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Sexo, Amor, Erotismo e Pornografia - Parte 5

por Flávio Gikovate
Publicado dia 10/06/2008 18:34:51 em Psicologia

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PORNOGRAFIA E SOCIEDADE

Uma das características da produção erótica ou pornográfica é que ela trata claramente o sexo fora dos limites do amor. Espero ter conseguido demonstrar que sexo e amor são coisas bastante distintas, que existe amor sem sexo - amor entre pais e filhos, por exemplo -, do mesmo modo que existe sexo sem amor, além, é claro, da união do sexo com o amor, como acontece em relações afetivas entre pessoas adultas.

O amor é um impulso forte, relacionado com nossas primeiras experiências como seres vivos, quando ainda estávamos grudados em nossas mães. Sobra uma nostalgia dessa simbiose, e o desejo de refazê-la com figuras especiais com as quais cruzamos ao longo da vida adulta. Já o sexo é impulso instintivo que não tem um objeto de desejo tão definido como no caso do amor, sendo, por causa disso, difícil de ser “domesticado” e bastante anarquista por natureza.
A vida real nos mostra que os que pregam o recato e a ponderação nem sempre usam esse padrão de conduta em suas vidas pessoais.

É muito importante que se perceba que o sexo é processo isolado do amor tanto nos homens como nas mulheres. Nossa cultura sempre reconheceu a sexualidade masculina como independente do amor. Agora, para as mulheres, sempre foi dito que o sexo anda junto com o amor. Apesar da complexidade da questão, acho que se pode afirmar que essa associação forte proposta às mulheres estava a serviço de reprimir-lhes o exercício da plena e livre sexualidade. Até faz bem pouco tempo, as mulheres não gostavam sequer de assistir aos filmes pornográficos que sempre agradaram muito aos homens. Hoje, constatamos que a produção erótica de todo o tipo conta com um crescente número de adeptas, que, ao menos em fantasia, se deleitam com a possibilidade do sexo livre do amor.

A posição de uma sociedade como a nossa em relação à pornografia é contraditória, como acontece em relação a tantos outros assuntos importantes. É como se vivêssemos submetidos a dois códigos de valores ao mesmo tempo. Um nos diz para sermos comedidos, ponderados, recatados, honestos, dignos. O outro nos ensina que as pessoas bem-sucedidas têm de ser espertas, levar vantagem sobre as outras, ser exageradas, não tão recatadas e ter honestidade relativa. Os dois códigos nos chegam diariamente por vários meios de comunicação. No cinema, há personagens dos dois tipos; o mesmo ocorre nas novelas, nas quais nem sempre o galã se governa pelo código mais rigoroso. E a vida real nos mostra que os que pregam o recato e a ponderação nem sempre usam esse padrão de conduta em suas vidas pessoais.
É muito importante que se perceba que o sexo é processo isolado do amor tanto nos homens como nas mulheres.

Oficialmente, a pornografia é vista como inadequada, estimuladora de maus hábitos sexuais, justamente porque não vincula o sexo ao amor. Além do mais, a produção erótica não estabelece limites entre o que se deve e o que não se deve fazer nas relações íntimas, o que ainda ofende os princípios de um bom grupo de pessoas. Apesar disso, a indústria pornográfica vai indo muito bem, e o número de pessoas que gostam de se entreter com esse tipo de filme, livro, novela etc. é crescente. Ainda hoje, entretanto, o preconceito contra a pornografia é maior quando se trata do sexo feminino. Ou seja, os pais se incomodam muito pouco se seu filho estiver assistindo a filmes eróticos. Porém, se for a filha...

Se olharmos o fenômeno por outro ângulo, poderemos ver um aspecto interessante que, em geral, não é citado. A produção pornográfica pode estar a serviço de uma atitude conservadora, a serviço de preservar as relações afetivas e familiares, a serviço da monogamia. Como? Já disse que as fantasias são um dos caminhos para o esvaziamento da energia sexual, que, em nossa espécie, é bastante intensa. À medida que os indivíduos e também os casais lançam mão dos recursos produzidos pela indústria do erotismo, encontram, via imaginação, uma saída para os desejos sexuais que transbordam os limites das relações afetivas que desejam preservar. A pornografia pode ajudar as pessoas a reduzir a energia sexual sem ter de recorrer a ações práticas que possam ameaçar os vínculos afetivas e conjugais.


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Sobre o autor
flavio
Flávio Gikovate é um eterno amigo e colaborador do STUM.
Foi médico psicoterapeuta, pioneiro da terapia sexual no Brasil.
Conheça o Instituto de Psicoterapia de São Paulo.
Faleceu em 13 de outubro de 2016, aos 73 anos em SP.
Email: [email protected]
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