Catastrofização da dor: quando o medo da dor amplifica a própria dor
Autor Flávia Esper
Assunto Corpo e MenteAtualizado em 6/2/2026 10:18:55 PM
Você já sentiu o medo da dor antes de a dor chegar? Ou entrou em desespero ao começar a sentir dor, com medo de ser o começo de uma nova crise insuportável
Essa antecipação é muito comum em quem lida com condições crônicas ou recorrentes. O corpo começa a ficar em alerta só de imaginar a crise que pode vir de novo. A dor atual vem carregada dos medos e memórias das dores anteriores. A mente já calcula o pior cenário antes mesmo de qualquer sintoma aparecer
Isso tem nome. Chama-se catastrofização da dor. Não é fraqueza, não é exagero, não é pessimismo. É uma resposta inteligente do sistema nervoso que faz todo o sentido diante do que você já viveu. É o seu corpo reconhecendo uma possível ameaça e tentando reagir a ela.
Como o sistema nervoso aprende a antecipar
Quando uma pessoa vive com dor crônica, o sistema nervoso vai registrando os padrões, o que precedeu as crises, quais situações as desencadearam, o que aconteceu quando a dor foi intensa. E vai criando alertas.
Esse processo existe para nos proteger. É o sistema nervoso tentando evitar que você seja pega de surpresa pela dor, tentando te preparar, tentando te ajudar a se proteger do que ele considera uma ameaça.
O problema é que esse mecanismo de proteção, quando está desregulado, acaba funcionando contra você. O estado de alerta antecipado, o medo, a tensão, a ansiedade em relação à dor, amplificam a própria dor e o que era estratégia para proteger, acaba piorando a situação. O medo aumenta a tensão muscular. A tensão muscular aumenta a dor. A dor confirma o medo. E o ciclo continua.
Mas, afinal, o que é catastrofização?
Catastrofização não é fingir que a dor é pior do que é. Não é manipulação. Não é fraqueza de caráter.
É um padrão de pensamento e resposta do sistema nervoso que se desenvolve quando uma pessoa vive por muito tempo com dor imprevisível, intensa e, muitas vezes, não compreendida por quem está ao redor. Também acontece diante de outras situações traumáticas sem ser dor física. É um estado de alerta constante, de um sistema nervoso que está sempre tentando fazer previsões e encontrar algum padrão em um corpo imprevisível, que passa por altos e baixos muitas vezes sem um gatilho ou explicação aparente.
Faz todo o sentido que alguém que foi pega de surpresa por crises devastadoras várias vezes passe a temer passar por outra crise e entre em desespero ao menor sinal de dor. É parecido coom o que uma pessoa que já teve pânico ou depressão grave pode sentir quando sente que pode estar entrando em outro episódio. Faz todo o sentido que um corpo que aprendeu que uma dor desesperadora, incapacitante e que nem sempre responda às medicações pode aparecer a qualquer momento fique em estado de vigilância constante.
O problema não é que a catastrofização exista. É que ela piora a experiência da dor e cria um ciclo do qual pode ser muito difícil de sair sozinha.
Como sair desse ciclo
A boa notícia é que o nosso sistema nervoso, que controla todo esse mecanismo de alerta é inteligente e está sempre aprendendo. O padrão não muda de uma hora para outra, mas, com os recursos adequados, é possível torná-lo consciente, reduzi-lo ou até interrompê-lo. E isso pode ajudar a reduzir crises e mesmo a dor e a fadiga, em certo nível
Nosso cérebro não desaprende o que já aprendeu. Os padrões que são como trilhas profundas abertas na mata, reforçadas por todas as vezes que o cérebro fez o mesmo caminho. Eles vão continuar lá. Mas podemos, aos poucos, contruir novos caminhos.
Nosso cérebro é moldável e pode aprender novos caminhos, criar novas conexões que, se forem trabalhadas e reforçadas consistentemente, podem passar a ser o padrão usado. Pense em uma mata fechada com uma trilha aberta bem marcada. O normal é que quem entre na floresta faça esse caminho que já é conhecido, seguro, sem esforço.
Para convencermos as pessoas a pararem de usar essa trilha e usarem outra, temos que abrir outra trilha na mata, mantê-la aberta consistentemente, até que se forme um caminho que não se feche novamente em poucos dias. Temos de mostrar que esse novo caminho é seguro e funcional, tanto ou mais que o anterior. Isso exige estratégia, consistência, tempo e apoio adequado. Especialmente quando quem temos de convencer a fazer um caminho desconhecido é o nosso sistema nervoso, que tem a grande função de evitar, justamente, tudo aquilo que pareça perigoso.
