O que você faz com o que sente? Parte V
Autor Rosemeire Zago
Assunto PsicologiaAtualizado em 05/03/2026 13:28:48
Corregulação - onde nasce a segurança emocional
Vamos entender por que a corregulação é tão importante.
Para isso, precisamos voltar no tempo. Muito antes das palavras. Muito antes da memória consciente.
As bases da nossa capacidade de sentir segurança começam a ser construídas ainda na vida intrauterina.
O cérebro precisa de segurança desde a vida intrauterina e para toda vida
O sistema nervoso sempre busca identificar se está seguro ou em perigo desde a gestação, quando está em desenvolvimento. Desde esse momento o bebê já tem a capacidade de perceber se o ambiente é seguro ou não através da mãe:
- Batimentos cardíacos - o coração da mãe comunica segurança quando está em ritmo calmo. E quando está estressada, com o coração disparado, ele também irá sentir, e irá interpretar como perigo.
- Movimentos: o bebê sente os movimentos da mãe, se são calmos ou agressivos.
- Voz: o bebê ouve a voz da mãe e sente se está agitada ou calma. Por volta de 20 semanas de gestação, o bebê começa a ouvir sons.
- Hormônios: substâncias como ocitocina, dopamina e cortisol atravessam a barreira placentária e influenciam o ambiente biológico em que o sistema nervoso está se organizando.
Isso não significa que o bebê herda emoções. Significa que seu sistema nervoso está sendo moldado pelo ambiente biológico e relacional no qual está imerso.
A corregulação durante a vida intrauterina e na infância influencia diretamente a capacidade de se regular na vida adulta. Também impacta a forma como os vínculos serão estruturados, favorecendo o desenvolvimento de um apego mais seguro ou inseguro - tema para outro artigo - e contribuindo para a construção do senso de segurança para a vida.
Você sabe ou consegue imaginar como sua mãe se sentia quando estava grávida de você? Como era o ambiente naquele período? Havia segurança?
É importante lembrar: isso não determina o futuro. O desenvolvimento continua após o nascimento, e o sistema nervoso é profundamente plástico.
Após o nascimento, a corregulação se torna central.
Regulação emocional é a capacidade de diminuir a intensidade do que sentimos. O bebê nasce sentindo tudo intensamente, mas não consegue se regular sozinho. Ele precisa de um adulto regulado para ajudá-lo. A isso damos o nome de corregulação: quando um sistema nervoso mais organizado ajuda outro a sair de um estado de ameaça e retornar à segurança. É fazer junto.
O sistema nervoso autônomo é moldado desde o início da vida por meio da interação com outras pessoas. A experiência repetida de afeto, presença e previsibilidade ajuda a construir estratégias saudáveis de regulação emocional e maior resiliência na vida adulta.
Quanto mais experiências de corregulação na infância, maior tende a ser a autonomia e a resiliência no futuro. A autorregulação é a corregulação internalizada. Ela nasce da experiência repetida de ter sido regulado.
Quando a criança vê o adulto calmo, ouve uma voz tranquila, recebe toque, abraço, olhar atento e presença disponível, seu sistema nervoso aprende segurança.
A corregulação acontece justamente nesses momentos simples e cotidianos: no colo, no contato pele a pele, na voz que acalma, na conexão que sustenta. Não é sobre perfeição, mas sobre a predominância dessas experiências ao longo do tempo.
O sistema nervoso da criança aprende segurança através da experiência repetida de presença regulada. Por isso, o adulto precisa primeiro se regular para então ajudar a regular a criança. Quanto mais regulada a mãe está emocionalmente, mais a criança se regula. A regulação emocional da mãe = regulação emocional do bebê.
Um exemplo simples: seu filho chora. Antes de pegá-lo no colo, você faz algumas respirações profundas. Seu corpo desacelera. Ao segurá-lo, sua respiração tranquila, seu tom de voz e sua expressão facial oferecem sinais de segurança. O sistema nervoso dele responde a esses sinais. Não é mágica. É neurobiologia.
Esse processo está profundamente relacionado ao conceito de neurocepção, descrito por Stephen Porges na Teoria Polivagal. Neurocepção é a capacidade automática e inconsciente do sistema nervoso de detectar sinais de segurança ou perigo no ambiente. O corpo está constantemente avaliando: estou seguro ou estou em perigo?
Desenvolvimento cerebral e capacidade de regulação
Durante a infância, o cérebro ainda está em maturação. O córtex pré-frontal, responsável por planejamento, controle de impulsos e regulação consciente, é uma das últimas regiões a amadurecer. Ele começa a integrar-se de forma mais funcional entre 5 e 10 anos e atinge maturidade completa por volta dos 25 anos.
Até aproximadamente 4 anos, a criança depende quase totalmente da corregulação. Entre 4 e 7 anos, começa a compreender o que sente, mas ainda precisa de apoio constante. Entre 7 e 10 anos, inicia tentativas mais conscientes de regulação. Na adolescência, ainda há imaturidade regulatória significativa.
