Você é o que você faz?
Quando foi que trabalho e identidade começaram a significar quase a mesma coisa?
Perguntamos "quem é você?" e ouvimos: médica, professora, advogada, empresária. Perguntamos pela pessoa e ela responde com a profissão.
O problema começa quando o trabalho deixa de ser apenas aquilo que fazemos e passa a carregar também autoestima, valor pessoal, pertencimento, propósito e identidade. Então uma promoção parece confirmar quem somos, um fracasso profissional nos atinge muito além do resultado e uma tarde sem produzir pode vir acompanhada de culpa.
Max Weber ajuda a compreender como o trabalho adquiriu valor moral e como a produtividade passou a se confundir com virtude. Jennifer Crocker investiga o que acontece quando a autoestima se torna dependente do desempenho. Marie Jahoda mostra que o trabalho também organiza nosso tempo, nossos vínculos e nosso lugar no mundo. Ernest Becker permite pensar nossa necessidade de deixar rastros. E Donald Winnicott leva a questão ainda mais longe, é possível funcionar perfeitamente, produzir, entregar e vencer, sem conseguir reconhecer a si mesma na vida que construiu.
Talvez seja por isso que perder um trabalho possa significar muito mais do que perder uma fonte de renda. Quando colocamos sobre a mesma mesa profissão, identidade, autoestima, utilidade, pertencimento e sentido, qualquer abalo profissional ameaça derrubar coisas que nunca deveriam depender exclusivamente dela.
Por isso, a pergunta mais difícil não é se você gosta do seu trabalho ou se trabalha demais.
Se amanhã ninguém mais precisasse do que você faz, o que em você continuaria tendo valor?
Carolina Michelini | Clube de Leitura Ler-Se
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