Gratidão não é boleto emocional.
Autor Raphael Mello
Assunto PsicologiaAtualizado em 3/30/2026 8:20:13 PM
Tem gente que aprendeu a viver como se estivesse devendo.
Como se existir já fosse um débito e cada respiração precisasse vir acompanhada de um "obrigado" bem dito, bem sentido, bem mostrado.
Mas gratidão não é boleto emocional.
Não é prestação que se paga ao universo para justificar o fato de estar aqui.
Porque quando a gratidão vira obrigação, ela deixa de ser afeto e vira defesa.
E aí, sem perceber, a gente começa a agradecer até pelo que machuca, como se nomear a dor fosse falta de caráter.
E hoje tem mais uma camada nisso tudo:
a gratidão virou, para muita gente, um ideal de evolução.
Quase uma performance espiritual.
Como se fosse preciso estar bem com tudo, o tempo todo.
Como se suportar qualquer situação, inclusive as violentas, fosse sinal de crescimento.
Como se dizer "tá doendo" fosse prova de atraso.
Mas não é.
Às vezes, essa gratidão exagerada não aproxima ninguém de si mesmo, afasta.
Porque obriga o sujeito a se encaixar numa versão "evoluída" que não sente, não reclama, não falha.
E aí, em nome de uma suposta evolução, a pessoa se abandona.
Você pode reclamar da escala 6x1.
Pode reclamar do seu trabalho.
Pode reclamar do seu relacionamento.
E nada de terrível vai acontecer por isso, a não ser, talvez, o começo de alguma verdade.
Reclamar não é ingratidão.
É, muitas vezes, o primeiro gesto de quem começa a se escutar.
Porque tem uma armadilha aí:
achar que, só porque você tem um trabalho, precisa aceitar qualquer condição.
Que, só porque tem um parceiro ou parceira, precisa engolir qualquer dor.
Que, só porque tem uma casa, não pode se permitir dizer que algo não vai bem.
Como se a falta fosse proibida.
Como se o sofrimento tivesse que ser sempre compensado por uma lista de privilégios.
Mas ser grato não é suportar o insuportável.
Não é silenciar diante do que fere.
Não é transformar violência em virtude só para manter uma imagem de alguém "evoluído".
Sentir raiva, cansaço, tristeza, ambivalência, tudo isso também é estar vivo.
E viver com um pouco mais de verdade seja justamente parar de tentar higienizar os afetos com frases bonitas.
A gente não deve nada ao Universo.
E, por mais difícil que seja admitir, também não deve uma gratidão irrestrita à família.
Amar não é agradecer por tudo.
Amar, às vezes, é conseguir olhar para o que foi recebido, inclusive o que faltou e ainda poder escolher o que fazer com isso.
Porque nem tudo que acontece com a gente tem vocação pedagógica.
Tem coisa que não vem para ensinar, vem para inscrever.
Fica no corpo, na memória, no jeito de se relacionar com o mundo.
E talvez crescer não seja transformar tudo em lição bonita.
Seja, antes, parar de mentir sobre o que doeu.
Não apagar a marca com gratidão forçada, nem tentar dar sentido apressado ao que ainda fere, mas sustentar que isso existe.
Que isso foi vivido.
Sem dívida, sem culpa, e, quem sabe um dia, sem precisar se justificar por sentir o que se sente.
|
Autor Raphael Mello Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Psicologia clicando aqui. |










in memoriam