Ou seja, quanto mais dificuldade você sente de se autorregular na vida adulta, isso pode indicar pouca experiência de corregulação na infância. Faz sentido para você?
Muitas pessoas cresceram ouvindo: "Para de chorar." "Isso é frescura." "Engole o choro." Choravam e não recebiam colo porque "iam ficar mimadas". Eram deixadas sozinhas no quarto para dormir. Não eram acolhidas quando não estavam bem. Ninguém percebia suas dores ou seu silêncio. Era valorizada a criança obediente, quietinha, que não dava trabalho.
Se não teve corregulação na infância, é possível que muitos sintomas na vida adulta sejam consequências do colo que não recebeu, de não ter sido vista, ouvida e acolhida sempre que precisou.
A criança não consegue se regular sozinha. Ela apenas sente e expressa. Se não é acolhida, não aprende a se regular - aprende a reprimir. E quanto mais reprime, mais se afasta do que sente.
O que é reprimido não desaparece. Fica registrado no corpo.
Isso pode aparecer na vida adulta como ansiedade, hipervigilância, dificuldade de confiar, sensação constante de alerta, explosões de raiva, dificuldade de lidar com emoções intensas ou reações desproporcionais. Qual deles você identifica hoje?
Como corregular
Corregular também é comunicar segurança de forma explícita e implícita. Às vezes, não é o que se resolve, mas como se está presente.
Por exemplo, diante do choro ou do medo da criança, o adulto pode dizer:
"Estou aqui com você."
"Você não está sozinho."
"Eu vou te proteger."
"Eu sei que está difícil."
"Eu estou vendo o que você está sentindo."
"Pode chorar, eu fico com você."
Na vida adulta, a corregulação também acontece quando alguém diz:
"Eu te escuto."
"Faz sentido você se sentir assim."
"Vamos pensar juntos."
"Você não está sozinho, eu estou aqui com você."
Além das palavras, o corpo também comunica segurança: pegar na mão, oferecer um abraço, manter contato visual acolhedor, ajoelhar-se para ficar na altura da criança, falar com voz firme e calma, respirar de forma mais lenta e próxima, segurar com delicadeza, permanecer por perto sem se afastar.
Às vezes, a maior forma de corregulação é simplesmente ficar presente emocionalmente.
Você compartilha o que sente com alguém?
Compartilhar o que sentimos com alguém também é uma forma de corregulação, desde que a pessoa te ouça, valide, respeite, se importe com você e o que sente. Por isso, que muitas vezes ao desabafar com uma pessoa, você se sente mais leve, relaxado, você corregulou com essa pessoa. Relações seguras, terapia, vínculos saudáveis e práticas de regulação emocional fortalecem circuitos neurais associados à segurança.
Entenda mais sobre você
Será que a dificuldade que você tem hoje na vida adulta para lidar com suas emoções, para se regular, aquela insegurança, medo, que você sentiu a vida toda, não começou na sua vida intrauterina ou na infância?
Quem cuidava de você nos primeiros anos era uma pessoa que te transmitia segurança e proteção?
Talvez, ao ler tudo isso, você tenha entendido algo novo sobre você. Talvez suas reações desproporcionais, sua dificuldade em lidar com o que sente, tenha sido por nunca ter aprendido a se regular. Talvez tenha sido ausência de presença segura quando seu sistema nervoso estava em formação.
Suas respostas para as perguntas acima, não vão determinar seu futuro, mas podem te trazer mais compreensão de onde começou sua insegurança, e que nunca foi incapacidade de lidar, mas falta de segurança e proteção quando você mais precisava. E agora, consciente de tudo isso, há algo muito importante aqui: segurança pode ser aprendida. Pode ser construída. O sistema nervoso é plástico. Ele continua aprendendo ao longo da vida. Nada está determinado. E hoje você pode escolher se cuidar de forma diferente, com muita autocompaixão, regulação, e acolhimento com o que sente.
Juntando tudo
A criança não se regula sozinha. Ela precisa de um adulto regulado para se regular por meio da corregulação.
A capacidade de autorregulação do adulto foi construída a partir das experiências de corregulação que ele viveu ao longo do desenvolvimento.
Autorregulação é corregulação internalizada.
Mesmo na vida adulta, continuamos precisando de vínculos reguladores. Um adulto também pode se reorganizar emocionalmente ao estar com outro adulto regulado.
Quanto mais experiências de presença segura na infância, maior tende a ser a autonomia emocional na vida adulta.
E quanto maior a dificuldade de se autorregular hoje, maior pode ter sido a ausência de corregulação no início da vida.
Nada disso é sentença. É história de desenvolvimento. E história pode ser compreendida, ressignificada e transformada.










in memoriam