AS FORMIGAS E O HOLOCAUSTO

AS FORMIGAS E O HOLOCAUSTO Autor Pri Gaspar - priscilagaspar@terra.com.br

Há cerca de dois anos, na cozinha de minha casa, havia uma infestação de formigas doceiras. Trilhas extremamente organizadas para invadir MEU território e surrupiar diuturnamente o MEU alimento. A ação dessas pequenas irmãzinhas, catadeiras de migalhas e resíduos, causou-me um estranho incômodo. Afinal, era MEU TERRITÓRIO! Era o MEU bolo! E por que me incomodavam tanto, já que tiravam apenas algumas migalhas e eu precisava de regime?? Após alguns dias convivendo com o minúsculo exército e com os sentimentos de raiva que ele me causava, resolvi tomar uma atitude defensiva (pensava eu tratar-se de DEFESA!). Fui a uma loja de variedades e utilidades domésticas à procura de um produto eficiente para combatê-las, do qual ouvira falar anteriormente. Na loja, a vendedora simpática apresentou-me outro produto, de diferente marca, tão eficiente ou melhor que aquele que eu buscava. Uma senhora que lá estava realizando compras, ouvindo a conversa, interessou-se pelo assunto e aproximou-se para contar animada sobre as suas aventuras no extermínio de insetos domésticos. Quando dei por mim, estávamos as três, trocando experiências e contando vantagens sobre as vítimas que havíamos abatido, comparando-as como troféus! Havia um prazer mórbido naqueles relatos... Voltei para casa feliz com minha aquisição: uma arma mortífera contra minhas inimigas! Apliquei o produto nas trilhas das formiguinhas tal qual um gigante perverso. O objetivo do produto era atraí-las como isca para que levassem ao formigueiro e repartissem com as demais, dizimando toda a população, inclusive as larvas (bebezinhos...). Fui me deitar e, como todas as noites, fiz uma reflexão antes de dormir. Lembrei-me de um episódio em minha adolescência, quando voltava da escola com uma amiga e esta quase pisou em um formigueiro. Eu, com ares de superioridade, na prepotência de meus 14 anos, dei lição de moral, fazendo-a pensar como seria se um gigante chegasse repentinamente com pés enormes e pisoteasse nossa cidade, destruindo prédios e casas... Lembrei-me também da fala de um colega de faculdade que dizia ser a Terra um planeta muito atrasado em termos de evolução espiritual, dado a existência das cadeias alimentares e a necessidade de se matar para sobreviver... No dia seguinte... Não mais havia trilhas de formigas... Comecei a imaginar o que acontecera, as pequeninas chegando felizes ao formigueiro, carregando a preciosa guloseima e repartindo-a com as demais. Para, logo a seguir, agonizarem aos milhares, vítimas da gigante causadora do holocausto... Imediatamente me veio à mente o ensinamento mosaico contido nos 10 mandamentos: “Não matarás”. Ele não é específico para seres humanos! Da mesma forma, no budismo, ensina-se que todas as formas de vida devem ser respeitadas, segundo Buda: “Todos os seres vivos tremem diante da violência. Todos temem a morte, todos ama a vida. Protege você mesmo todas as criaturas. Então a que você poderá ferir? Que mal você poderá fazer?” Então, como consequência cármica do meu desrespeito às Leis divinas, ao ter tomado a consciência de meu erro, na noite seguinte não consegui dormir. Sentia a impressão de coceira em todo o corpo, tinha percepção de patinhas silenciosas de minhas irmãzinhas coletoras de resíduos domésticos caminhando em mim e por toda a casa... Seriam as patinhas imaginárias ou fantasmas? Minha consciência autopunitiva ou fantasmas vingadores de minhas vítimas? O que me dificultou conciliar o sono, é mais óbvio, foi a consciência pesada. Como diz meu orientador espiritual, Carlos, “Pecado é tudo aquilo que pesa em nossa consciência”.



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Autor: Pri Gaspar   
Priscila Gaspar é Psicanalista, Terapeuta de Regressão e Terapeuta de Casais, com especialização em Sexualidade Humana. Atende em psicoterapia individual e de casal.Contato: (31)99312-8269 priscilagaspar@terra.com.br
E-mail: priscilagaspar@terra.com.br
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Atualizado em 16/12/2016



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