Era um adeus... Quando o fim não se anuncia
Autor Rodolfo Fonseca
Assunto AutoconhecimentoAtualizado em 27/02/2026 18:47:33
A maior tragédia da finitude humana não é o encerramento em si, mas a sua absoluta falta de alarde. Como alguém bem pontuou, um dia você verá alguém pela última vez e não terá a menor pista disso; não haverá trilha sonora, nem o peso solene de uma despedida. Para a nossa percepção, será apenas mais uma terça-feira.
Nosso sofrimento mais profundo nasce quando criamos expectativas que violam a própria natureza da vida. Esperamos que os momentos significativos venham com avisos prévios, mas a natureza das coisas opera sob leis de previsibilidade que muitas vezes decidimos ignorar:
Tudo o que nasce, morre.
Tudo o que começa, termina.
Tudo o que se une, eventualmente se separa.
A efemeridade não é uma falha no sistema, mas sim ele funcionando perfeitamente. O "adeus invisível" acontece porque tentamos extrair segurança de situações que são, por definição, instáveis.
Vivemos em uma cultura que premia a negação da nossa própria natureza, tentando esconder limites e perdas sob filtros de invulnerabilidade. Acreditamos que as pessoas e os momentos são sólidos, quando, na verdade, são Hevel (vapor ou fumaça).
Tentar encontrar segurança permanente no cotidiano é como tentar "agarrar o vento". O adeus é invisível porque o vapor não avisa quando vai se dissipar; ele simplesmente se mistura ao ar.
A maior vaidade (ou pretensão) humana é acreditar que podemos escapar dessas regras básicas e que teremos sempre "uma próxima vez" para dizer o que importa.
Se soubéssemos que era a última vez, agiríamos com uma performance dramática. Mas, como não sabemos, o desafio do autoconhecimento é transformar essa "incerteza do adeus" em uma prática de presença real.
Internalizar que muito do que nos causa ansiedade é, em essência, vapor, nos ajuda a perder o medo de perdê-lo. Isso nos permite fazer a pergunta libertadora: "O que, no fim do dia, ficará quando a poeira baixar?".
Quando aceitamos que o adeus pode estar disfarçado de um "até logo" banal, paramos de gastar energia tentando segurar o que não pode ser retido.
A consciência de que o adeus é silencioso não deve nos paralisar, mas nos despertar. Se a natureza das coisas é a impermanência, então cada interação carrega em si a dignidade de um encerramento.
Não saber que é a última vez é o que torna o "agora" a única posse real que temos. Simplificar a vida e valorizar o essencial não é apenas uma escolha filosófica, é a única resposta racional diante do Presente.
Bom, já que o adeus não avisa, que a nossa presença seja o recado.










in memoriam