Como fazer?
Uma das primeiras coisas que ajuda é entender o que está acontecendo. Quando a pessoa compreende por que está sentindo aquela antecipação, por que o medo surge antes da dor, o que isso tem a ver com o sistema nervoso e com o que o corpo aprendeu ao longo do tempo e se a dor realmente representa um perigo desta vez, isso já reduz um pouco da força do mecanismo.
(Não é à toa que educar pessoas com dor crônica sobre os tipos e funcionamentos da dor ajuda a reduzir a dor em diversos casos. Mas isso vai ser tema de outro texto.)
Estratégias de regulação do sistema nervoso também ajudam: respiração profunda e ritmada, técnicas de ancoragem, práticas que sinalizam para o sistema nervoso que o momento presente é seguro, mesmo que haja dor. Não no sentido de ignorar a dor, mas no sentido de reduzir o estado de alerta que a antecede e amplifica.
Trabalhar o medo da dor e outras emoções causadas, por exemplo, por perdas que a doença trouxe em outras crises, identificar os pensamentos que aparecem, como o sistema nervoso está respondendo a eles, o que dispara o ciclo também são parte importante desse processo e fundamentais no trabalho terapêutico especializado em dor crônica e doenças invisíveis.
Não é "pensar positivo", até porque, quando se está em meio a um padrão de catastrofização, seu corpo está agindo como se estivesse diante de uma ameaça real à sobrevivência. Pedir para alguém pensar positivo diante de uma ameaça à vida em vez de tentar sobreviver não funciona. Se um cão gigante raivoso estiver te perseguindo, todos os recursos do seu corpo e da sua mente vão estar ocupados em sobreviver. Se você parar para pensar positivo, o cão vai te pegar. E seu corpo provavelmente nem vai te deixar parar para tentar pensar positivo diante do cão raivoso.
Mesmo que a ameaça não seja real, que a dor não esteja ameaçando realmente a vida, o nosso cérebro acha que é real e que é uma questão de sobrevivência. Não adianta apenas dizer que não tem cachorro nenhum e que a pessoa está segura. Há muitos passos orgânicos para desarmar antes de se conseguir pensar de outra forma. O corpo não entende que está seguro apenas porque alguém disse. Ele precisa de provas repetidas, confirmações físicas, não apenas palavras. Precisa de acolhimento, tempo e treinamento adequado.
Então a dor é psicológica?
Não. Ao menos não no sentido de que a dor é causada pelos pensamentos ou emoções. A dor é uma experiência com várias componentes, físicas, culturais, genéticas, biográficas, emocionais... Os pensamentos e emoções envolvidos na catastrofização podem ampliar a dor, mas não são a causa da dor, nem da fadiga crônica, nem das doenças autoimunes ou de outras condições invisíveis. As doenças invisíveis não são "inventadas" nem "coisa da sua cabeça". São bem reais e físicas, mas, assim como em várias outras doenças, as emoções podem deflagrar crises, ativar predisposições e piorar ou melhorar sintomas.
Uma psicoterapeuta especializada em dor crônica sabe que a dor que você sente é real, mesmo que ninguém a veja. Sabe que o seu medo, sua frustração e seu desespero diante dos sintomas são válidos. E uma profissional especializada em dor crônica e doenças invisíveis tem recursos e disponibilidade para ajudar você a sair desse ciclo com segurança e acompanhá-la nas outras questões emocionais, financeiras e sociais que o impacto de uma doença invisível traz.
Se você reconhece esse padrão na sua vida e quer entender mais sobre como trabalhá-lo, há conteúdo sobre isso aqui no blog e no canal do YouTube. E se quiser conversar sobre como a psicoterapia especializada pode ajudar você, entre em contato para marcar uma entrevista gratuita.
Leia mais em www.flaviaesper.com
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Autor Flávia Esper Flávia Esper é psicoterapeuta e terapeuta integrativa, especializada em dor crônica e doenças invisíveis. É, também, professora, contadora de histórias e criadora do método Flávia Esper de terapias integradas. Atende com psicoterapia especializada em dor crônica e doenças invisíveis individual e em grupo, tarô terapêutico e cura xamânica. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Corpo e Mente clicando aqui. |










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