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O Sonho de Voar


É com pesar profundo que vejo aviões serem arrestados, e de repente surgem em minha mente sentimentos de meu passado.

Como foi doce o início dos sonhos da juventude tornando-se realidade.
O Aeroclube em Marília, São Paulo. A bolsa que recebi por uma dissertação sobre Santos Dumont.

Dinheiro?? Meu apelido era meio sanduíche!!! Não dava para comprar um inteiro.
Ajudava às vezes na oficina. Nada importava - como era doce voar.
Primeiro vôo solo, esgoelando em cantoria de pura felicidade.
Viagens para São Paulo, ingresso como empregado no controle de vôo da antiga Real Aerovias. Turno das seis a meia noite, às vezes dobrando até as seis da manhã.
Enfim, suprema felicidade - ingresso no curso de pilotos comerciais da Real Aerovias.
O trabalho continuava. Saía a meia noite, ia direto para a pensão de Dona Carmem defronte ao aeroporto de Congonhas. Dia seguinte, duas conduções até o Campo de Marte. À tarde, duas conduções de volta a Congonhas. Jantar no bandejão - tinha que comer rápido na época do inverno - guardava o pão e a banana para comer à noite no trabalho.

Nada importava - estava nas nuvens - estava voando.
Término do curso. Início do vôo profissional como co-piloto. Como era belo o DC-3!!
Vida dura, não havia regulamentação, por vezes voávamos por semanas seguidas.
Hotéis de madeira, charretes, mosquitos, calor, frio, nevoeiros, balizamento das pistas à noite com lampiões de querosene, código Morse*, rádio farol* .
Lembro-me de rir muito; estava feliz, estava voando.
Fim da Real Aerovias.
Absorção pela Varig.
Novos conceitos - discriminação - éramos chamados de “calças pretas” em função de nosso antigo uniforme (ai de mim se soubessem que as minhas calças pretas eram compradas na feira)! Não faz mal! Continuava voando!!
Estudo para exame teórico PLA* . Formamos um grupo, pagávamos as aulas que geralmente eram no período noturno.
Tudo pronto pelo DAC* . Metade do sonhado “comando” estava pronto.
Espera, muita espera... ansiedade.

Enfim Porto Alegre. Cinco meses para as fases práticas. Pensão de Dona Adma.
Contato mais direto com os que receberam a “herança” de verdadeiros “pavões alados”, Ícaros de barro em prepotência e hipocrisia!
Em compensação, também havia uma turma que era uma beleza! Normal. E eu continuava voando!
Término das fases práticas.
Cheque DAC. Tudo pronto. Coroar de meus sonhos! Tornei-me comandante!!
E lá fomos nós na maior felicidade para os primeiros vôos de comando.

Passaram-se os anos.
Após o DC-3 vieram o Avro, Electra, Boeing 727, 707, DC-10 e no final, o Jumbo 747.
Continuava voando! Mas já não era a mesma coisa, os mesmos sentimentos, os mesmos alentos.
Um dia, antes da saída de um vôo, encontrei uma carta da chefia de pilotos para a festa de entrega da asa de 25 anos de comando.
Fiquei vários minutos olhando para aquele pedaço de papel.
Mas a festa era naquela noite mesmo! Eu estaria voando!...

Tinha inimigos e não sabia, pois covardemente na minha frente nunca disseram nada.
E, na chegada do vôo para Nova Iorque e no hotel, ocorreram-me alguns fatos, naquela época, totalmente estranhos.
Com aquilo em mente, fui ao departamento médico da empresa. Viraram-me “de cabeça para baixo”. Finalmente deram-me uma carta para levar ao Cemal* .

Sentamos o brigadeiro médico chefe do Cemal, o coronel médico responsável pela cardiologia e eu.
Muito pequeno foi o comentário:

- Comandante, você precisa somente de uma pequena angioplastia numa artéria auxiliar, e em quinze dias lhe dou a carteira de novo.
Eu lhe disse:
Brigadeiro, o responsável médico da empresa foi categórico: na Varig você não voa mais!
- Então tenho que lhe “colocar nos calços” *?
Pode colocar, brigadeiro.

Peguei o papel assinado e quando voltava dirigindo pelo aterro do Flamengo, senti uma estranha sensação - sensação de liberdade.

Sinceramente, nunca pensei em escrever este texto.
Amadureceu quando vi a notícia do arresto do segundo avião no exterior.
Amadureceu quando vislumbrei que nada mudou.
Amadureceu por ver que no recrudescer das vaidades e no espernear dos egos, centenas e centenas de famílias do pessoal de vôo e de terra já temem o pão de cada dia.
Será que não haverá alguém que não se preocupará apenas com números ou com posições de destaque? Que vejam além de seus pomposos cargos? Que percebam as leis de causa e efeito como imutáveis e eternas?
Oxalá haja!
Para que um novo ciclo realmente se inicie, em que caia a busca desenfreada pela ganância e poder, e que a deslavada hipocrisia dê lugar a um mínimo de altruísmo.
Dedico este texto aos meus queridos e queridas que se iniciam nos sonhos da arte de voar.
Continuem voando! Voem sempre, pois posso lhes assegurar do mais profundo do meu ser: continuo voando, mas agora os vôos são outros.
Dedico este texto aos que nas mais variadas empresas se sentem ameaçados.
Dedico este texto aos que tem nas mãos os poderes políticos e religiosos.
Dedico este texto aos meus amigos e inimigos.
Dedico este texto à minha mulher Sheila, que foi durante tanto tempo, mãe e pai; a meus filhos, Ivan e Giovanna, minha neta Andressa, minha nora Katie, e meu muito querido netinho Liam.
Dedico este texto especialmente aos que continuam sonhando.

Cmte aposentado IVAN Ademar Ditscheiner

código Morse* - comunicação por telegrafia
rádio farol* - antigo meio de navegação e aproximação
PLA* - piloto de linha aérea
DAC* - departamento de aviação civil
Cemal* - centro de medicina aeroespacial
colocar nos calços* - imobilização do avião


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ivan
Ivan Ademar Ditscheiner é um ser humano muito especial
que se juntou à Família STUM em 2002.
Esteve varias vezes em São Paulo desde então nos dando o prazer de sua companhia.
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