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Identidades parciais do Ego

por Luís Vasconcellos


Cada um de nós "simpatiza" com uma parcela da totalidade das possibilidades humanas e a estrutura como seu patrimônio individual. Ao sentir-se identificado com as parcelas do todo, cada qual se apega emocionalmente a elas como se sua essência individual se esgotasse nisto.

Quando se trata do nosso modo característico de agir, de perceber e de explicar o que vivemos notamos que nossas parcelas individuais (do TODO HUMANO) funcionam como um filtro que vai seletivamente aceitando ou negando aspectos da realidade na mesma medida em que acaba renegando ou negando outras parcelas do mundo vivido.

De preferência procuramos nos identificar com parcelas do TODO HUMANO que estejam, por assim dizer, na moda. Fugimos assim de qualquer discriminação ou negatividade. Fazemos delas nosso "posto de observação do mundo" baseado em justificativas e explicações POR TODOS COMUNGADAS que são, ao mesmo tempo, nossa base de referência. Portanto em nossa mente existimos como um corpo de crenças, um coerente conjunto de crenças amalgamadas (aderidas umas às outras) e uma feroz e instintiva necessidade de defender estes nossos aperfeiçoados pontos de vista particulares.

Sucumbimos ao filtro que usamos e à perspectiva de mundo assim obtida. Assim sendo, generalizamos nossa experiência particular e acreditamos que todos deveriam imitar nosso modo de ser (isto, claro, se gostamos dele, o que não é sempre o caso), por ser ele a único coerente, o único possível, o único dotado de beleza, o mais justificável e saudável e o qual todos deveriam aderir, imitar e respeitar... Supomos que porquê alguma coisa seja boa para nós (na nossa adaptação ao mundo vivido no passado), deva sê-lo igualmente (obrigatoriamente) para todos os OUTROS ou à humanidade como um todo.

Funcionamos de um certo e coerente modo e tomamos por verdade a suposição aliás infantil e ingênua de que todo mundo assim funcione. Assim somos, no geral, até a segunda metade da vida(onde talvez um outro caminho se ofereça aos menos desavisados). Isto demonstra que não temos consciência de nosso funcionamento psicológico particular, de nosso tipo psicológico ou de nosso conjunto muito particular de Identidades Parciais do Ego. Acreditamos então que nossas idiossincrasias sejam uma expressão de alguma lei maior do universo e que todas as pessoas, indistintamente, funcionam como nós mesmos.

À parte da existência indiscutível de fatores coletivos e que nos dão a possibilidade de uma uniformidade social (de pensamento, de gosto, de moda, de valores compartilhados etc.) também é de grande poder e efetividade as escolhas e decisões que tomamos a respeito daquilo que quiseram fazer de nós.
Ë com a chegada da maturidade que podemos talvez escapar da ilusão de que temos um funcionamento igual. Somente quando já adultos e maduros nos damos conta de que todas as intrigas e patranhas que vivemos em nosso casamento, na família, na empresa, sociedades etc., são fruto de características diferenciadoras que as pessoas (como nós) carregam consigo e que levam para a RELAÇÃO com os OUTROS como uma espécie de condição "inegociável" para que ela exista. Quando os OUTROS agem assim conosco é que notamos o esforço deles para se fazerem aceitos por suas características individuais não conscientizadas (e, portanto, radicalizadas, limitadas e rígidas).

Somos então "treinados" a aceitar os modos de ser impositivos dos outros como coisa que se tem de engolir para poder conviver com eles: "Faz parte do jogo e tocamos a bola pra frente!" Nossa inconsciente imaturidade e infantilismo nos leva, igualmente - como em uma epidemia avassaladora - a impor aos outros nossos "filtros", nossos valores, e modos de ser, na tentativa de conseguir acolhida, compreensão, aceitação e valor para aquilo que somos. Quando o conseguimos contudo, absolutizamos de tal modo o processo que é como se o OUTRO tivesse aceito que somos os certos, os belos, os "donos de toda razão", os admiráveis. Claro que isto só pode ocorre se for em detrimento deles mesmos, de sua personalidade,de seus modos de ser na vida.
Nos impomos aos outros e eles que agüentem as limitações a eles impostas, as barreiras que lhes impingimos, e os limites estreitos em que aceitamos viver... Nos falta, no geral, a capacidade de observar este mesmo fenômeno se passando em nosso âmbito pessoal. Todos conhecemos o hábito coletivo (hoje regra) de compor, no mesmo personagem, uma vaidade excessiva, uma desmedida auto complacência, uma falsa auto imagem idealizada e, ainda, uma rigidez ferrenha se opondo a qualquer mudança. As Identidades Parciais do Ego constituem um amálgama de características humanas que são o maior motivo e necessidade para nos diferenciarmos uns dos outros. São por definição PARCIAIS já que resultam, por um lado da QUEBRA NO PAR DE OPOSTOS e, por outro lado, pela NEGAÇÃO, em nós mesmos, do outro componente do PAR, o qual negamos e afastamos da nossa noção do EU, vindo a constituir a SOMBRA PESSOAL.
Esta é, no mínimo, projetada sobre tudo e todos, gerando o temor crescente de uma confrontação com ela através dos OUTROS. Quase ninguém está verdadeiramente aberto para a visão de sua responsabilidade nas dificuldades de relação social, conjugal ou familiar. Carregamos nossos conflitos não resolvidos para onde quer que a gente vá: estão como que aderidos a nós, por força de serem os desafios que nos venceram, as provas em que fomos reprovados e os aspectos humanos que ficaram, em nós mesmos, subdesenvolvidos.
Cada um carrega inapelavelmente a própria SOMBRA e só nós mesmos podemos reintegra-la ou regenera-la de modo suficiente e libertador. Contudo, para que esta última hipótese se concretize, precisamos aceita-la sem que para isso tenhamos que nos entregar a ela, aceita-la para devolve-la ao nosso viver, do qual foi alijada e exilada por circunstâncias das quais não mais nos lembramos.

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Luís Vasconcellos é Psicólogo e atende
em seu consultório em São Paulo.

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Publicado em: 03/08/2000 18:00:23

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