem e desaparecem com irregularidade, transferindo-se de uma parte para outro do corpo. Para eles suas dores são perfeitamente reais, e ocupam a maior parte do seu tempo, chegando muitas vezes a incapacitá-lo para a vida normal e seus afazeres. É muito comum se aborrecerem com os profissionais ou não acreditarem em estar obtendo os cuidados médicos adequados, quando estes não encontram nada que justifique seus sintomas, pois os exames não confirmam suas suspeitas, e são resistentes à psicoterapia quando são encaminhados para tal tratamento. Quando isso ocorre, buscam outro profissional "mais capacitado".

Podemos perceber uma série de etapas que se seguem nessa busca que se inicia a cada tratamento:

- Os pedidos do paciente para que lhe seja aplicado um tratamento, defronta-se com a decisão do médico de proceder com exames, testes e remédios, procurando evitar admitir uma possível causa orgânica;
- Após cada tentativa o paciente sente um certo alívio, seguido de piora, resultando novamente em nenhuma alteração de seus sintomas;
- Paciente e médico ficam frustrados e o ciclo recomeça novamente, agora com outro profissional.

Inconscientemente, acredita que seu sofrimento físico pode ser uma proteção contra perigos mais ameaçadores, e assim sente que pode ser perigoso curar-se, ou seja, por mais que diga que deseje se curar, inconscientemente não deseja. Isso acontece porque a maioria dos sintomas psicossomáticos proporciona um benefício, inconsciente, primário, que é o alívio para sua angústia ou culpa. Para algumas pessoas é aceitável terem sintomas físicos, mas não aceitam que tenham conflitos emocionais. O sofrimento físico nos dias de hoje ainda desperta a possibilidade de ajuda, enquanto o emocional é desprezado ou não considerado digno de atenção. Muitas vezes recorrem à doença para compensar a falta de amor que sentem. Podem desejar ainda punir ou induzir a culpa nas pessoas que em seu modo de pensar o levaram a ter tais sintomas/doenças. Todo esse sofrimento manifestado pelos sintomas é como se fosse um castigo, que geralmente resulta de sentimentos de culpa inconscientes, que não são percebidos por quem os sente, mas nem por isso deixam de existir.

A maioria dos hipocondríacos pode ter manifestado forte ódio por seus pais ou irmãos, sentindo uma culpa inconsciente por ter desejado algumas vezes a morte de um deles. Como sabemos, o inconsciente é primitivo e incapaz de distinguir realidade de fantasia, acreditando que a culpa só poderá ser aliviada através de seu intenso sofrimento.

Os sintomas podem também constituir uma forma de afirmação de identidade, pois em geral não sentem segurança de seu valor, apresentando baixa autoestima. O fato de ter alguém para ouvi-lo e dar-lhe atenção pode assegurar-lhe que realmente existe e é digno de merecer atenção, o que explica sua busca constante por cuidados médicos, pois geralmente são pessoas com intensa necessidade de atenção e cuidados. O rancor por não terem recebido amor, proteção, afeto pode ser transferido para os profissionais quando estes não correspondem às suas expectativas, quase sempre frustradas. Seus sintomas podem representar uma linguagem corporal para expressar sua necessidade de cuidados.

Se você convive com alguém que apresenta essas características, abaixo segue algumas orientações em como lidar:

- Escute: O que eles mais precisam é de alguém que os ouçam com atenção. O que mais buscam é alguém em que possam confiar.

- Leve a sério seus sintomas: Não lhe diga que suas dores são fantasias ou imaginação de sua cabeça. Procure explicar que a tensão é capaz de gerar muitos sintomas.

- Dê atenção aos seus sentimentos: Encoraje-o a falar sobre seus medos e necessidades. Incentive-o a perceber que pode haver conflitos emocionais. Talvez possa fazê-lo compreender que o excesso de preocupação com sua saúde poderá levá-lo a negligenciar outras áreas importantes de sua vida.

- Destaque os aspetos positivos: Não supervalorize seus sintomas, isso poderá deixá-lo mais apavorado. Também não sugira mais exames, nem novos remédios, pois eles têm tendência a tomar medicação em exagero e tornarem-se dependentes dos mesmos.

- Incentive-o: Buscar outros objetivos ou algo que lhes dê sentido à vida pode ajudar a enfrentar e superar sua busca por atenção.

Há ainda a hipocondria inversa, onde em vez de recorrerem a sintomas físicos para expressar suas dificuldades emocionais, usam sintomas emocionais para mascarar um sintoma físico. O que pode se tornar muito perigoso, pois podem negar e ignorar uma doença até que se torne fatal. Diferente da hipocondria, que quando lhe é perguntado como se sente, responde com sintomas físicos; a hipocondria inversa responde com sentimentos, mesmo que tenha dor física.

Enfim, o hipocondríaco preocupa-se de maneira obsessiva com sua saúde, demonstrando muitas vezes uma certa satisfação em sentir-se doente; porém, dificilmente aceitam esse fato, pois demonstram relutância em livrar-se dos sintomas físicos devido aos ganhos secundários. Podemos perceber que tudo gira em torno do físico, não do espiritual; o medo da morte é projetado no corpo, de modo que temem morrer pelos mais diferentes sintomas. E quem tem medo de morrer na verdade tem muito medo de viver.


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Atualizado em 22/03/2018 10:12:05

Rosemeire Zago é psicóloga clínica CRP 06/36.933-0, com abordagem junguiana e especialização em Psicossomática. Estudiosa de Alice Miller e Jung, aprofundou-se no ensaio: `A Psicologia do Arquétipo da Criança Interior´ - 1940.
A base de seu trabalho no atendimento individual de adultos é o resgate da autoestima e amor-próprio, com experiência no processo de reencontrar e cuidar da criança que foi vítima de abuso físico, psicológico e/ou sexual, e ainda hoje contamina a vida do adulto com suas dores.
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